São, de todos os segmentos populacionais, os mais vulneráveis à letalidade provocada pelo novo coronavírus e aos efeitos colaterais das regras do distanciamento social. Os idosos estão cada vez mais sozinhos, o que tem duras implicações na sua saúde física e mental. E foi a pensar neles que o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, criado pelo Papa Francisco em 2016, lançou a campanha “Cada idoso é teu avô”, exortando jovens de todo o mundo a dedicarem-lhes mais tempo e carinho
POR HELENA OLIVEIRA

Caros jovens, cada um destes idosos é vosso avô, não os deixem sós. Usai a fantasia do amor – telefonemas, videochamadas, mensagens -, escutai-os e, onde for possível – no respeito pelas normas sanitárias –, visitai-os. Enviai-lhes um abraço, eles são as vossas raízes”.

Esta foi a mensagem partilhada por Francisco, no último Domingo, 26 de Julho, “Dia dos Avós”, na qual pediu uma atenção especial aos mais velhos que, na verdade, são os mais atingidos, e mediante diversas formas, pela Covid-19, exortando os mais jovens a lhes dedicarem tempo e carinho.

A preocupação do Papa com os mais idosos tem sido uma constante desde o deflagrar da pandemia. Em Abril último e por exemplo, Francisco afirmou que “a solidão pode ser uma doença, mas com caridade, proximidade e conforto espiritual podemos curá-la”. Estas palavras ajudam a compreender que, se é verdade que o coronavírus é mais letal quando encontra um corpo debilitado, em muitos casos a patologia anterior é a solidão. E não será por acaso o facto de estarmos a assistir à morte, em proporções e formas terríveis, de muitas pessoas que vivem longe das suas famílias, e em condições verdadeiramente debilitantes e desanimadoras de solidão.

Assim e no seguimento do apelo do Papa, o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida lançou a campanha intitulada “Cada idoso é teu avô”, a qual convida jovens de todo o mundo a fazer “um gesto de ternura para com os idosos que se sentem sozinhos”. Num comunicado deste organismo da Cúria Romana, é sublinhado que “é possível vencer o isolamento dos idosos respeitando rigorosamente as normas de saúde em matéria de Covid-19” e que “a pandemia atingiu particularmente os idosos e debilitou os já fracos vínculos entre as gerações, mas respeitar o distanciamento não significa aceitar um destino de solidão e de abandono”.

Neste sentido, o Dicastério do Vaticano declarou que “nesta fase da campanha, a fim de respeitar as normas sanitárias em vigor nos diferentes países, o nosso convite aos jovens é o de chegar aos idosos mais solitários do seu bairro ou paróquia e enviar-lhes um abraço, de acordo com o pedido do Papa, através de uma chamada telefónica, uma videochamada ou do envio de uma imagem”. Associada à iniciativa está a hashtag #sendyourhug, com os posts considerados como os mais significativos a serem divulgados e partilhados nas contas de redes sociais deste organismo do Vaticano.

“Não podemos deixar os idosos sozinhos, porque na solidão o coronavírus mata mais”

Os cientistas sociais definem “solidão” como um estado emocional criado quando as pessoas têm menos contactos sociais e relações com significado do que o que desejariam, apesar do conceito não gerar consenso entre todos os que o investigam. Por exemplo, os termos “isolamento social” e “solidão” são utilizados muitas vezes como sinónimos, mas tecnicamente referem-se a estados de espírito diferentes, sendo definidos, e no primeiro caso, como um contacto escasso com os outros e, no segundo, como a percepção de nos sentirmos desligados e sem um sentimento de pertença.

Ora, a vertiginosa propagação da COVID-19, bem como as restrições sociais de distanciamento e as intervenções de saúde pública daí resultantes, abarcam ambas as definições, o que está a levar a que muitos especialistas alertem para o que chamam de “epidemia da solidão” entre os mais idosos.

A verdade é que se, em circunstâncias normais, nas quais os indivíduos têm controlo sobre o número e a qualidade das suas interacções, os custos do isolamento social são já elevados, a situação tem vindo a agravar-se de forma preocupante desde o deflagrar da pandemia.

De acordo com um artigo recente publicado pela prestigiada revista de saúde pública The Lancet, “o auto-isolamento está a afectar desproporcionadamente indivíduos idosos cujo único contacto social está fora de casa, (…) e aqueles que não têm família ou amigos próximos e que dependem do apoio de serviços voluntários ou de assistência social”.

Como defende também o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida “diante do cenário de uma geração atingida tão severamente, temos uma responsabilidade comum, que decorre da consciência do valor inestimável de toda vida humana e da gratidão aos nossos pais e avós. Devemos dedicar novas energias para defendê-los desta tempestade, assim como cada um de nós foi protegido e cuidado nas pequenas e grandes tempestades das nossas vidas. Não deixemos os idosos sozinhos, porque na solidão o coronavírus mata mais”.

E no que respeita ao “valor inestimável de cada vida”, é também verdade que as pessoas mais velhas podem ser adversamente afectadas pelos discursos que, infelizmente, têm sido levianamente proferidos até por alguns líderes políticos e que parecem implicar que a perda de vidas nos mais idosos não é tão importante como a perda de vidas em outros grupos etários.

