Ser feliz aos 20 anos, aos 40 ou aos 60 não é, decerto, a mesma coisa. Mas não se é, forçosamente, mais feliz na juventude ou menos feliz na idade adulta. Estudos recentes comprovam que o que muda não são os níveis de felicidade, mas sim o seu significado. Esta alteração está relacionada, em particular, com o tempo de vida “que nos resta” e com o tipo de experiências que elegemos em diferentes fases da nossa existência
POR
HELENA OLIVEIRA

Ao longo dos últimos anos, o interesse na temática da “felicidade” tem vindo a aumentar substancialmente: multiplicam-se os estudos, os índices e os rankings sobre a mesma, florescem os livros que a tentam “vender”, partilham-se citações e frases bonitas sobre como a encontrar e até a contagiante música “Happy”, de Pharell Williams, teve direito a três prémios na edição dos prémios Grammy de 2015. Todavia e apesar de quase roçar o ridículo, por tão aparentemente óbvio, o factor “idade” pouco é estudado ou referido nesta nova (?) cruzada para se explicar o que torna as pessoas mais ou menos felizes. Se recorrermos ao senso comum, será fácil declarar que os mais novos são mais felizes e que os mais velhos menos, mas a verdade é que, segundo investigações recentes, a idades diferentes correspondem tipos de felicidade igualmente distintos.

Quem o afirma são dois investigadores, Amit Bhattacharjee, da Darmouth University e Cassie Mogilner, da University of Pennsylvannia, que há já alguns anos a esta parte se têm dedicado a estudos diversos sobre a influência da idade na felicidade, em conjunto com uma professora de Stanford, Jennifer Aaker e com Sepandar Kamvar, do MIT. Num conjunto diverso de papers já publicados, estes investigadores chegaram a algumas conclusões interessantes, sendo que uma delas se prende com o facto de o conceito de felicidade se alterar ao longo da vida, estando primordialmente relacionado com o tempo de vida “que nos resta”e com o tipo de experiências que elegemos em diferentes fases da nossa existência.

Não será, portanto, de estranhar o facto de, enquanto jovens, acreditarmos que temos na mão todo o tempo do mundo e, por isso mesmo, valorizarmos experiências mais “extraordinárias”, caracterizadas pela fuga à monotonia e às rotinas diárias e, à medida que vamos envelhecendo, e tomando consciência que o nosso tempo é limitado, apreciarmos mais o valor das experiências “normais”.

E porquê? De acordo com os estudos realizados por Bhattacharjee e Mogilner, para os jovens que tentam estabelecer as suas identidades pessoais e perceber que tipo de adultos virão a ser, os acontecimentos extraordinários em muito contribuem para esta cruzada, sejam eles conhecer uma determinada celebridade e “postar” esse momento nas redes sociais, ou praticar um desporto radical, ou qualquer outra coisa que os “arraste” para longe da rotina diária e que, preferencialmente, possa ser mostrada aos amigos como uma espécie de troféu. Em termos culturais, e se por acaso o leitor tiver filhos adolescentes, decerto reconhecerá a tão utilizada expressão “YOLO” (You Only Live Once), uma espécie de “hino” cultural das gerações mais jovens, o qual não passa, na verdade, de um upgrade do também famoso “Carpe Diem”, mais próximo das gerações mais velhas.

Em contraste, as pessoas mais velhas tendem a encontrar a felicidade e a definirem-se a si mesmas nas experiências comuns que fazem parte das suas rotinas diárias: jantar com amigos, ir ao cinema com a “cara-metade”, fazer férias em família ou simplesmente definir a felicidade como um bom banho quente de imersão no final de um dia extenuante de trabalho.

Um dos factores mais importantes provenientes desta hipótese colocada pelas duas professoras de marketing (que utilizam os seus estudos também, e obviamente, para perceberem que tipo de produtos e serviços cativam as diferentes “idades”) prende-se com o facto de esta “felicidade” ser resultante de características psicológicas e não culturais. Um dos seus argumentos mais fortes é o de que, à medida que vamos envelhecendo – e tomamos consciência que temos menos dias “à nossa frente”, começamos a centrar a nossa atenção – e a retirar mais prazer -, das situações que controlamos, ou seja, as que definem as nossas rotinas diárias, de que são exemplo as amizades mais estreitas que fizemos e mantemos, ou simplesmente o facto de jantarmos em família e termos à nossa frente um serão calmo com um bom filme para ver ou um bom livro para ler. E foi exactamente isso que as investigadores comprovaram nas experiências que fizeram, algo que é oposto a uma outra teoria vigente que reza que quanto menos tempo se tem para viver, maior é a vontade para se fazer “coisas extraordinárias”. Apesar de esta ser também uma realidade para várias pessoas – aquelas que são apontadas como “já não tens idade para fazer isto ou aquilo”-, no geral, à medida que se vai envelhecendo, mais nos agarramos ao que já conseguimos conquistar. Ou seja, valorizar e saborear o que já se tem é comum a partir do momento em que nos apercebemos que o tempo que nos resta é limitado.

