As décadas “extra” de vida que temos vindo a ganhar exigem um olhar renovado sobre o que significa envelhecer no século XXI. E, enquanto indivíduos, prepararmo-nos para um novo ciclo de vida – que muitos apelidam já de “gerontolescência – torna-se crucial. Que medidas podemos tomar para nos mantermos saudáveis, com uma mobilidade adequada e com as nossas capacidades cognitivas salvaguardadas? Como iremos repensar os diferentes ciclos das nossas vidas? Qual será o nosso propósito depois de nos reformarmos? A resposta a esta e a muitas outras questões não é fácil, mas deverá estar não só na nossa agenda pessoal, como na dos governos de todo o mundo
POR HELENA OLIVEIRA

A esperança de vida na União Europeia – e em grande parte do resto do mundo – aumentou significativamente ao longo das últimas décadas e espera-se que assim continue a acontecer, ao mesmo tempo que os estados de saúde tradicionalmente associados à idade têm vindo igualmente a melhorar. Todavia e contrastando com estas alterações profundas, os conceitos que os demógrafos utilizam para analisar o envelhecimento das populações têm-se mantido amplamente estáticos. Ou seja, as mudanças substanciais na esperança de vida e nas condições de saúde tornaram as avaliações demográficas tradicionais inadequadas para a análise do envelhecimento no século XXI. E é cada vez mais urgente que os mesmos sejam abordados de uma forma distinta. Até 2050, estima-se que a população global com idade superior a 60 anos ultrapasse os dois mil milhões de pessoas e que, pela primeira vez na história, esta geração seja superior em número à geração mais nova, até aos 15 anos.

Graças aos padrões actuais de prevenção e tratamento, espera-se que a maioria das pessoas viva pelo menos até aos 70 anos e que em 2030 essa média passe para os 80 anos. Mas estaremos preparados para viver até aos 80 anos e, possivelmente, até aos 100? Enquanto indivíduos e enquanto sociedade, temos a oportunidade, em conjunto com a responsabilidade, de pensarmos no que representam estes 10, 20 ou 30 anos “a mais” nas nossas vidas, sendo que existem já várias indústrias a responder aos desafios desta “explosão” da idade.

À medida que envelhecemos, podemos esperar beneficiar, cada vez mais, de novas tecnologias e tratamentos inovadores concebidos para “manter” a mobilidade e as “funcionalidades” necessárias para vivermos o melhor possível. A Inteligência Artificial, por exemplo, pode ajudar a compreender de que forma a carga genética tem impacto no envelhecimento, ao mesmo tempo que poderá oferecer ajuda “robotizada” aos que desejam continuar a viver em suas casas mesmo já em idade avançada. Por seu turno, a área da medicina está a ter em conta estratégias personalizadas, a partir da análise de dados, para melhorar a nossa qualidade de vida à medida que “ganhamos” novas décadas. O estudo que se segue, intitulado The Future of Getting Old, que incide particularmente nas áreas da medicina, psicologia e tecnologia, teve o contributo de um conjunto de especialistas de todas estas disciplinas e tem como objectivo “ajudar a envelhecer melhor”.

A biologia do envelhecimento

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Contrariamente ao que diz o ditado, “não morremos de velhos”. Em vez de uma condição única, o envelhecimento é o resultado de falhas inter-relacionadas nas nossas células em contínua replicação. Existem nove processos físicos conhecidos que se deterioram com o tempo, sendo que são estes “identificadores da idade” que abrem as portas a falhas no sistema como as doenças coronárias ou o cancro, bem como a um conjunto de desafios à saúde, como a perda de mobilidade ou de memória. E apesar de existirem formas de atrasar estas condições (por exemplo, optar por alimentos ricos em cálcio para fortalecer os ossos) bem como procedimentos médicos que podem remover e/ou substituir o que já não está a funcionar, a verdade é que não é ainda possível reconhecer as causas do envelhecimento antes de estas acontecerem.

Assim, encontrar formas de gerir estas causas irá exigir quantidades gigantescas de pesquisa adicional. Apesar de já terem existido algumas vitórias na extensão dos ciclos de vida dos ratos, por exemplo, existe ainda uma longa estrada a percorrer na aplicação destes resultados aos humanos, sendo que também não existem garantias de que o que em funcionou no laboratório irá ter os mesmos efeitos no corpo humano.

