Desenvolvido pela AESE em parceria com a ENTRAJUDA e o Millenium BCP, o Programa GOS, cuja 6ª edição decorre até 27 de Maio é, nas palavras da sua directora, uma verdadeira “caixa de ferramentas” de gestão que, em conjunto com os valores corporativos e motivacionais que transmite, permite às organizações sociais melhorar a sua eficiência na definição de estratégias, na gestão de recursos e na capacidade de liderança. Em entrevista, Beatriz Abreu diz que não se trata de “uma lista de receitas pré-cozinhadas”, mas de um conjunto integrado de sessões interactivas que permite aos líderes das organizações “discernir sobre novos desafios e tomar as decisões de governo mais oportunas para servir as pessoas”
POR GABRIELA COSTA

Numa altura de grandes dificuldades socioeconómicas, nomeadamente para as organizações que, actuando no sector da Economia Social, enfrentam riscos face à sua própria sustentabilidade, já que são “chamadas a dar resposta a novas situações de carência” (devido ao crescente desemprego e pobreza) e têm de encontrar alternativas para a redução drástica nos apoios públicos, a 6ª edição do Programa GOS – Gestão das Organizações Sociais, destinado à capacitação dos dirigentes das instituições sociais, assume uma relevância acrescida.

Assente no Método do Caso, processo interactivo de aprendizagem e partilha de competências que constitui a base de todo o processo formativo na AESE – Escola de Direcção e Negócios, este Programa de Aperfeiçoamento contribui para o reforço do espírito empreendedor e da capacidade estratégica de IPSS, ONG, Misericórdias e outras instituições sem fins lucrativos.

Com uma duração total de 16 semanas, o GOS dirige-se a presidentes, directores gerais, gestores e outros dirigentes de 1º nível, com responsabilidades e ampla experiência em instituições de cariz social, que pretendem melhorar a sua capacidade de decisão e a utilização das ferramentas de gestão. Abordando temáticas como Política de empresa; Factor Humano, Liderança e Ética; Contabilidade e Finanças; Marketing Social; Operações e Serviços; Economia Social; Fundraising e Gestão de Voluntários, o Programa visa reflectir sobre o aproveitamento eficiente dos recursos (normalmente escassos) das instituições, reajustar a estratégia para focar os seus objectivos, encontrar formas eficazes de motivar os colaboradores e melhorar a capacidade de liderança dos dirigentes.

A iniciativa dinamizada através de um protocolo tripartido entre a AESE, a ENTRAJUDA e o Millennium BCP teve, nesta 6ª edição, um valor de inscrição de 500 Euros (+ IVA).

© DR

“Na AESE, praticamos a solidariedade”
Nesta edição, a AESE e os demais parceiros do GOS atribuíram duas Bolsas para participação no Programa, cujos beneficiários foram, no âmbito do patrocínio à Corrida Solidária BOSCH (promovida pela empresa em Junho de 2012, entre Ílhavo e Aveiro, e cujas receitas reverteram para instituições da região que apoiam crianças em situação de risco e precariedade), Fátima Mendes, directora geral da Florinhas do Vouga, e Amândio Costa, presidente da Direcção da Associação de Solidariedade Social Gafanha do Carmo.

Os dois dirigentes, que se encontram actualmente em formação, já que a 6ª edição do GOS, a decorrer desde 4 de Fevereiro, se prolonga ainda até ao dia 27 de Maio, gerem negócios sociais sediados fora de Lisboa, “o que garante uma abordagem diferente das IPPS que beneficiam do facto de estarem próximas da capital, onde sabemos que (quase) tudo acaba por acontecer”.

A Florinhas do Vouga é uma Instituição Diocesana de Superior Interesse Social, que desde a sua fundação, em 1940, presta serviços de apoio à população mais desfavorecida na cidade de Aveiro, enquanto a Associação Gafanha do Carmo é uma instituição de solidariedade social criada por um grupo de cidadãos da freguesia da Gafanha do Carmo, em Ílhavo, que apoia indivíduos e famílias carenciadas, ao nível de pobreza, acção social, saúde, educação, habitação e apoio a crianças, jovens e população sénior, entre outras valências.