Paralelamente, há que ter em conta o impacto continuado da solidão nas pessoas idosas que não têm amigos ou familiares e dependem da assistência social, e que podem sentir-se ainda mais isoladas, especialmente quando este tipo de serviços sofre disrupções, tal como tem acontecido, e por força das circunstâncias, nos últimos meses.

Um outro segmento de idosos em risco de se tornarem mais isolados socialmente são os que residem em lares residenciais, uma vez que, em muitos casos, os seus amigos e familiares não estão actualmente autorizados a visitá-los. Por conseguinte, existe uma necessidade urgente de apoiar os idosos para mitigar os impactos negativos na sua saúde física e mental, decorrentes do isolamento social provocado pela COVID-19.

“Apesar da complexidade da situação em que vivemos, parece ser ainda necessário esclarecer que salvar a vida de idosos que vivem em estruturas residenciais ou que estão sozinhos ou doentes é uma prioridade tanto quanto salvar qualquer outra pessoa. Nos países onde a pandemia ainda tem dimensões limitadas, ainda é possível tomar medidas preventivas para protegê-los; naqueles em que a situação é mais dramática, é necessária uma mobilização para encontrar soluções de emergência”, alerta também o mesmo Dicastério.

Apoiar as pessoas idosas no sentido de estas manterem a sua ligação com os outros, a fim de permitir um melhor sentimento de pertença é, e ainda mais no contexto da pandemia que vivemos, absolutamente crucial.

Daí que a campanha agora lançada faça todo o sentido.


Comissão Nacional Justiça e Paz alerta para aumento da “cultura do descarte” dos mais velhos em tempo de pandemia

A “cultura do descarte” a que se tem referido o Papa Francisco inúmeras vezes no que respeita aos mais idosos serviu de mote para a emissão de uma nota pela Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), no passado dia 27, alertando para, e em tempos de pandemia, a “forma como estamos a tratar os mais velhos”. Para a CNPJ e “não sendo esta uma questão recente, mas que se tornou pública”, obriga-nos “a reflectir seriamente sobre as condições de vida e de participação dos mais velhos”, “sobre o que é ser velho”, sublinhando que “os velhos não são para ‘deitar fora’ porque já não são úteis na denominada vida activa”.

“São os mais velhos as principais vítimas da Covid-19 e esse facto veio trazer ao de cima um problema existente…  nomeadamente aqueles que estão ‘confinados’ em lares, impedidos, face aos riscos de contaminação, de receber visitas dos seus familiares. Ainda mais sós, portanto. Mas também todos os outros que subitamente, quase que em sobressalto, passaram a fazer parte desta enorme categoria sanitária/sociológica de grupo de risco. Subitamente bloqueados, pelo dever de protecção, neste gigantesco bloco catalogado de quase intocáveis”, pode ler-se na nota divulgada pelo organismo laical da Conferência Episcopal Portuguesa.

Recordando que segundo a mais recente classificação etária da Organização Mundial de Saúde, a qual apresenta uma nova abordagem à 3ª idade e que considera a fase dos 66-79 anos como “meia-idade”, os que têm entre 80 e 99 anos como “idosos” e os que ultrapassam a meta dos 100 anos como “idosos de longa vida”, a CNPJ considera que a referida “meia-idade” continua a ser uma idade bem activa e que, infelizmente tem sido ignorada. “Muitas pessoas desta idade continuam activas nos diversos sectores da sociedade (que lhes são consentidos), nomeadamente em importantes actividades de voluntariado; tantas fazem trabalho invisível (de que é exemplo os cuidados que prestam a familiares), mas a tantas é negada a possibilidade de continuar a participar activamente na sociedade”, lamenta ainda. Já para os que se situam entre os 80 e 99 anos e, mesmo acima dos 100 anos, “os realmente ‘idosos’, têm o direito de levar um fim de vida feliz e em plenitude sem se sentirem culpabilizados por dar trabalho às gerações mais novas”.

E “porque todos são fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva”, a CNJP apela à adopção de experiências, que vão sendo postas em prática em todo o mundo, para “não ficarmos colectivamente mais pobres”: soluções mais humanizadas de combate ao isolamento que, numa perspectiva intergeracional,  permitem que jovens estudantes, a troco de alojamento, acompanhem os mais velhos que assim permanecem na sua casa; ou a construção de unidades residenciais autónomas, onde as actividades comuns do quotidiano são garantidas: alimentação, saúde, lazer, etc.; soluções mais integradoras na vida activa, pela diversificação de postos de trabalho e de novas áreas e perfis funcionais, pelo desdobramento de horários de trabalho”.

A CNJP acrescenta ainda que dada a diversidade destes “mais velhos”, são necessárias políticas públicas adequadas a esta mesma diversidade: “desde a  garantia de um número suficiente de unidades de cuidados continuados e paliativos que garantam um final de vida digno para os mais velhos, a reformas/pensões suficientes e justas que permitam autonomia de vida, a modelos concretos organizativos que possibilitem a sua participação activa”.


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