Apesar das dúvidas, do tempo que demoram os ensaios clínicos e da possível aprovação dos procedimentos pelas instituições responsáveis como a FDA (Food and Drugs Administration), nos Estados Unidos, ou a Agência Europeia do Medicamento, na Europa, as descobertas mais recentes provam que este tipo de investigação poderá dar bons resultados. Um bom exemplo é a terapia dos genes, a qual aborda as causas mais fundamentais do envelhecimento e da doença. Testada, pela primeira vez, nos anos de 1990, a terapia genética substitui partes vitais do nosso código genético que estão “defeituosas” – ou em falta – com novo ADN. O método em causa permanece em fase de testes para o tratamento de várias doenças, como o cancro ou a Doença de Parkinson, ambos geralmente diagnosticados em idades mais avançadas.

Envelhecer de forma independente

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As limitações físicas constituem um resultado directo do processo biológico do envelhecimento e, obviamente, são também um dos maiores temores para as pessoas que vão avançando na idade. Numa pesquisa feita nos Estados Unidos em 2017, 63% dos entrevistados com mais de 30 anos declararam ter uma enorme preocupação relativamente à perda de autonomia quando envelhecerem. E não é para menos, já que apesar de um evento traumático ou uma doença não serem absolutamente certos, o envelhecimento físico acontece a todos e ninguém lhe pode escapar. O desgastar dos ossos e a perda de massa muscular em conjunto com a debilitação sensorial podem transformar as mais fáceis tarefas em verdadeiros desafios, seja simplesmente o acto de nos levantarmos da cama ou brincar com os netos. Adicionalmente, cerca de 50% dos adultos com mais de 65 anos desenvolvem algum tipo de artrite, sendo crescentemente difícil agarrar determinadas coisas com as mãos ou descer umas escadas. E, à medida que a mobilidade começa a falhar, as pesquisas demonstram que os indivíduos têm uma maior tendência para se isolarem da sociedade, abrindo caminho ao desenvolvimento de doenças crónicas e, consequentemente, a uma reduzida qualidade de vida.

Contudo, esta não é uma situação mediante a qual nos devemos sentir impotentes. As pesquisas demonstram que existem medidas preventivas que podem e devem ser tomadas para nos ajudar a manter a mobilidade. Os treinos de fortalecimento, por exemplo, são capazes de combater a perda muscular conhecida como sarcopenia. De acordo com um estudo feito a pessoas na casa dos 90 anos, estes aumentaram a força dos seus músculos em 174% e a sua velocidade de marcha em 48% depois de oito semanas de treino de resistência. Daí a importância de um estilo de vida activo, o que não significa que os mais velhos tenham de frequentar o ginásio. Num estudo recente sobre a mobilidade em idades avançadas, os investigadores viram melhorias significativas nos casos em os participantes fazem actividades domésticas, passeiam o seu cão ou simplesmente caminham durante algum tempo. E também a actividade social, como visitar os amigos ou a família, promete igualmente benefícios de saúde física e mental.

Já os seniores que vivem vidas mais sedentárias triplicam a possibilidade de virem a sofrer de falhas graves na mobilidade.

Todavia e para muitos, o desafio para manter um estilo de vida activo não tem a ver com falta de interesse, mas com dificuldades na locomoção e transporte. Daí que seja urgente os governos apostarem numa mudança abrangente na rede de transportes públicos que beneficie os mais idosos. Como defende Joseph Coughlin, Director e fundador do AgeLab do MIT, são várias as modificações que têm de ser feitas, desde as questões de acessibilidade à compra de bilhetes, e até mesmo na iluminação, de forma a tornar mais fácil o uso dos transportes públicos para este segmento populacional. Por outro lado, as cidades e vilas devem igualmente promover a mobilidade para a sua população sénior facilitando determinados transportes especificamente para visitas aos médicos ou promovendo saídas e actividades em grupo. Encontrar formas para diminuir as barreiras logísticas para que se permaneça activo é um componente essencial para se viver bem.

Por exemplo, o AgeLab do MIT está a trabalhar com a indústria automóvel para a concepção de veículos inteligentes que promovam “uma condução segura para toda a vida”. Em curso, tem mais de 20 projectos que estudam as principais inibições dos mais velhos no que respeita ao acto de conduzir em segurança. Armados com estes dados, Coughlin e os seus colegas têm vindo a identificar várias formas que permitem que a tecnologia actual possa ser melhor desenhada para ajudar os mais velhos a continuarem a conduzir.