Ao VER, os dirigentes das duas organizações deixam o seu testemunho a propósito desta participação na 6ª edição do GOS (ver caixa). A AESE tem vindo a atribuir algumas Bolsas e subsídios para participação nos seus programas e MBA porque, como diz, em entrevista ao VER, Beatriz Abreu, Director do Programa GOS, “procuramos praticar mesmo a solidariedade”

Como nos outros Programas da AESE, o grande objectivo do GOS é não só formar, mas “assimilar a informação recebida, integrando-a na personalidade e na conduta”. Uma integração que “não é instantânea”, explica Beatriz Abreu, mas implica “um processo interior”. Tratando-se de um programa que se propõe ser estruturante, “o contributo real para o Terceiro Sector é muito importante: é um influxo duradoiro, que pode chegar a criar modificações sistemáticas no que se costuma chamar de boas práticas”.

Em geral, os participantes referem que melhoraram nas suas capacidades de gestão, precisamente nos âmbitos que mais precisavam, para dar resposta às suas necessidades, conclui ainda a directora do GOS.

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Beatriz Abreu, Directora do GOS – Gestão das Organizações Sociais AESE-ENTRAJUDA-MILLENNIUMBCP
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Como surgiu a oportunidade de criação do Programa GOS – Gestão das Organizações Sociais que resulta de um protocolo entre a AESE, a ENTRAJUDA e o Millennium BCP?
Por vezes as coisas começam por vários pontos, como um sarampo: está maduro o campo para a iniciativa e ela surge. No caso do GOS, os dirigentes da ENTRAJUDA, que prestam apoio a inúmeras instituições sociais, aperceberam-se da necessidade de capacitar com ferramentas de gestão muitos dos dirigentes, que vinham trabalhando há já algum tempo, com uma enorme boa vontade.

No entanto, melhorando o know-how em gestão, os resultados poderiam ir mais longe, porventura com menos esforço ou menos displicência. Por seu lado, na Direcção da AESE, sentia-se a necessidade de pôr em prática a Responsabilidade Social da escola, precisamente nas suas melhores capacidades, as de ensinar dirigentes. E da conversa entre a Direcção da AESE e a Direcção da ENTRAJUDA, nasceu a ideia: um Programa de Gestão dirigido aos dirigentes das organizações sociais! Faltava um Mecenas: o Presidente da Fundação Millennium BCP, que também já tinha frequentado o PADE na AESE, mostrou-se aberto ao projecto e assim nasceu o protocolo tripartido AESE-ENTRAJUDA-Millennium BCP.

Quais são os grandes objectivos deste Programa de Aperfeiçoamento da capacidade de decisão e do desempenho das Organizações Sociais, ao nível da sua metodologia e procedimentos de gestão?
Na AESE, em todos os Programas, usa-se o “método do caso”: partindo de situações reais, tais como aconteceram, começa-se pelo estudo individual, insubstituível. Esse, e alguma pesquisa bibliográfica pertinente, poderiam dizer-se o “trabalho de casa”.
Depois, a primeira fase é constituída pelo trabalho de grupo, em que os participantes são distribuídos por pequenos grupos, de modo a que todos possam participar no estudo conjunto. Deste modo, por um lado, a abordagem à matéria é muito mais amena do que seria um texto académico compacto e teórico e, por outro, as diferentes formações académicas e experiências profissionais dos participantes permitem que as abordagens sejam especialmente enriquecedoras, atingindo-se um patamar de conhecimento mais elevado do que o obtido do simples estudo individual.

Por fim, decorre uma sessão “plenária” em sala de aula, com a presença de todos os participantes e o professor, o que permite que, mantendo a atenção, se chegue a uma cota mais elevada do que a do trabalho de grupo, com uma sistematização e clarificação final.
No GOS, como nos outros Programas da AESE, o objectivo é formar, indo além da mera informação, que existe, aliás, abundantemente em muitos sítios. O que interessa fundamentalmente é assimilar a informação recebida, integrando-a na personalidade e na conduta. Esta integração não é instantânea. Trata-se de um processo interior que chega a penetrar as actividades.

