Em Portugal, um em cada cinco alunos, entre os dez e os doze anos, é vítima de bullying na escola e um em cada oito assume-se como agressor nesta relação entre pares. Mas esta é uma realidade até agora ignorada. Uns e outros são, na opinião da psicóloga Tânia Paias, “jovens de risco” que pais e agentes educativos têm a responsabilidade de apoiar, restabelecendo a auto-estima perdida. E é a pensar nestes jovens que o Instituto Superior Técnico (IST) está a desenvolver o “FearNot!”, um software interactivo que visa ajudar as crianças a lidar com situações de violência por parte de colegas
POR GABRIELA COSTA

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O fenómeno conhecido a nível internacional pelo termo bullying (cunhado pelo professor norueguês Dan Olweus, quando pesquisava tendências suicidas entre adolescentes) é uma forma de violência e intimidação entre pares, que se distingue da agressão ocasional por ser uma prática sistemática e repetida. Este comportamento intencional caracteriza-se normalmente pela desigualdade de poder entre o agressor e a vítima e, na escola, os bullies são normalmente alunos mais velhos ou mais fortes, que fazem vítimas entre os menos populares, expondo-os a insultos, rumores, rejeição social, exclusão das actividades e do grupo ou até maus-tratos físicos.

Segundo Tânia Paias, psicóloga clínica e psicoterapeuta da Psicronos (uma clínica cujo objectivo principal é facilitar o ajuste emocional e intelectual às diferentes fases da vida), trata-se de uma forma de pressão social capaz de gerar “traumas significativos na vida dos alunos que são sujeitos diariamente a este tipo de maus-tratos”.

Nos casos de bullying, a vítima é sempre pressionada e muitas vezes culpabilizada, adianta a especialista. Entre exigências várias, é remetida a um “silêncio absoluto” com vista a “evitar novas retaliações”. Na opinião desta especialista e autora de diversos artigos sobre o bullying escolar, “o jovem assume que nunca irá conseguir livrar-se desta situação, sentindo que não pode contar com os adultos, por recear que estes possam criar ainda mais revolta nos agressores”.

Perante estes dados, o fundamental é trabalhar a auto-estima e a capacidade de fazer face às contrariedades das vítimas. “O papel que os pais e professores devem assumir tem que assentar no reforço da auto-estima da vítima, na restituição da sua capacidade reivindicativa, e não tanto no confronto directo com o agressor”, sublinha. Trata-se, portanto, de um “trabalho de retaguarda”, através do qual “a vítima se possa sentir apoiada, compreendida e valorizada, permitindo-se aumentar a sua autonomia”.

Eles batem, elas humilham
Vários estudos sobre esta problemática indicam que os rapazes são os principais praticantes do bullying directo ou físico (caracterizado por agressões físicas como bater, dar pontapés e encontrões ou empurrar), enquanto as raparigas preferem o bullying relacional ou verbal (ameaçar, ofender, humilhar ou iniciar rumores e rejeições), quer sejam vítimas ou agressores.

O recreio aparece como o local de maior incidência de práticas de maus tratos entre iguais. Outros alvos preferenciais dos bullies são locais pouco vigiados, como balneários e corredores.
Ainda que o fenómeno se manifeste de diversas formas, a mais frequente é a agressão verbal, através de insultos, seguindo-se a agressão física e a ameaça. Outra prática usual é a de espalhar rumores, uma prática mais elaborada que implica a exclusão da vítima de jogos ou outras actividades de grupo. As agressões podem variar em função do nível de escolaridade: vários estudos internacionais referem que o 8.º ano é considerado o mais problemático.

[quote_box_left]“O papel que os pais e professores devem assumir tem que assentar no reforço da auto-estima da vítima, na restituição da sua capacidade reivindicativa, e não tanto no confronto directo com o agressor” – Tânia Paias, psicóloga clínica[/quote_box_left]

Numa iniciativa conjunta da Universidade do Minho, Universidade do Porto, Universidade Técnica de Lisboa e da Universidade de Évora, em parceria com a Universidade de Londres, uma versão do questionário sobre bullying escolar desenvolvido por Olweus foi aplicada a um grupo de 4092 alunos, com idades compreendidas entre os dez e os doze anos de idade, em dez escolas portuguesas (seis em Braga e quatro em Lisboa).
Os resultados deste inquérito, publicado internacionalmente em Maio de 2004, revelam níveis consideráveis de vítimas de intimidação constante (20 por cento dos inquiridos), bem como de agressores (16 por cento dos inquiridos). Estes resultados, que foram comparados com os de outros estudos realizados na Noruega, Reino Unido, Itália e Irlanda, detectam um risco acrescido entre os estudantes do sexo masculino e de classes sociais baixas.