Perceber a demência

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Em conjunto com as preocupações relacionadas com a perda de mobilidade física, são muitas as pessoas que se mostram profundamente preocupadas com a perda das suas faculdades mentais. A demência, uma doença do cérebro progressiva que causa a deterioração da memória e a capacidade para pensar claramente é uma das condições crónicas mis comuns associadas à idade. Mas e apesar da sua elevada incidência, persiste uma falta de consciencialização e compreensão na sociedade face à mesma. A maioria das pessoas está familiarizada com a Doença de Alzheimer, o tipo mais comum de demência, conhecida pelo seu impacto na memória e nas capacidades cognitivas. Mas existem vários tipos de demência irreversíveis e que envolvem uma progressão contínua dos sintomas.

Enquanto a ciência continua à procura de uma cura química, os investigadores ainda não chegaram a conclusão alguma sobre o alvo a atacar com um determinando fármaco. A demência funciona como um termo médico “chapéu-de-chuva” para um ‘síndrome’ (um conjunto de sintomas que aparecem em conjunto), e não para um mau funcionamento específico. Todavia, são vários os estudos em curso que prometem progressos. Recentemente, os investigadores descobriram que certos tipos de inflamações ligadas à demência têm causas genéticas, sendo que alguns deles podem ser diagnosticados antes do nascimento. E perceber factores de risco como estes é de significativa importância no desenvolvimento de métodos de prevenção. Tendo em conta os habituais comportamento de risco como fumar, a obesidade, o consumo excessivo de álcool ou uma dieta pobre, os investigadores estão a treinar os algoritmos das machine learning para identificarem mais factores de risco para antecipar o início da doença o mais cedo possível, dando tempo às famílias para explorarem opções de tratamento. Cientistas na McGill University estão a usar também os algoritmos de machine learning para identificarem candidatos “mais apropriados” aos ensaios clínicos com base na sua maior probabilidade de contraírem demência. E o algoritmo já desenvolvido pode prever o início da demência com 84% de precisão.

Como sabemos, a idade consiste no factor de risco mais comum neste tipo de doenças cognitivas, sendo algo que (ainda) não podemos controlar. Daí ser extremamente importante continuar-se a financiar pesquisas sobre a forma como esta condição funciona, de forma a que a sociedade possa estar melhor equipada para servir a crescente população que sofre de vários tipos de demência e sermos capazes de fazer mais e melhor para a prevenir.

Aqueles que sofrem de demência acabam, geralmente, por cair numa espiral que se auto-reforça. À medida que as suas capacidades cognitivas começam a falhar, começam a ficar esquecidos e confusos, podendo perder a ideia das actividades rotineiras e dos horários e até esquecerem-se de actos tão “humanos” como comer ou tomar banho. Pior é o facto deste caos que se vai instalando tornar ainda mais difícil lidar com a doença, sendo que o resultado é a libertação de hormonas de stress que podem acelerar o progresso da doença.

Para quebrar este ciclo, os investigadores estão a voltar-se para a tecnologia, com um especial enfoque em pacientes que não conseguem lembrar-se onde estão ou até quem são. No caso de se perderem – ou sentirem-se perdidos – a geolocalização poderá ajudar a perceber onde estão ou avisar a família ou outro cuidador para vir em seu auxílio. Também o software de reconhecimento facial pode ajudar os doentes de Alzheimer a identificarem amigos e familiares. Por outro lado, robots domésticos terapêuticos e interactivos estão já a “oferecer” aos pacientes um sentimento de acompanhamento, sendo que as máquinas têm uma paciência sobre-humana para lidar com o estado difuso da mente destas pessoas.

O dividendo da longevidade

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Quando, nos Estados Unidos, a idade de reforma aos 65 anos foi estabelecida em 1935, a esperança média de vida rondava os 61 anos. E se a esperança de vida foi aumentando ao longo das últimas décadas (bem como a idade de reforma em alguns países), a verdade é que se continua a falar desta fase da vida praticamente nos mesmos termos do que há 80 anos. Rick Gorvett, um investigador em ciência actuarial (o estudo estatístico do comportamento humano enquanto um grupo), afirma que a abordagem que fazemos a este ciclo da vida terá de ser radicalmente alterado à medida que aumenta a esperança de vida. E quando planearmos o nosso futuro, estará na altura de perguntarmos a nós mesmos “o que é que vamos fazer com décadas extra de vida?”

Claro que serão muitos aqueles que trabalharão até mais tarde – o que é já uma evidência em vários países – enquanto outros aproveitarão para ter os seus hobbys e perseguir os seus interesses pessoais.. O investigador em longevidade Alex Kalache chama a esta fase da vida “gerontolescência” – uma espécie de segunda adolescência a ser vivida entre os 50 e os 75 anos de idade. “Da mesma forma que os baby boomers criaram um novo espaço entre a infância e a idade adulta, o mesmo irá acontecer com muitas pessoas neste segmento etário que, em vez de ‘se tornarem velhos’ irão, pelo contrário, encontrar novas formas de contribuir em prol da sociedade e de si mesmos.