Que relevância assume este Programa destinado a Dirigentes de Instituições da Economia Social, numa altura de grandes dificuldades socioeconómicas, nomeadamente para as organizações que, actuando neste sector, são “chamadas a dar resposta a novas situações de carência” (devido ao crescente desemprego e pobreza) e têm de encontrar alternativas para a redução drástica nos apoios públicos?
Sendo um Programa que se propõe ser estruturante, o contributo real para o Terceiro Sector é muito importante. É um influxo duradoiro, que pode chegar a criar modificações sistemáticas no que se costuma chamar de “boas práticas”. E não são apenas os conteúdos transmitidos nas sessões, também a interacção dos participantes e entre as respectivas instituições sai beneficiada.

“A necessidade de rentabilizar recursos no actual contexto é evidente. São necessárias respostas inovadoras para as novas carências” .
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Fala-se muito da necessidade de “trabalhar em rede”. Mas não podemos esquecer que as instituições são feitas de pessoas. Ora quando as pessoas de instituições diferentes passam a conhecer-se, trocam impressões quanto as questões comuns e transmitem umas às outras experiências que resultaram bem, essa rede começa a constituir-se espontaneamente e isso pode ser o princípio de relações institucionais futuras.
A necessidade de rentabilizar recursos no actual contexto é evidente. Por outro lado, são necessárias respostas inovadoras para as novas carências. Não tenho a “fórmula mágica” na mão, mas estou convencida de que essas novas respostas vão resultar de muito trabalho e esforço.

Juntar pessoas interessadas no Terceiro Sector, dispostas a pensar e a trabalhar é já, por si, uma mais-valia importante, um bom princípio no caminho de encontrar respostas.

O GOS permite dotar os dirigentes destas organizações de ferramentas de gestão e de valores corporativos e motivacionais, com vista a melhorar a sua eficiência na gestão de recursos, na definição de estratégias e na capacidade de liderança. Que ferramentas e valores são estes, que visam “perseguir e atingir a excelência, para servir melhor as populações carenciadas”, como defende? 
O GOS proporciona uma verdadeira “caixa de ferramentas”… que não é constituída por uma lista de receitas pré-cozinhadas, a aplicar nesta circunstância ou naquela. O Programa integra sessões correspondentes a áreas muito diversas, desde o Factor Humano à Política de Empresa ou a Operações.

Não é fundamental que as pessoas acabem o GOS tendo recolhido muita informação. Isso também conta, mas o mais importante é a capacidade de pensar e discernir sobre as novas situações que se vão colocando, sabendo tomar as decisões de governo mais oportunas para o bem das pessoas servidas pelas instituições.

Que primeiro balanço faz desta 6ª edição do GOS, que está a decorrer desde Fevereiro, concluindo-se a 27 de Maio?
Há algo comum entre os participantes do 6º GOS e todos os anteriores: em geral, os participantes referem que melhoraram nas suas capacidades de gestão, precisamente em âmbitos onde mais precisavam (procura-se programar de acordo com as necessidades).

Pensando especificamente no 6º GOS, penso que se pode afirmar que há um bom grupo de participantes com capacidade de iniciativa e de empreender. Este facto pode vir a mostrar-se relevante ao considerarmos a situação que Portugal atravessa: assistimos a novas carências e novas necessidades, que já não correspondem exactamente ao quadro tipo de respostas sociais que vinha sendo propugnado para Segurança Social: creche, jardim de infância, lar de crianças em risco, lar de idosos, etc. Tudo isso é interessante e ainda bem que existe. Mas há também outras necessidades que hão-de ter resposta ainda não tipificada.

