Com um conjunto de associados e parceiros que representam o que de melhor se faz em Portugal no que respeita à Responsabilidade Social Corporativa, o GRACE arregaçou as mangas, juntou sinergias e lançou um estudo ambicioso. Em entrevista, Leonor Botto, coordenadora do mesmo, comenta o bom estado de graça da RSC em Portugal
POR HELENA OLIVEIRA

Intitulado “Olhar para o futuro – uma nova reflexão sobre responsabilidade social corporativa”, o estudo do GRACE – Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial –faz jus ao seu título. Numa verdadeira viagem a uma década de RSC em mares nacionais, revisita os territórios conquistados e oferece ainda uma visão para os portos seguintes nos quais as empresas cidadãs precisam ainda de atracar com maior segurança.

Unindo esforços e sinergias de parceiros e associados, o estudo, lançado publicamente a semana passada, confere uma visão holística ao estado de graça da responsabilidade social corporativa em Portugal. Se há ainda muito a fazer? Sem dúvida. Mas que muito já foi feito é também uma realidade. Como refere em entrevista, Leonor Botto, coordenadora do estudo, “já não é necessário ter-se uma componente internacional para termos um trabalho de excelência em matéria de responsabilidade social corporativa nas empresas portuguesas”.

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Leonor Botto é Directora Geral Operacional na MLGTS & Associados, foi vice-Presidente da Direcção do GRACE, em representação da Linklaters (2009/2012) e é a coordenadora do Estudo “Olhar para o Futuro”
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Este novo estudo, que se pretende holístico, reúne, pela primeira vez em Portugal a participação activa de consultoras de peso, como é o caso da Accenture, Heidrick & Struggles, KPMG e PwC – e também da AESE, enquanto escola de direcção e negócios de referência. A que se deveu a necessidade de envolver tantas entidades parceiras na realização deste relatório?
Passou mais de uma década desde o Estudo que esteve na génese do GRACE – Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial – e, desde então, as mudanças foram tão significativas e trabalhou-se muito e bem estas temáticas da Responsabilidade Social Corporativa. Também o GRACE, tendo em conta também o seu percurso ao longo deste tempo, fez parte integrante destas mudanças, não só através do trabalho que desenvolveu, como pelo trabalho desenvolvido pelos seus Associados.

Estava, pois, na altura certa para se revisitar este estudo inicial, analisar-se as mudanças e dar pistas para o que as empresas podem ainda fazer nestas temáticas.

No entanto, a forma como pensamos organizar este Estudo tinha que ser obrigatoriamente diferente do inicial. E começamos a pensar que, dentro do próprio GRACE, tínhamos não só Associados com práticas que, sem dúvida, representam o que de melhor se faz em Portugal nestas matérias, como os Parceiros certos para a elaboração deste novo Estudo. São nossos Associados e Parceiros as empresas de consultoria lideres no mercado, com trabalho já feito de análise dos diversos temas que queríamos abordar, pesquisas intensivas por variadíssimas empresas, sectores e CEOs das principais empresas nacionais e internacionais, estudos que se complementavam e todos juntos mostravam exactamente o que pretendíamos: a evolução desta ultima década nestas áreas. Por isso, por que não juntar estes Associados e Parceiros (a Accenture, a H&S, a KPMG e a PwC) e lançarmos o desafio? Não podíamos ter sido melhor recebidos! Era, de facto, a primeira vez que se juntavam as quatro num projecto comum, o que também dá mais significado ao trabalho, pois nestas matérias as empresas não devem pensar em concorrência mas em convergência.

A par desta experiencia no terreno, a AESE, também associada do GRACE, foi fundamental para irmos ainda mais longe e juntarmos as melhores referência no ensino de dirigentes de empresas e de instituições da economia social, juntamente com a capacidade de analisar e reforçar as matérias do Estudo.

Com esta equipa de excelência confirmou-se totalmente que o desafio era certo, que todos os contributos se podiam complementar contribuindo para este resultado que, sem dúvida, corresponde totalmente aos objectivos iniciais.

