A actuação íntegra é oposta à actuação corrupta, logo uma pessoa íntegra não realiza acções corruptas. No entanto, para limpar uma sociedade de teias de corrupção, não são suficientes pessoas íntegras: são necessários líderes. Esta afirmação, de tanta actualidade um pouco por todo o mundo, é um dos corolários do sistema Virtuous Leadership. O seu criador, Alexandre Dianine-Havard, regressa estes dias a Portugal para dar uma série de conferências, em Lisboa, Coimbra, Porto e Braga
POR ANA MACHADO

Há cerca de um ano o VER entrevistou Alexandre Dianine-Havard, por ocasião do Seminário que este deu na AESE Business School. Desta vez, Dianine-Havard começa de novo com uma sessão na AESE (agora restrita aos participantes no Executive MBA), mas segue-se um plano que ocupa cinco dias e mostra bem o impulso que nestes meses se deu no nosso país à abordagem à liderança baseada no carácter, com a criação da Associação Virtuous Leadership.

Portugal une-se assim a uma comunidade de especialistas de uma ampla variedade de sectores que juntos coordenam um movimento internacional cujo objectivo é colaborar na formação de uma nova geração de líderes virtuosos capazes de transformar o mundo. A Virtuous Leadership está presente também na Rússia, França, Bélgica, Finlândia, Espanha, Líbano, China, Nigéria, Guatemala e Estados Unidos. Em cada país, existem organizações legalmente independentes que colaboram activamente entre si.

Alexandre Havard é o co-fundador do Virtuous Leadership Institute, autor de vários livros e advogado – © AESE Business School

Na génese da Virtuous Leadership está a consideração de que a garantia de uma boa liderança reside no carácter do líder e, portanto, nas suas virtudes. Para ser líder, não basta ter poder: liderar é um exercício de autoridade que integra o carácter pessoal. Nesse sentido, a liderança não é algo com que se nasce, mas uma capacidade que se desenvolve, na consciência da dignidade humana própria e alheia.

[quote_center]A garantia de uma boa liderança reside no carácter do líder e, portanto, nas suas virtudes[/quote_center]

Seguindo os ensinamentos clássicos, Dianine-Havard afirma que aquele que pratica as quatro virtudes de base (a prudência, a coragem, o autodomínio e a justiça) é uma pessoa íntegra. Uma pessoa íntegra conhece a verdade sobre si mesma e vive nessa verdade. Está atenta à realidade exterior e respeita-a. Assume riscos quando é necessário. Mantém o rumo, mesmo sob pressão. Diz “sim” ao que a enobrece e “não” ao que a avilta. É empática. Cumpre com esmero as suas obrigações profissionais, sociais e familiares.

Esta integridade é um passo decisivo para a liderança. Mas outros passos devem ser dados. Uma pessoa íntegra será líder se praticar igualmente as virtudes da magnanimidade e da humildade. Sem integridade não há liderança, mas a liderança vai mais longe. Muitas são as pessoas íntegras, mas que ainda estão longe da liderança.

[quote_center]A liderança exige um coração activo, que transforma a contemplação em acção para servir com eficácia[/quote_center]

Usando a imagem do coração como o núcleo vital da pessoa, Dianine-Havard diz-nos que sem um coração contemplativo (humildade fundamental), uma inteligência esclarecida (prudência) e uma vontade forte (coragem, autodomínio e justiça) não há liderança. Mas a liderança exige ainda algo mais: um coração activo. Um coração activo é um coração que transforma a contemplação em acção para servir com eficácia. O líder é necessariamente profundo, mas para ele a profundidade não basta: tem que jorrar para o exterior. O conhecimento de si não leva o líder à auto-satisfação nem à autoflagelação. Leva-o a sair de si para servir os outros.

O líder é íntegro, mas a integridade não é a sua característica essencial. Os seus traços específicos são a grandeza e o serviço. A grandeza é o resultado da prática da magnanimidade; o serviço é o resultado da prática da humildade.

Ana Machado

Cátedra de Ética na Empresa e na Sociedade AESE/EDP