A Livelihoods cria comunidades e ecossistemas resilientes para desenvolver negócios sustentáveis, através de um modelo inovador que financia projectos de larga escala em troca de créditos de carbono com elevado valor social e ambiental. A organização de grandes empresas que actuam contra as alterações climáticas lançou um novo fundo de investimento, que deverá disponibilizar 100 milhões de euros para melhorar a vida de dois milhões de pessoas e compensar as emissões de 25 milhões de toneladas de CO2, nos próximos 20 anos
POR GABRIELA COSTA

Dois terços da população pobre, a nível mundial, vive em zonas rurais, onde a agricultura é a principal fonte de rendimento e de emprego. Estas comunidades rurais são as mais vulneráveis às alterações climáticas e à degradação do ambiente. Os pequenos agricultores enfrentam um ciclo vicioso: as práticas agrícolas ineficazes geram produções deficitárias e ecossistemas degradados, que os mantém na pobreza. Os seus negócios carecem de cadeias de abastecimento sustentáveis, capazes de garantir as suas actividades a longo prazo, bem como de créditos de carbono com valor social e ambiental, para compensar as suas emissões de dióxido de carbono (CO2).

Para inverter esta realidade, a organização de empresas privadas Livelihoods cria fundos de investimento que alavancam modelos de actuação inovadores para combater a degradação ambiental, as alterações climáticas e a pobreza rural, promovendo negócios sustentáveis para gerar impacto social, ambiental e económico em África, na Ásia e na América Latina. O objectivo é empoderar as comunidades rurais através de conhecimentos e tecnologia, capacitando-as para que sejam os actores centrais da mudança.

Unindo o meio empresarial a instituições públicas, com quem desenvolve soluções eficazes para alcançar os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), a ONGs de referência, para projectar e escalar projectos-piloto com impacto, e a especialistas nestas áreas, com quem coopera com vista à melhoria contínua dos projectos, o Livelihoods forma alianças público-privadas para desenvolver meios de subsistência para comunidades rurais, bens públicos (conservação de água e da natureza, captação de CO2, etc.), fontes sustentáveis e créditos de carbono de elevada qualidade para os negócios. Ao reunir todos os intervenientes neste processo, a organização cria valor partilhado, com benefício para todos.

Oito empresas que integram a organização – Crédit Agricole, Danone, Firmenich, Hermès, Michelin, SAP, Schneider Electric e Voyageurs du Monde – lançaram em Dezembro último, em Paris, o novo Fundo de Carbono Livelihoods, acelerando assim as suas acções em torno do clima e das populações mais vulneráveis.

Prevendo-se que atinja os 100 milhões de euros, este novo fundo de investimento de impacto visa contribuir para melhorar a vida de dois milhões de pessoas e para compensar as emissões de 25 milhões de toneladas de CO2, num período de 20 anos. Para tanto, e de forma a assegurar que o objectivo de conseguir um investimento desta ordem será cumprido, os parceiros da iniciativa já anunciaram que em 2018 a prioridade é tentar envolver na iniciativa mais empresas e investidores.

No Peru as comunidades indígenas diminuíram em 60% o consumo de madeira – © Livelihoods

Investidores com retorno social e ambiental

O novo Fundo de Carbono Livelihoods irá investir em projectos de recuperação de ecossistemas, agro-florestação e energia, que serão implementados principalmente em países em desenvolvimento africanos, asiáticos e da América Latina.

Estes fundos, que assentam num modelo de negócio inovador onde os investidores “mutualizam os riscos de investimento para financiar projectos de larga escala”, não recebem dividendos financeiros, mas sim créditos de carbono com elevado valor social e ambiental, entregues através de reconhecidas normas internacionais. Como divulga a organização, o retorno do investimento baseia-se na mensurabilidade do impacto social e climático.

Como sublinha o presidente e co-fundador da Livelihoods, “este novo fundo oferece uma plataforma interessante para os investidores que querem ter um impacto real no clima”. Segundo Bernard Giraud, “o modelo de investimento do Fundo Livelihoods provou que podemos construir projectos de grande escala que unam mundos aparentemente distantes um do outro: grandes empresas que actuam contra a mudança climática e comunidades pobres que enfrentam as suas consequências”.

