A UNIAPAC (Confederação Mundial dos Empresários Católicos) presente em 40 países, contando com 45 mil membros em todo o mundo e presidida pelo português Bruno Bobone, realizou no Vaticano o seu XXVII Congresso Mundial. Este encontro teve como objetivo relançar o trabalho da UNIAPAC a nível global depois de três anos condicionados pelas crises da pandemia e da guerra e com o objetivo de criar uma economia para o bem comum. Assim, e num mundo em acelerada mudança, com enorme volatilidade, é tempo de os empresários “pararem para pensar”, fazerem o SWOT da sua visão estratégica, refletir sobre os desafios próximos, bem como sobre a razão primeira da sua força: o ADN de ser empresário
POR DAVID ZAMITH

Imediatamente antes destas nefastas realidades nos terem caído em cima, o Papa Francisco tinha proposto aos mais jovens que trabalhassem no sentido de criarem uma economia centrada no bem-estar e na felicidade da pessoa humana e que fosse promotora da sustentabilidade do nosso planeta. Será esta a missão que temos neste momento?

Sobre o XXVII Congresso e sob o mote “Coragem para mudar” nada melhor do que acompanhar o pensamento de Bruno Bobone e da UNIAPAC, esta última a percorrer um caminho que incorpora a maioria dos princípios e valores do pensamento social cristão e da nobre vocação do líder empresarial, que é a melhor definição do papel do empreendedor na sociedade. Será agora o momento de nos prepararmos para o objetivo desta nobre vocação que, como todos sabemos, é a aposta na pessoa humana?

Para fazer essa enorme mudança, temos que redefinir a forma como trabalhamos em conjunto no interior das nossas empresas, a relação entre a gestão e os seus colaboradores, colocando as pessoas no centro da equação, promovendo condições de trabalho (ferramentas) e salários dignos, a participação de todos nas decisões que afetam as suas vidas, a relação com o meio ambiente, a responsabilidade face ao futuro das novas gerações e, finalmente, alcançar o grande objetivo de qualquer ser humano na sua vida, ou seja, o caminho para a felicidade: “Coragem para mudar”. 

É será esta coragem para mudar que nos permitirá dar verdadeiramente os passos necessários para chegar à nova forma de enfrentar os desafios económicos e que só mudando verdadeiramente a forma como conduzimos as nossas empresas, conseguiremos alcançar esta nova economia? 

A UNIAPAC deseja ser reconhecida em todo o mundo pela sua firme promoção da atividade empresarial como uma “nobre vocação”. A nobreza desse chamamento significa que fomos abençoados com algo extraordinário, mas também significa que temos uma enorme responsabilidade em garantir resultados nobres, sendo este Congresso Mundial a dar essa ênfase ao apelo da UNIAPAC para uma transformação pessoal e coletiva de empresários, governos e representantes da sociedade civil na construção de uma economia mais próspera, justa e inclusiva.

A base do sucesso empresarial está na criação de valor, do lucro justo, baseado em organizações com valores humanistas e com ética comercial ou, como afirmou o Papa Francisco, dirigindo-se aos empresários no Congresso Mundial da UNIAPAC no Vaticano,: dou-vos as calorosas boas-vindas enquanto se reúnem durante esta importante sessão para refletir e reforçar o vosso empenho nas vossas nobres vocações como líderes empresariais. Oxalá nunca esqueçamos que todas as nossas qualidades, incluindo o sucesso empresarial, são dádivas que “devem em todo o caso orientar-se claramente para o desenvolvimento das outras pessoas e para a superação da miséria, especialmente através da criação de oportunidades de trabalho diversificadas”. E acrescentando que “o tema do vosso Congresso representa também um desafio significativo para vós e muitos outros no mundo empresarial: criar uma nova economia para o bem comum.”

De outro congresso, o III Fórum Anual de Conselheiros, promovido pelo CELINT – Centro de Estudos em Liderança e Governança Integrais do Brasil, o meu amigo Ismar Becker partilhou o tema abordado sobre o LUCRO, a saber:

“Milton Friedman, um dos maiores economistas liberais, foi (e ainda é) massacrado pela frase “the business of business is business” (o negócio do negócio é o negócio), que significa: um negócio tem de gerar lucro! Confesso que quase fui massacrado por defender esta tese numa aula do OPM, na Harvard Business School, em 2013. Evidentemente que o capitalismo selvagem do início da Revolução Industrial já foi substituído pelo “Stakeholder Capitalism”, no qual um negócio não deve somente gerar valor para o dono ou seus acionistas, mas também para os clientes, fornecedores, colaboradores, governo e a comunidade onde atua. Isto somente é possível, contudo, se as receitas forem maiores do que as despesas. Friedman foi mal interpretado ou teve sua famosa frase deturpada. Em nenhum momento disse que um negócio tinha o lucro como o único objetivo, mas sim que sem ele, os outros não eram atingidos. 

Na medida em que o LUCRO de um negócio tem origem no facto de as receitas serem superiores aos custos e às despesas do mesmo, será talvez importante falarmos antes de VALOR, uma palavra mais “soft” do que a do lucro e com mais sentido empresarial! Na criação de valor abordamos outros temas, como o reconhecimento de uma marca, da nossa imagem, ou dos serviços prestados.

E como o Papa Francisco afirmou, no Congresso Mundial da UNIAPAC, não há dúvida que o mundo precisa urgentemente de um “tipo diferente de economia: uma que traga vida e não morte, que seja inclusiva e não exclusiva, humana e não desumanizadora, que cuide do ambiente em vez de destruí-lo”. 

Ou, quando analisamos os efeitos da pandemia nas empresas, com claros aceleramentos ao nível da digitalização, da flexibilidade laboral ou da sustentabilidade ambiental, também devemos pensar no que um jovem deseja hoje para trabalhar numa empresa (um jovem talentoso) e se tudo se resume às suas condições financeiras, ou, pelo contrário, num equilíbrio entre a sua vida profissional e a sua vida familiar e social, com oportunidades de formação (fundamental), flexibilidade laboral, evolução na carreira, reputação organizacional, aposta nas lideranças a nível transversal e com politicas de responsabilidade social (interna e externa). 

Ou seja, a empresa a olhar para os seus colaboradores como pessoas participativas num esforço que se deseja colectivo, ancorada no humanismo e em valores éticos empresariais, seguindo um modelo de conciliação Emprego / Família, consagrado a nível governamental, mas infelizmente muito esquecido.

Dito isto, fica a sugestão de pensarmos na visão subjacente ao “Stakeholder Capitalism”, focado nas pessoas, ancorado na criação de valor e no bem comum, no mérito, na sustentabilidade, na responsabilidade social e, ancorados num Código de Governo ESG (a tríade do ambiente, social e governança)

Será que estamos desfocados ou, pelo contrário e parando para pensar, a seguir bem a nossa Visão de Caminho para uma gestão empresarial participada, funcional (profissional) e emocional (com coração)?

David Zamith

ACEGE - Núcleo do Porto

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