O voluntariado em tempos de pandemia e depois de ultrapassarmos esta fase adversa, terá de se reinventar. Aprender a tangibilizar-se em atividades à distância, numa perspetiva simultaneamente local e global, reestruturar os seus códigos de conduta, reafirmar compromissos, apostar no voluntariado de competências e da intervenção climática e debater, com coragem, o papel das lideranças voluntárias
POR PAULA GUIMARÃES

Quem atua na área social tem a noção de que a pandemia deixará marcas irreversíveis nas pessoas, nas organizações e na própria estrutura da comunidade.

Se os danos causados na economia são evidentes e tenderão a gravar-se nos próximos tempos, não são menos relevantes os efeitos ocorridos ao nível do relacionamento humano.

A já frágil solidariedade entre gerações sofreu um enorme abalo com o distanciamento social, com a guetização dos mais velhos nos lares e nas zonas despovoadas do país. Veio a lume a já latente crise de funcionamento de muitas entidades de economia social, tornam-se visíveis os sinais de desajustamento das respostas e dos seus modelos de funcionamento.

É, também, incontornável a crise profunda dos sistemas clássicos de participação e as estruturas da democracia que conhecemos exigem reformulação.

Por tudo isto, sinteticamente invocado, o voluntariado enfrenta novos desafios e posiciona-se como uma experiência cívica e de cidadania capaz de dotar cada um de nós dos ingredientes fundamentais para sobreviver no pós-covid.

Porque fazer voluntariado nos ensina estratégias colaborativas, nos instiga a conhecer o mundo de forma curiosa e tolerante, porque nos obriga a ser resilientes e humildes, porque nos empurra para fora da zona de conforto e nos faz aprender com os outros.

O voluntariado em tempos de pandemia e depois de ultrapassarmos esta fase adversa, terá que se reinventar. Aprender a tangibilizar-se em atividades à distância, numa perspetiva simultaneamente local e global, reestruturar os seus códigos de conduta, reafirmar compromissos, apostar no voluntariado de competências e da intervenção climática e debater, com coragem, o papel das lideranças voluntárias.

Mas o contexto que atualmente vivemos também traz ameaças.

O voluntariado corre o risco de ser usado como mão de obra gratuita e de emergência, de ser encarado como panaceia para a falta de uma visão preventiva e valorizadora do setor social. Nunca é demais sublinhar que os voluntários não podem, nem devem substituir os profissionais, que não podem, nem devem ser integrados numa organização sem que esta tenha um programa, uma estrutura de supervisão e sem que sejam rigorosamente selecionados e formados.

O voluntariado não é a solução para a insuficiência de recursos humanos da economia social!

É, pelo contrário, um complemento para aquelas que já se encontram numa fase avançada de atividade e de reflexão, que sabem o que querem e que podem oferecer aos voluntários e aos clientes saudáveis relações de convivência e desenvolvimento mútuo.

As medidas que têm vindo a ser desenhadas para combater a falta de recursos em virtude da Covid são, por isso, insuficientes e podem vir a revelar-se desastrosas pela ausência de preparação e de enquadramento.

Além de que, por terem sido implementadas em circunstâncias anómalas, dificilmente deixarão um lastro que perdure para além desta fase difícil.

Mas devemos ser otimistas e acreditar que muitas manifestações de entreajuda, de solidariedade genuína e de entrega à comunidade se irão fortalecer nos próximos anos, impelidos por um cenário de generalizada ansiedade e pelos sinais que o planeta e a sociedade nos dão de que é preciso uma profunda renovação.

O voluntariado é a expressão de uma força motriz de dádiva que efetiva o melhor de cada ser humano, e não pode ser visto apenas como um recurso para usar em caso de aflição, porque é a trave mestra perene e serena das sociedades do futuro.

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