O primeiro Fundo de Carbono Livelihoods foi lançado em 2011, graças ao empenho destas mesmas empresas. O seu compromisso foi agora reforçado, com o incremento da escala e do número de projectos que combatem as alterações climáticas, através da recuperação dos ecossistemas que fornecem “recursos vitais para as populações mais vulneráveis”, da compensação voluntária, por parte das empresas, de parte das suas emissões de CO2, e dos seus próprios esforços para reduzir a pegada de carbono resultante das suas actividades.

De acordo com a Livelihoods, a forte motivação deste grupo de grandes empresas empenhadas em contribuir para diminuir o impacto sobre as comunidades mais vulneráveis das grandes mudanças que estão a ocorrer no clima advém dos resultados alcançados com o primeiro Fundo de Carbono Livelihoods: um milhão de beneficiários entre as populações mais pobres nos países em desenvolvimento; 130 milhões de árvores plantadas, ou seja, o equivalente a cinco vezes a superfície de Paris; 120 mil famílias equipadas com fogões eficientes que reduzem a desflorestação e salvaguardam a saúde das mulheres; e dez milhões de toneladas de CO2 a serem sequestrados ou evitados, durante dez a 12 anos, a duração dos projectos, num investimento total de 40 milhões de euros.

Na Índia a produção de café premium já chega a Paris – © Livelihoods

Comunidades rurais mais sustentáveis

Em 2011, o primeiro Fundo de Carbono Livelihoods permitiu impactar, com resultados que perduram e se irão prolongar por décadas, milhões de pessoas através de nove projectos de larga escala.

Na Índia, a plantação de 16 milhões de árvores de mangue por mulheres na floresta de Sundarbans, que permitiu recuperar 4500 hectares, já beneficiou 250 mil pessoas, e em 20 anos irá sequestrar 750 mil toneladas de CO2. Formadas pela ONG NEWS para gerir os viveiros de árvores e plantar os manguezais, estas mulheres conseguiram com o projecto fortalecer os diques e as barragens que protegem de inundações as aldeias, e aumentar a segurança alimentar e as receitas da comunidade, já que as florestas de mangues abrigam caranguejos, camarões e moluscos.

Já a transformação de terrenos degradados no Vale indiano de Araku para produção de café de alta qualidade por 14 mil agricultores das tribos locais Adivasi (das mais desfavorecidas da Índia, extremamente dependentes das florestas para o seu sustento) permitiu à comunidade plantar 3 milhões de plantas de café e 3 milhões de outras árvores de fruto, beneficiando 100 mil pessoas e recuperando 6500 hectares, com impacto em 1,2 milhões de toneladas de CO2, em 20 anos. Com o apoio da Fundação Naandi, estes agricultores produzem agora um café premium que é vendido em Paris.

Em Sumatra, na Indonésia, a plantação de 18 milhões de árvores de mangues permitiu proteger aldeias costeiras de tsunamis e contrariar a proliferação de quintas intensivas de camarão, que substituíram as florestas de manguezais, provocando um grande influxo de água salgada que impede o crescimento das culturas. Com este projecto que beneficiou 20 mil pessoas, restaurando 5 mil hectares e compensando 2,1 milhões de toneladas de CO2, as aldeias locais estão a aumentar as suas receitas, ao vender os subprodutos destas florestas, como peixes, moluscos, tintas de batique e mel.

No Burkina Faso a Livelihoods aumenta a segurança alimentar e combate a desertificação – © Livelihoods

Em África, no Burkina Faso 150 mil pessoas foram beneficiadas nas províncias de Bam e Lorum com a construção de fogões eficientes construídos pelas mulheres das comunidades locais em “banco”, uma mistura de solo proveniente de ninhos de térmitas, palha e estrume. 30 mil famílias foram equipadas com estes fogões, graças a um projecto que, para além de reduzir o consumo de madeira (em 60%) e, consequentemente, diminuir a desflorestação, restaura terras degradadas com técnicas agro-florestais já adoptadas por agricultores de 30 aldeias, que aumentam os rendimentos e a resiliência às secas. Em dez anos serão evitadas 700 mil toneladas de CO2.