Um outro estudo sobre a violência entre pares, realizado em 2004 pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, a partir de um questionário aplicado a 242 alunos de uma escola do 3º ciclo do ensino básico da cidade de Lisboa, confirma que os casos de agressão sistemática variam com o género e com a classe social das crianças, concluindo que o número quer de agressores, quer de vítimas, é maior entre rapazes e nas classes mais desfavorecidas.
Dos 242 alunos, onze (4,5 por cento) foram considerados com estatuto de vítimas e seis (2,5 por cento) com estatuto de agressores, o que perfaz um total de dezassete alunos (7 por cento) envolvidos em maus-tratos entre iguais de forma sistemática. Relativamente à idade, a maioria dos bullies tem entre 13 a 16 anos, concluiu a análise.

Estes especialistas verificaram ainda que a maior parte dos alunos (68,6 por cento) são observadores frequentes de situações de agressão entre colegas (independentemente do ano que frequentam, da idade, do género a que pertencem, do estatuto social ou da sua origem étnica), verificando-se uma tendência para os observadores nada fazerem para proteger os colegas vitimizados.
Em termos territoriais – Norte/Sul – não foram encontradas diferenças significativas nas percentagens de agressores e vítimas do bullying. Estes resultados acompanham a tendência já demonstrada num estudo de Olweus (1991), no que respeita à localização das escolas, em meio rural ou urbano, bem como as conclusões do estudo desenvolvido nas escolas de Braga e Lisboa sobre este índice.

Grupos de risco
Os muitos estudos já realizados demonstram que este é um problema global, que atravessa todos os estratos sociais e ocorre em todas as escolas e em todos os níveis de ensino, áreas geográficas ou demográficas.

No entanto, existem alguns grupos de maior risco, como os alunos com insucesso escolar. Como revela a investigação conjunta das Universidades do Minho, Porto e Técnica de Lisboa, as crianças que repetem o ano perdem auto-estima e adquirem um estatuto especial aos olhos da turma, não sendo, por vezes, fácil serem aceites na rede de relações já estabelecida. Juntamente com o facto de serem mais velhas e normalmente mais fortes, esta condição coloca-as em boa posição para se tornarem praticantes de bullying.

[quote_box_right]É de prever que os bullies corram um risco acrescido de virem a envolver-se em outros problemas de comportamento, como a criminalidade, o abuso de substâncias aditivas ou o comportamento agressivo em família.[/quote_box_right]

Outro grupo particularmente afectado é o das crianças com necessidades especiais integradas no ensino regular, as quais estão particularmente sujeitas a tornarem-se vítimas deste fenómeno. Por último, “parece existir uma ligação entre o estatuto de aluno/vítima e as famílias monoparentais ou a ausência simultânea das figuras paterna e materna”, conclui o estudo da Universidade de Lisboa.
Pouco motivados para a escola, estes alunos encontram por vezes no bullying uma maneira de chamar a atenção sobre si próprios ou tentar evidenciar-se, ganhando algum poder perante o grupo.

Intimidações deixam traumas
Como explicam os docentes da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa envolvidos na investigação, a violência que em cada escola é desencadeada por um pequeno grupo de alunos pode afectar muitas crianças e adolescentes, que se tornam vítimas ou observadores, no seu quotidiano escolar, de situações de agressividade com as quais não sabem lidar. Este processo “afecta por vezes decisivamente” o percurso escolar, o bem-estar e o desenvolvimento pessoal e social destas crianças.

