É uma verdade inelutável. Em cada novo ciclo de mudança tecnológica, novos paradigmas de ligação e interacção entre indivíduos e entre estes e as empresas vão surgindo regularmente. E a economia da partilha impõe-se como um desses novos paradigmas que vem alterar o status quo estabelecido
POR RODOLFO OLIVEIRA

É uma verdade inelutável. Em cada novo ciclo de mudança tecnológica, novos paradigmas de ligação e interacção entre indivíduos e entre estes e as empresas vão surgindo regularmente. E a economia da partilha, que iremos abordar neste artigo, é um desses novos paradigmas que vem alterar o status quo estabelecido, pelo lado da tecnologia, mas também pelo lado dos comportamentos sociais. Esse novo fenómeno implica passar do paradigma da compra para o paradigma do aluguer, num modelo simples, que se baseia no princípio de que o acesso ao bem/serviço é o relevante, em contraponto ao facto de se ser, necessariamente, proprietário desse bem.

Quando a Internet surgiu, tinha reduzidas funcionalidades e limitava-se a ser uma plataforma informativa, a qual foi evoluindo para crescentes níveis de complexidade na interacção e no tipo e qualidade dos serviços aí disponibilizados, até que, actualmente, é impensável para a grande maioria das empresas não ter uma presença na Internet. De igual modo, o mais recente advento da mobilidade com a banalização dos smartphones e tablets na sequência do lançamento do iPhone em 2007, e subsequentes serviços com crescentes níveis de segurança e certificação, veio também facilitar o contacto permanente e novas opções de produtos e serviços.

Essa mudança coincidiu, do lado da sociedade, com a crise iniciada em 2008, a qual gerou uma nova classe de consumidores, que tiveram e já não têm a disponibilidade para ter acesso a inúmeros bens e serviços, mas que não querem abdicar dessa possibilidade, a que se juntaram muitos novos consumidores jovens que nasceram numa época radicalmente diferente, a geração Y, para quem o telemóvel, as redes sociais e a Internet são dados adquiridos, bem como os formatos utilizados para a sua comunicação.

Esta combinação levou ao aparecimento e disseminação de um novo fenómeno, a economia da partilha. Esse novo fenómeno implica passar do paradigma da compra para o paradigma do aluguer, num modelo simples que se baseia no primado da utilização versus o habitual modelo de propriedade do bem/serviço. E, como em todas as mudanças de paradigma, as gerações mais novas abraçaram esta oportunidade com o mesmo entusiasmo com que abraçaram as redes sociais, um pilar importante para a disseminação de serviços de partilha.

O movimento assumiu uma dimensão não negligenciável e cria diversos problemas aos actuais incumbentes nas áreas em que estes serviços surgem, uma vez que altera paradigmas relativamente estáveis, como o da aquisição de viatura versus o seu aluguer pontual, ou a utilização de um serviço de hotel versus um serviço de aluguer simples como o serviço airbnb, entre outros.

O ponto relevante é a nova dinâmica da utilização versus propriedade, que surgiu em grande parte com os serviços tecnológicos de partilha de imagens, vídeos e música, que banalizaram o conceito de utilização partilhada. Os exemplos são tão diversos quanto o número de mercados em que é possível estabelecer ligações directas entre detentor do bem/serviço e quem necessita de o utilizar temporariamente, seja este o carro, a bicicleta, o barco, o equipamento de jardinagem, alguns equipamentos de cozinha, entre muitos outros exemplos possíveis.

As barreiras ao sucesso de algumas destas iniciativas são grandes, desde a regulação (segurança, impostos, etc.) até à responsabilidade civil por prejuízos ou falhas de contrato. Mas muitas empresas já começaram a reagir, quer seja através do lançamento de serviços que complementem a sua actual oferta, ganhando com isso uma nova área de negócio e uma ligação a utilizadores que não teriam e que potencialmente poderão ser seus no futuro, como é exemplo o serviço DriveNow da BMW; quer seja através da aquisição dos novos players, como é o caso da aquisição pela Avis da ZipCar. Ou seja, será expectável uma gradual assimilação deste fenómeno pelos actuais modelos de negócio e seus respectivos players, mas o mercado não voltará a ser o mesmo. A opção da partilha veio para ficar.