Que metodologia foi eleita para a condução do estudo e como foi articulada a participação das várias entidades, as temáticas distintas e ainda o paralelismo com a reflexão sobre corporate governance e estratégia de sustentabilidade dos negócios face aos quatro pilares da RSC?
Desde o início que tínhamos bem claro que a abordagem aos quatro pilares da RSC era fundamental, assim como a abordagem de estudos nestas matérias, devidamente seleccionados e de entidades totalmente credíveis. Pretendia-se um Estudo de estudos que não repetisse o que já se disse, mas que retirasse o melhor de cada um, ilustrado com casos práticos de sucesso em Portugal, com a ambição de ser um guia de referência para as empresas que queiram continuar a trabalhar e a melhorar a sua actuação a este nível.

Foram assim identificados pela equipa de trabalho os estudos de referência cujas conclusões pudessem ser agregadas, de forma a que pudéssemos ter, numa única publicação, o que de melhor se investigou e reflectiu sobre responsabilidade social corporativa, tendo sido seleccionados os casos práticos que complementassem a visão teórica.

Mas logo nas primeiras reuniões ficou claro para todos que tínhamos que ir mais além que a abordagem pelos quatro pilares, que o papel da liderança das organizações é um factor diferenciador e influenciador, que a estratégia das empresas está na base das suas decisões de actuação nos quatro pilares. Assim sendo, a reflexão sobre corporate governance e sobre a estratégia de sustentabilidade dos negócios aparece como a base, o cimento, e também como o telhado que protege a casa, complementando a abordagem holística que se pretende da responsabilidade social corporativa.

Este relatório faz uma verdadeira “viagem no tempo”, cobrindo mais de uma década da evolução do conceito da responsabilidade social corporativa em Portugal. Que principais diferenças são passíveis de elencar, tanto a nível de percepção como da prática da RSC, nas organizações nacionais?
Era claro o posicionamento das empresas em 1997, ano do Estudo inicial, em relação à responsabilidade social corporativa: 83% dos empresários portugueses indicavam ‘objectivos de marketing’ e ‘projecção de imagem’ como causas da responsabilidade social corporativa, enquanto apenas 17% referiam o motivo “solidariedade social” e só 23% das empresas possuíam declarações que referiam a “responsabilidade social e o envolvimento com a comunidade” como um dos seus objectivos. Falava-se mais no donativo, sem grande envolvimento dos colaboradores, sem enquadramento. Responsabilidade social corporativa limitava-se, na grande maioria dos casos, em algo ainda vago, mais relevado nas multinacionais por pressão das suas casas mãe. O Estudo concluía mesmo que “em Portugal não há ninguém que afirme ouvir um apelo à cidadania empresarial”.

Já não é necessário ter-se uma componente internacional para termos um trabalho de excelência em matéria de responsabilidade social corporativa nas empresas portuguesas .
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Hoje o cenário é totalmente diferente: 93% dos CEOs acreditam que as questões associadas à sustentabilidade serão críticas para o sucesso futuro dos seus negócios; 96% dos CEOs portugueses acreditam hoje que as questões da sustentabilidade devem ser totalmente integradas na estratégia e nas operações da sua empresa e 91% indicam que as suas organizações estarão atentos às questões associadas à sustentabilidade nos próximos cinco anos.

Confirma-se, assim, uma substancial mudança do conceito de responsabilidade social corporativa e do seu enraizamento nas empresas portuguesas. Os casos práticos apresentados no Estudo, representam bem o tecido empresarial português, no seu conjunto de empresas de vários sectores e de diferentes dimensões. Já não é necessário ter-se uma componente internacional para termos um trabalho de excelência em matéria de responsabilidade social corporativa nas empresas portuguesas.

Entre as conclusões mais marcantes deste estudo está a certeza de já está em curso uma mudança no interior das organizações. Uma mudança que implica uma abordagem holística ao tema da responsabilidade social corporativa.