Diversos estudos de follow-up recolhidos por esta equipa revelaram nos jovens adultos que foram sistematicamente vítimas dos seus pares, durante a escolaridade, “dificuldade em estabilizar o seu modo de ser, uma tendência persistente para a depressão e baixa auto-estima”. Segundo Tânia Paias, trata-se de uma forma de pressão social capaz de gerar “traumas significativos na vida dos alunos que são sujeitos diariamente a este tipo de maus-tratos”. Os principais “prendem-se com aspectos psicológicos que ficam para a vida, caso não sejam devidamente contidos e trabalhados”, alerta a especialista.
Quanto aos bullies, é de prever que corram “um risco claramente maior” de virem a envolver-se em outros problemas de comportamento, como a criminalidade, o abuso de substâncias aditivas ou o comportamento agressivo em família. Trata-se, portanto, de um problema social grave, afirmam os especialistas, que extravasa o âmbito escolar e pessoal.

Na literatura da especialidade, “as referências a suicídios de adolescentes associados aos maus-tratos entre iguais dão-nos dramaticamente uma melhor percepção da dimensão do problema”, alertam também.

É que, em situações limite, a vítima de bullying sofre “danos quase irreversíveis” na sua auto-estima, sentindo-se “profundamente impotente” para lidar com o problema, explica Tânia Paias. Tornando-se incapazes de lidar com as adversidades, como as injúrias que sobre eles pendem, estes jovens podem vir a acreditar que o único escape que têm é o suicídio, conclui.

[quote_box_left]“As referências a suicídios de adolescentes associados aos maus-tratos entre iguais dão-nos dramaticamente uma melhor percepção da dimensão do problema”. – responsáveis do estudo Violência entre Pares no 3º Ciclo do Ensino Básico[/quote_box_left]

Apesar da dimensão e das consequências deste problema, ele tem sido socialmente bastante negligenciado, concordam todos os técnicos. Muitos adultos consideram a violência entre pares “inevitável” na vida escolar e, por vezes, encaram-na mesmo como algo que faz parte da iniciação à idade adulta, particularmente no caso dos rapazes, lamentam os especialistas da Universidade de Lisboa.
Este facto é particularmente grave tratando-se de agentes educativos, os quais perante uma situação de violência entre pares, “têm o dever de informar e articular com os familiares das crianças envolvidas – vítimas, agressores e observadores – uma procura conjunta de soluções”, sublinha a psicóloga da Psicronos. É necessário esclarecer e alertar, pois “muitos familiares só se apercebem destas situações numa fase bastante avançada, quando os danos psíquicos são enormes e atingiram uma perigosidade elevadíssima para a saúde mental”.

Neste processo, é fundamental enquadrar toda a problemática, acrescenta, desde a sua origem às envolvências emocionais e relacionais, uma vez que quer o agressor, quer a vítima, são jovens de risco: “a vítima porque está diminuída na sua auto-estima e o agressor porque só conhece esse modelo relacional”, resume. Neste contexto, deverão ser tomadas medidas sérias, capazes de colmatar esse risco.

É que, como acreditam os autores do estudo da Universidade de Lisboa, no mundo de hoje faz cada vez mais sentido que “na escola se cultive, de forma intencional, uma educação para a paz, que pressupõe a existência de uma cultura de direitos humanos em cada escola”.

