Identificar uma organização social alinhada em termos de valores e da sua missão no mundo, e que na realidade precise de apoio, é um desafio gigante. E da perspetiva das organizações sociais encontrar e envolver talento de gestão pro bono é mais complexo do que incorporar um voluntariado mais focado nas operações. Foi a partir destas observações que criámos o curso de Liderança Social para Gestores, em parceria com a Fundação “la Caixa” e o BPI e no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social. Um curso dirigido a profissionais de gestão com larga experiência no setor privado, que querem começar uma jornada de impacto através de funções não executivas no setor social
POR JOANA CASTRO E COSTA

Nestes últimos 3 anos tive o privilégio de aprender muito sobre o setor social e sobre a sua relação com outros setores. Se pudesse hoje destacar uma palavra esta seria talento. Porque as organizações são feitas de talento, de pessoas e da maneira como estas se relacionam enquanto equipa.

É impressionante a quantidade de talento já presente no setor social – um setor que é extremamente resiliente e ágil, acima de tudo pelas suas pessoas, apaixonadas pelas suas missões sociais, conscientes da urgência das situações de vida dos seus beneficiários diretos.

Mas sabemos também que este é um setor de baixos recursos, que se reinventa diariamente em face dos seus muitos desafios, que paga salários baixos (em 2016, segundo dados da Conta Satélite da Cases e do INE, a remuneração média da economia social correspondia a 86,3% da média nacional, sendo que a administração pública correspondia a 145%) – e que tem dificuldades na atração de talento, em particular no que toca a perfis de gestão.

O que observamos hoje em dia é que muitas organizações, pressionadas pelo constante desafio diário, ou pela falta de competências de gestão nas suas equipas, não conseguem efetivamente parar para refletir estrategicamente sobre como seria possível re-imaginar a sua operação ou questionar como endereçar os seus atuais desafios nas diferentes áreas de uma organização – Estratégia, Marketing e Comunicação, Operações, Financeira…. E isto tem implicações sobre como pensam em aumentar o seu impacto, repensam processos críticos para melhorar o serviço que prestam aos seus beneficiários, ou até operam mudanças no seu modelo de negócio que permitam a sobrevivência da sua missão.

Há várias maneiras de pensar sobre como responder a este desafio, nomeadamente a capacitação do talento existente e atração de mais talento. É sobre a perspetiva da atração de mais talento que hoje vos proponho refletir. Através do programa Social Leapfrog, e de várias pessoas que vêm ter à Nova SBE, tenho sido testemunha da impressionante quantidade de talento, em particular de pessoas com experiência de muitos anos no setor privado, que querem contribuir para o fortalecimento do setor social partilhando o seu tempo e os seus conhecimentos ao serviço do bem comum. E muitos já o estão a fazer, nomeadamente em funções não executivas, normalmente pertencendo aos órgãos sociais e apoiando no seu tempo livre a liderança executiva. Como lá chegaram? Provavelmente através de um convite, por uma relação já existente de confiança.

Mas para quem não tenha já recebido um convite de alguma organização, identificar uma organização social alinhada em termos de valores e da sua missão no mundo, e que na realidade precise de apoio, é um desafio gigante. E da perspetiva das organizações sociais encontrar e envolver talento de gestão pro bono é mais complexo do que incorporar um voluntariado mais focado nas operações.

Foi a partir destas observações que criámos o curso de Liderança Social para Gestores, em parceria com a Fundação “la Caixa” e o BPI e no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social. Um curso dirigido a profissionais de gestão com larga experiência no setor privado, que querem começar uma jornada de impacto através de funções não executivas no setor social. Para além de facultar aos gestores o enquadramento do setor, os conceitos sobre os diferentes modelos de negócios e entidades jurídicas, noções sobre as ferramentas e os temas de reflexão essenciais, e qual o papel de um não executivo, durante o programa oferecemos o contacto e trabalho direto com uma organização social.

Adicionalmente, no fim do programa acompanharemos a colocação de cada formando numa organização social em funções não executivas, apoiando também as organizações sociais na criação de conselhos consultivos à medida das necessidades de cada organização e dos perfis de gestores que permitam criar uma relação de confiança e maximizar o valor acrescentado dos profissionais de gestão. Mais do que capacitar talento (que já tem talento!), queremos colocar talento no setor social, queremos criar uma ponte efetiva para que este talento gere impacto num setor que é tão fundamental na nossa sociedade, ainda mais neste contexto de pandemia.

Sabemos que existe da parte das empresas, seus líderes e colaboradores vontade de contribuir para um propósito maior. Já várias iniciativas de responsabilidade social e de voluntariado corporativo têm conseguido fazer esta ligação com o setor social. Queremos com esta iniciativa continuar este caminho e fazer com que esta ponte se enraíze efetivamente entre o setor privado e o setor social. Assim acreditamos que o talento de gestão consiga colocar ao serviço de uma organização os seus conhecimentos de estratégia e de negócio, e a sua rede, de uma maneira mais sustentável no tempo.

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