No entanto, o estudo também indica os caminhos que devemos continuar a percorrer, que ainda existe mais a fazer neste domínio, que devemos continuar de forma persistente e consistente junto dos mais diversos contextos e que parar não é opção.

Uma das questões que sublinham no estudo diz respeito ao facto das temáticas como governance e estratégia de sustentabilidade serem bem reconhecidas a nível do board, mas falharem na sua articulação com os quatro pilares da RSC. Todavia, é também a partir do board que esta articulação deveria ser feita. A que se deve este fracasso inerente à passagem da estratégia à execução?
O board tem um papel fundamental na definição da estratégia, da visão, na criação de um movimento positivo interno que leve toda a organização a contribuir da melhor forma possível para o sucesso da empresa, para o sucesso da sociedade onde se insere. Esta capacidade mobilizadora e inspiradora vem tanto do CEO como do board no seu todo, vem da visão humanista que devem transmitir. É ancorar a estratégia de sustentabilidade no compromisso pessoal dos dirigentes, é integrar todos os pilares da responsabilidade social corporativa na estratégia de sustentabilidade centrada nas pessoas, na partilha de valores, no sentido de responsabilidade perante os outros e a sociedade, para com todos os stakeholders.

A valorização, em termos financeiros e não financeiros, das políticas de RSC de uma organização é fundamental para a quantificação dos seus benefícios .
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E se o imperativo da mudança é claro, o desafio da execução é ainda uma realidade. Enquanto a responsabilidade social corporativa já se tornou parte integrante da forma de operar das organizações, verifica-se ainda que há um caminho a percorrer até que seja parte integrante de todos os processos, competências e sistemas. O Estudo mostra que ainda existe uma diferença de desempenho na passagem da estratégia à execução. A complexidade das organizações, a diversidade dos stakeholders, a ligação necessária com os organismos legislativos, o reporting aos shareholders são desafios enormes e constantes.

Mas o empenho é forte, assim como a consciência plena de que é fundamental uma estratégia de responsabilidade social corporativa bem definida e alinhada com a estratégia do negócio, que é fundamental uma atitude coerente com uma organização cidadã, em toda a sua linha de actuação.

No estudo em causa alertam igualmente para a necessidade da quantificação das vantagens e resultados da adopção de uma estratégia de sustentabilidade. Os reports integrados são utilizados há já vários anos por um conjunto significativo de empresas. Em que ponto da caminhada se encontram as empresas portuguesas no que respeita a esta temática em particular?
Tal como o estudo realça no capítulo referente ao Pilar Económico, em Portugal, são ainda poucas as organizações que publicam um relato efectivamente integrado. Em vários casos, a informação de responsabilidade social corporativa inclui-se no mesmo documento que a informação financeira, mas não se procede a uma verdadeira integração de toda a informação organizacional, relacionando a estratégia, os riscos e oportunidades, com a gestão do desempenho financeiro e com aspectos sociais, ambientais, culturais e de corporate governance. Mas também existem exemplos positivos, como os apresentados no Estudo.

A tradução clara e credível da capacidade de criação de valor de uma organização num reporte único e integrado, tem sido uma dificuldade em matéria de comunicação das organizações, que é necessário ultrapassar, até porque gera vantagens competitivas e maior atenção por parte dos diversos stakeholders.

A valorização, em termos financeiros e não financeiros, das políticas de responsabilidade social corporativa de uma organização é fundamental para a quantificação dos seus benefícios, tangíveis e intangíveis, permitindo uma tomada de decisões de investimento mais informada e uma capacidade reforçada para a gestão de riscos e oportunidades associados à sustentabilidade.

Já existem métodos para quantificação global dos benefícios gerados em iniciativas de sustentabilidade e as organizações que iniciaram esta caminhada já compreenderam a importância do reporte integrado. Esperamos ver, num próximo estudo, este tema já com bem resolvido nas organizações em Portugal.