Software “Fear NOT!”: Lidar para não temer

O Instituto Superior Técnico (IST) está a desenvolver um programa informático que visa ajudar crianças entre os nove e os 11 anos a lidar com situações de violência por parte de colegas. O software interactivo “FearNot!” (Não tenhas medo!) usa um ambiente virtual em três dimensões no qual são encenados 30 episódios distintos de bullying, que podem gerar várias situações, já que cabe às crianças aconselhar as vítimas/personagens a denunciarem a situação ao professor ou aos pais ou a ripostarem contra o agressor, por exemplo, o que altera o seu estado emocional.O objectivo primordial deste projecto é dotar as crianças de “estratégias para lidar com estas situações” no mundo real, a partir da empatia estabelecida com as vítimas do jogo. Como explica Ana Paiva, coordenadora do projecto e professora associada do IST, “a criança age como se fosse um amigo da vítima, dando conselhos”, cujos resultados podem depois ser avaliados. A finalidade é “promover a empatia entre a criança e a vítima”, e nunca fazer com que ela se sinta vitimizada, conclui.
Atendendo às diferenças significativas na prática de bullying pelos dois sexos, já enunciadas, foram desenvolvidas versões distintas do software: uma, dirigida aos rapazes, em que os episódios de bullying têm uma natureza mais directa (com situações de natureza física), e outra, dirigida às raparigas, onde o bullying é predominantemente relacional (reportando situações de exclusão ou insultos, por exemplo).
Depois de testada a versão inglesa por mais de mil crianças em escolas no Reino Unido e Alemanha, países parceiros do projecto, a versão em português está a ser ultimada, esperando-se que esteja pronta no início de 2008. No entanto, “o desenvolvimento dessa mesma versão está dependente de financiamento”, pelo que a sua disponibilização às escolas portuguesas de forma gratuita, já anunciada, poderá estar comprometida.Em Portugal, foram realizados testes em quatro escolas, com cerca de 120 alunos, a partir de situações reais recolhidas pela equipa junto de psicólogos e técnicos de educação, “que reportaram o tipo de situações que ilustram a prática reiterada deste fenómeno”, esclarece Ana Paiva. Contudo, perante os testes realizados até ao momento, “é ainda prematuro tirarmos qualquer conclusão” ao nível de comportamentos tipificados de bullying.

 

Tente perceber se o seu filho é vítima de Bullying

– É muitas vezes alvo de brincadeiras de mau gosto?
– Qual é a alcunha que tem na escola?
– Há alguma característica na sua personalidade ou fisionomia que o coloca na situação de ser um “alvo fácil”?
– Recusa-se a ir à escola e anda triste?
– Parece não ter amigos ou não se sentir à-vontade com eles?
– Mostra-se muito sensível às suas brincadeiras e reage, chorando ou demonstrando comportamentos agressivosPrevina os danos do Bullying
– Se o seu filho tem alguma característica na sua personalidade ou fisionomia que o coloca na situação de ser “alvo fácil”, procure um psicólogo que o possa ajudar a lidar com essa característica para que não se torne um estigma e um motivo de vergonha
– Esteja atento, observe o seu filho a brincar com os outros colegas, solicite aos professores o parecer deles.
– Não se torne hiper-protector, mas vigie com atenção.
– Não se esqueça que o seu filho pode precisar de ajuda. Nem sempre as crianças têm a força necessária para fazerem frente a um agressor
– Se o seu filho é muito agressivo, esteja atento, ele pode ser autor de bullying e não ter consciência do sofrimento que provoca nas outras crianças.

Identifique os comportamentos de Bullying

Bullying Físico – Bater, agredir, dar pontapés, empurrar, dar encontrões e puxões
Bullying Verbal – Ameaçar, arreliar, iniciar rumores e fazer comentários agressivos.
– Exclusão das Actividades – Exclusão directa de certa criança para as actividades em que todos participam menos a criança excluída

O que Não se deve fazer
– Incentivar a criança a ser assertiva, a desvalorizar o que aconteceu, a ser indiferente às agressões e incentivá-la a fazer de conta que não é incomodado com as agressões. Isoladas, estas atitudes podem levar a criança a sentir-se um fracasso

O que se Deve fazer
– Estar atento e intervir no sentido de fazer parar o comportamento da criança que atormenta o seu filho. Falar com o seu filho e com os colegas dele para tentar perceber se ele está a ser vítima de bullying. Explicar-lhe que é natural sentir medo e vergonha, mas que deve ser capaz de falar sobre o que está a acontecer para que o possam ajudar. Chamar a atenção dos professores responsáveis, falar com os pais da criança que atormenta e solicitar que a criança agressora seja observada por um psicólogo. Falar com a criança que foi alvo de bullying e explicar-lhe que ela não se deve culpar pelo que aconteceu e, caso necessário, oferecer-lhe um acompanhamento psicológico para que ela possa elaborar os “traumas” a que foi sujeita.
Fonte: Psicronos

Saiba mais:
www.violencia.online.pt
www.dgsaude.pt

www.bullyonline.org
www.childline.org.uk/Bullying.asp
www.stopbullyingnow.com
www.apav.pt

© 2007 – Todos os direitos reservados.
Gabriela Costa

Jornalista