Na actualidade e nos Estados Unidos (onde este estudo foi feito), a idade de reforma mantém-se em torno dos 63 anos (em Portugal, e a partir deste ano, é de 66 anos e cinco meses) e, geralmente, tal deve-se a questões de saúde. Mas com as acções preventivas e as melhorias na eficácia dos medicamentos, que ajudam em particular a manter a mobilidade e a gerir algumas condições crónicas, é muito provável que esta venha a aumentar em muitos países, seja por razões financeiras – no nosso caso, não nos podemos esquecer da (in)sustentabilidade da segurança social – ou porque simplesmente as pessoas não se sentem motivadas para deixarem de trabalhar.

E se permanecer na mesma carreira poderá não ser algo muito apelativo, abraçar uma nova ou dar início a um negócio serão, com certeza, outras alternativas a considerar. São vários os dados que sugerem que as pessoas com 65 e mais anos têm uma maior tendência para trabalhar para si próprias comparativamente às gerações mais novas. E, na actualidade, são já muitos os seniores que já estão a retirar benefícios da chamada “gig economy” para encontrarem alternativas de trabalho pós-reforma, e estão a fazê-lo com sucesso. Por exemplo, é cada vez mais normal ver-se pessoas com mais de 60 anos a trabalhar em hospitais e em lares, sendo que os serviços de passeio de cães estão crescentemente a ser feitos por pessoas com mais de 50 anos. Adicionalmente, o trabalho de freelance para muitos seniores que têm competências de escrita é também muito utilizado. Enquanto a “velhice” está associada a um estigma de “abrandamento mental”, a maioria de nós estará muito bem equipado para realizar estas novas tarefas. Adicionalmente, são vários os estudos que demonstram que o cérebro pode melhorar com a idade, pois existe uma melhor sincronização entre as funções que integram o seu lado esquerdo e direito, o que aumenta o controlo emocional, conferindo-lhe uma muito maior estabilidade.

Quando estamos em idade activa e a trabalhar a tempo inteiro, todos sonhamos com o dia em que não sejamos obrigados a fazer nada. Todavia, o facto de se ter um “propósito” nesta fase da vida é comprovadamente benéfico para a saúde, sendo vários os estudos que o demonstram. Em 2016, o relatório “The Power of Purposeful Aging” concluiu que existe uma relação directa entre a existência de um propósito e um envelhecimento mais lento e saudável. O relatório cita vários estudos que documentam que uma auto-percepção positiva do processo de envelhecimento (ou, por outras palavras, a crença de que é possível envelhecer “bem”) pode aumentar a longevidade em sete anos e meio, e que os indivíduos que sentem um nível elevado de propósito estão mais aptos a combater a Doença de Alzheimer. Assim, qualquer actividade que possa dar prazer e nos faça sentir bem – em especial contribuindo igualmente para o bem de outros – é essencial para que encaremos estas décadas extra de vida com uma bênção.


Se a idade é apenas um número, quando “começa” a velhice?

A resposta depende, em primeiro lugar, da idade que se tem neste preciso momento. De acordo com um estudo realizado pelo U.S.Trust, que inquiriu mais de 800 agregados de elevado rendimento, são os millennials (cuja idade é definida, neste caso, entre os 21 e os 36 anos) que se mostraram mais “inclusivos” no que respeita a definir quem ainda é jovem, afirmando que a juventude termina aos 40 anos e a “velhice” tem o seu início aos 59 anos. Por seu turno, para a geração X (que inclui aqueles que têm, hoje, entre 37 a 52 anos), a velhice tem início aos 65 anos, mas a juventude termina logo aos 31 anos. Para os boomers (entre 53 e 72 anos), a juventude termina igualmente aos 31 anos, mas a velhice só começa aos 73.

Já no que respeita à denominada “flor da idade” – aquela em que os nossos recursos, capacidades, potencial e influência estão no seu melhor -, os millennials situam-na nos 36 anos, ao passo que as gerações mais velhas andam uns anos para a frente: para os X, a “força da vida” atinge-se aos 47 anos, enquanto os boomers a situam apenas nos 50.

Curioso é também um estudo publicado recentemente pela Sociedade de Gerontologia do Japão que concluiu que o termo “velho” aplica-se apenas aos que têm entre 75 e 89 anos. As pessoas entre os 65 e os 74 anos são consideradas “pré-velhas” e os que têm mais de 90 anos são os “super-velhos”.