Em 2012, no exercício da sua Responsabilidade Social, a AESE atribuiu um prémio de Bolsas para o Programa GOS, permitindo a participação gratuita de dois dirigentes de instituições sociais nesta 6ª edição. Como surgiu esta oportunidade e como comenta o alargamento “solidário” do conhecimento da AESE em formação de dirigentes ao sector da Economia Social, na actual conjuntura do País?
Não só em 2013 como também em anos anteriores, e em consonância com os outros intervenientes no protocolo tripartido, a AESE tem atribuído bolsas a algumas Instituições que, apesar dos valores de inscrição tão baixos do Programa, não conseguiriam fazê-lo sem essa ajuda. Também o Agrupamento Alumni, da AESE, tem atribuído o Prémio Carlos Parreira, que subsidia a 75% um candidato ao Executive MBA AESE/IESE, e essa possibilidade continua de pé.

Além disso, este ano estamos a pedir aos participantes que tenham capacidade financeira, que ofereçam também algumas bolsas totais ou parciais. Portanto, procuramos praticar mesmo a solidariedade.

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Que experiência retira da 6ª edição do GOS?
Fátima Mendes, Directora Geral da IPSS – Florinhas do Vouga
O GOS é um programa excelente para quem pretende desenvolver competências na gestão de organizações sociais. Utilizando a metodologia associada ao “Método de Caso”, esta formação permitiu uma transformação na minha forma de agir e pensar, quer a nível pessoal quer profissional.
Amândio Costa, presidente da Associação de Solidariedade Gafanha do Carmo
A participação no 6º GOS é uma experiência que vai certamente deixar marcas numa vida que se pretende de aprendizagem constante. Bem hajam todos directores, professores e colegas.
Quais foram as principais competências e valores adquiridos, enquanto dirigente de uma organização social?
Esta oportunidade de frequentar o 6º GOS, proporcionada pela Empresa Bosch, tem sido uma experiência académica e humana muito enriquecedora, e permitiu melhorar o meu desempenho profissional, sobretudo nas áreas da gestão. Como competências, neste Programa apercebemo-nos de que muitas vezes aquilo que temos como um dado adquirido não o é, e temos realmente de mudar situações que nos pareciam intocáveis.
Que mais-valias retira deste Programa, com aplicação prática na organização que lidera, ao nível da melhoria da eficácia na utilização das ferramentas de gestão e no desempenho do negócio social que desenvolve?
Hoje sinto-me mais preparada para desempenhar as minhas funções e ser uma melhor profissional. A aplicação na prática dos conhecimentos adquiridos no GOS na instituição que lidero tem a sua maior visibilidade a nível do relacionamento humano entre os corpos sociais, técnicos e funcionários de base, resultando num maior aproveitamento de todos os Recursos Humanos para o trabalho direccionado aos utentes da Instituição.

 

MÉTODO DO CASO
Liderar só se aprende… liderando
É por isso que a aprendizagem na AESE é inspirada no modelo da Harvard Business School. Ao colocar os participantes face a conflitos empresariais verídicos, os dirigentes são chamados a assumir o papel de decisores em circunstâncias semelhantes às do seu dia-a-dia nas organizações. Os casos constituem desafios que exigem respostas eficazes perante uma análise rigorosa de informação limitada ou até insuficiente, em contextos ambíguos ou complexos, do ponto de vista político-económico. O diagnóstico individual e as decisões são negociados com colegas experientes, talentosos e ambiciosos.Actualmente, o Método do Caso destaca-se como um meio sofisticado, orientado para a transformação de talento potencial dos participantes na poderosa capacidade na tomada de decisões. A AESE mantém-se na liderança do ensino com o Método do Caso em Portugal.
Os casos produzidos por esta escola integram a base de dados da ECCH, o mais utilizado repositório mundial de casos ao serviço das Business Schools internacionais.

Fases do Método do Caso

  • O estudo individual dos casos é seguido de uma discussão em grupo.
  • Os Learning Teams ajudam a preparar os casos num ambiente colaborativo, criando oportunidade para pôr as ideias à prova.
  • As salas de aula da sede foram especialmente desenhadas a pensar no ensino com o Método do Caso.

Fonte: AESE

Gabriela Costa

Jornalista