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Entusiasmo versus serenidade

Em uma das oito experiências realizadas por Bhattacharjee e Mogilner, as investigadoras perguntaram a uma audiência composta por pessoas entre os 18 e os 79 anos para recordarem uma experiência, que fosse extraordinária ou comum, e que as classificassem, de seguida, em termos de resposta emocional. Das respostas a este teste em específico concluiu-se que a felicidade derivada de experiências extraordinárias se mantinha razoavelmente constante, mas o prazer retirado de experiências “normais” aumentava à medida que aumentava também a idade dos inquiridos.

Numa outra experiência, a percepção individual do futuro – “ilimitada” ou limitada – foi considerada como crucial para explicar os resultados. Com base na análise de cerca 12 milhões de blogs, Cassie Mogliner, em conjunto com Jennifer Aaker e Sepandar Kamvar, procuravam evidências para a sua hipótese de partida quanto à forma como se sente a felicidade em idades diferentes. Em especifico, os investigadores estavam interessados em saber que tipo de emoções os bloggers expressavam quando falavam em “sentirem-se felizes”.

E concluíram que os bloggers mais jovens descreviam as suas experiências de felicidade como alturas em que se sentiram “excitados, eufóricos ou exultantes” – ou, na verdade, da mesma forma que se sentem as pessoas que antecipam os prazeres que o futuro lhes trará – tal como apaixonarem-se, terem uma boa carreira ou mudarem-se para uma cidade “ideal”.

Por seu turno, os bloggers mais velhos optaram sempre por descrever as suas experiências de felicidade enquanto momentos em que se sentiram “tranquilos, relaxados, calmos ou aliviados” – ou, em linguagem “normal”, o que se sente quando partilhamos uma vida calma com alguém, quando nos mantemos saudáveis e em condições de pagar as prestações da casa ou do carro. Este tipo de felicidade tem, assim, menos a ver com o “caminho a percorrer” e muito mais com o dar graças pelo que se tem nesta fase em particular da vida.

Os resultados destas experiências estão igualmente em linha com os estudos realizados por Laura Carstensen, professora de políticas públicas e de psicologia, e responsável pelo Stanford Center of Longevity, a qual defende igualmente que o facto de os adultos mais velhos sentirem que o seu tempo é limitado altera as suas perspectivas emocionais, o que os leva a investir grande parte das suas energias naquilo a que mais significado conferem.

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O peso das motivações

E eis que chega o dia em que um bom programa de sexta-feira não passa por uma saída à noite para dançar como se não houvesse amanhã e damos connosco a questionarmo-nos “o que raio se passa comigo?”. Sim, é verdade, todos crescemos e existe uma tendência quase masoquista que nos obriga a olhar para trás e a suspirar pela juventude ida e perdida, mas a verdade é que, para muitos “adultos”, o significado de “ser feliz” simplesmente evolui – tal como a vida – para algo que é diferente.

Os psicólogos sociais descrevem esta mudança como uma consequência de uma alteração gradual da denominada “motivação para a promoção” – a qual significa pensarmos nos nossos objectivos em termos dos benefícios que poderemos ganhar com os mesmos – para uma “motivação para a prevenção” – cujos objectivos são definidos em termos de evitarmos perdas e mantermos o que temos numa espécie de “velocidade de cruzeiro”. Apesar de pessoas de todas as idades terem ambas as motivações, o que difere é a sua “quantidade” de pessoa para pessoa, a qual vai sofrendo mutações à medida que vamos envelhecendo.

De acordo com a revista académica Psychology and Aging, da Northwestern University, a motivação para a promoção é, sem grandes surpresas, mais prevalecente entre os jovens, na medida em que a juventude consiste no tempo ideal para nos concentrarmos nos objectivos para o futuro, para pensarmos em lutar por ideais, sem sentirmos ainda o peso das responsabilidades e com toda a esperança do mundo deque conseguiremos fazer qualquer coisa a que nos possamos propor. Já sem falar na ideia de “imortalidade”que é também uma companhia própria da idade.

Ao invés, e à medida que envelhecemos, as ilusões de imortalidade obviamente que desaparecem, existem filhos para criar, contas para pagar, trabalho para manter e as motivações para a “prevenção” começam a pesar muito mais. E é por isso que prezamos, crescentemente, o que já conseguimos atingir, e que não queremos perder, em conjunto com a tal experiência, que inclui mais momentos de dor ou de perda ou, por outras palavras, que nos vai dando novas e, muitas vezes duras, lições.

Todavia, o que é importante reter é que a felicidade que sentimos aos 20 anos não é a mesma que aos 40 ou aos 60, mas que não existe mal nenhum nisso. Há é que saber gozá-la com tudo a seu tempo.