É referida igualmente a importância do 4º pilar da RSC – a cultura – para “fechar” o seu ciclo virtuoso. Em muitos casos e no actual clima de austeridade, sabemos que são as próprias empresas, pelo menos as de grande dimensão, que acabam por se substituir ao Governo no apoio a inúmeras actividades culturais. Todavia, este pilar tem, ao nível da RSC, uma função mais alargada e pouco conhecida pelos stakeholders. É possível explicitá-la melhor?
A cultura é a principal herança da sociedade que, quando transportada para as organizações, define a sua própria identidade cultural, a forma como se relaciona com o mercado, a forma como o mercada a percepciona. Mas o Pilar Cultural é muito mais que simplesmente a actuação como mecenas: é também a capacitação e a formação de jovens talentos, é promover a criatividade colocando estes factores ao serviço da sociedade e da própria organização.

É fundamental fomentar-se uma cooperação activa com os organismos governamentais que conduza à elaboração de políticas que impulsionem a sustentabilidade e a uma atitude coerente com uma organização cidadã, em toda a sua linha de actuação. .
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É a forma das organizações impulsionarem os seus colaboradores numa procura de valores criativos, estéticos e humanitários, para além dos valores de trabalho inerentes à sua actividade. É a forma das organizações se aproximarem da sociedade e, consequentemente, dos seus clientes, tornando-se mais visíveis, melhorando a sua imagem e notoriedade.

É trabalhar a herança, o conhecimento, a capacitação, a criatividade, a inovação, a diversidade e até mesmo a identidade. É um legado que se protege e se transporta para o futuro.

E, em Portugal, temos diversas empresas a trabalharem muito bem este pilar como se pode constatar nos diversos casos práticos apresentados no capítulo dedicado ao Pilar Cultural.

É o pilar que complementa os outros três e que mais materializa o conceito de organização cidadã. Só assim podemos fechar o ciclo virtuoso da responsabilidade social corporativa, criando-se organizações e cidadãos de excelência.

Entre 83 países e de acordo com o estudo NCRI, Portugal ocupa a 27ª posição no que respeita à RSC e aos seus resultados práticos. Apesar de um bom resultado, existe ainda espaço para crescimento. Que prioridades elege para esse desenvolvimento necessário?
Já está bem presente nas organizações a consciencialização para esta realidade incontornável da responsabilidade social corporativa que reclama uma necessária mudança no interior das organizações. Uma mudança ao nível da Governance e da estratégia de sustentabilidade assente em quatro pilares de referência – Social, Ambiental, Económico e Cultural –, na certeza de que só trabalhando em conjunto estes factores, que se complementam e fazem a verdadeira diferença nos resultados alcançados, se consegue a abordagem holística a esta temática.

E as prioridades são a definição de uma estratégia de responsabilidade social corporativa alinhada com a estratégia de negócio das empresas, bem como uma efectiva implementação de acções nesta matéria inseridas no ciclo de negócio e na cadeia de valor da organização.

Necessária será também uma estratégia de acção cobrindo os quatro pilares de responsabilidade social corporativa e uma efectiva aferição dos impactos, nos stakeholders e na própria organização, das acções de responsabilidade social corporativa implementadas.

Finalmente, é fundamental fomentar-se uma cooperação activa com os organismos governamentais que conduza à elaboração de políticas que impulsionem a sustentabilidade e a uma atitude coerente com uma organização cidadã, em toda a sua linha de actuação.

É, pois, esta a visão para as organizações do futuro e são estas as prioridades que cada organização deve ter para recentrar o tema da responsabilidade social corporativa, para que este esteja no topo das suas prioridades.

A sua actuação nesta matéria, tanto ao nível das organizações como um todo, como especificamente dos seus líderes, serão os factores de diferenciação no sucesso das organizações do futuro, tornando-as organizações cidadãs em toda a sua linha de actuação.

Helena Oliveira

Editora Executiva