No Quénia, o Fundo de Carbono Livelihoods investiu em dois projectos: No Monte Elgon foram implementadas práticas agrícolas inteligentes para aumentar de forma sustentável o rendimento e produção de leite (30% em cinco anos) através da diversificação de culturas, alimentação eficiente do gado, rega e reprodução, envolvendo 30 mil agricultores locais, que duplicaram as suas receitas. Protegendo os recursos hídricos e preservando o ecossistema, estas práticas, que já beneficiaram 180 mil pessoas, permitiram estabelecer uma parceria inovadora com a Brookside, uma empresa local de lacticínios, detida em parte pela Danone, para a venda do leite produzido pelos agricultores durante dez anos – durante os quais serão compensados 1,1 milhões de toneladas de CO2. Em Umbu, a possibilidade de 60 mil famílias passarem a estar equipadas com fogões eficientes “Hifadhi” – que substituem os tradicionais fogões a lenha feitos de três pedras colocadas no chão, dentro das casas, utilizados por 80% das pessoas que vivem em áreas rurais, nos países em desenvolvimento – permitiu diminuir o consumo de madeira em 60%, expondo menos as mulheres a fumos tóxicos prejudiciais à saúde. Este projecto que trava a reflorestação nesta província do Quénia beneficia hoje 300 mil pessoas. Em dez anos serão evitados 1,7 milhões de toneladas de CO2.

Também em África, mas no Senegal, foi implementado o maior programa do mundo de restauração de manguezais, com 80 milhões de árvores plantadas. Alcançando 100 mil beneficiários, a recuperação das florestas de mangues nos estuários de Casamance e Siné Saloum (que perderam 45 mil hectares destas florestas desde os anos 70, devido a secas e a actividades humanas) já repôs 8 mil hectares, esperando-se o sequestro de 5700 mil toneladas de CO2, em 20 anos. A reposição dos manguezais traz ainda mais rendimentos e alimentos para esta comunidade, como 12 mil toneladas extra de peixe anualmente, para além de camarões, ostras e moluscos ali abrigados, e uma maior quantidade de arroz, graças à protecção dos arrozais da água salgada que os manguezais provocam.

Na América Latina, a atribuição de uma renda extra aos agricultores na floresta do Cerro San Gil, na Guatemala, por venderem culturas comerciais (borracha, café, patchouli etc.) sustenta a sua subsistência e actividade económica a longo prazo, ao mesmo tempo que preserva esta floresta singular, que é a maior e mais diversificada floresta tropical do Caribe de Guatemala, com espécies endémicas e muito ameaçada. Beneficiando 12 mil pessoas, o projecto visa plantar 4 milhões de árvores, recuperando 2250 hectares e optimizando de forma sustentável o uso de terrenos agrícolas. Foram criados viveiros para fornecer árvores e mudas gratuitas às comunidades Maya e Ladinos, prevendo-se o sequestro de 770 mil toneladas de CO2 em 20 anos.

Já nas aldeias dos Andes do Peru, nas regiões de Huancavelica e Ayacucho, 30 mil famílias foram equipadas com fogões eficientes que produzem emissões mínimas de fumo, permitem ferver água ao mesmo tempo que se cozinham refeições e reduzem o consumo de madeira em 60%. 150 mil pessoas foram beneficiadas com este projecto, que deverá evitar a emissão de 1,2 milhões de toneladas de CO2. As famílias também receberam um kit de higiene e são sensibilizadas para hábitos de consumo mais saudáveis.

Os créditos de carbono gerados pelos projectos Livelihoods estão certificados pelo Gold Standard (criado pelo WWF – World Wide Fund for Nature) e pelo VCS (Padrão de Carbono Verificado). Esta certificação garante que o impacto climático de um projecto é medido de acordo com metodologias reconhecidas internacionalmente e que o mesmo contribui para melhorar a rotina diária das comunidades locais.

Os fundos Livelihoods disponibilizam financiamento antecipado para os melhores projectos, desenvolvidos em parceria com ONGs, que visam uma implementação de grande escala em dez a 20 anos. Os retornos dos fundos são baseados em resultados, para garantir que os projectos estão a ter impacto tangível a nível social, ambiental e económico.

Gabriela Costa

Jornalista