A pedagogia dos afectos que preside à reabilitação de pessoas com deficiência mental, em Sintra, alarga-se, com o novo estatuto de associação sem fins lucrativos, às famílias mais carenciadas. A Associação Qe deverá ainda, a partir de 2011, integrar um conjunto vasto de novas inscrições, graças a um acordo de cooperação com a Segurança Social, a qual já financia sete alunos com poucos recursos
POR GABRIELA COSTA

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A Quinta Essência foi inaugurada em 2006 pela mão de oito promotores, que instalaram, num complexo privado de 15 mil metros quadrados, um pólo pedagógico e um pólo residencial destinados à reabilitação na área da deficiência mental. Entre eles estão João Ribeiro Ferreira, administrador da hoje Associação Qe, e Ana Galhardo Simões, directora pedagógica.

Impulsionados pelo imperativo de construir um novo conceito que fosse ao encontro “daquilo que acreditávamos ser necessário para Portugal, no domínio da reabilitação”, desenvolveram, com o investimento inicial assegurado em grande parte (oitenta por cento) por um conjunto de accionistas, a infraestrutura, o modelo de gestão e o modelo pedagógico da Qe Sintra. Ao todo, foram precisos três anos para arrancar com este projecto destinado a maiores de dezasseis anos com necessidades especiais.

Agora o projecto está numa fase de transição: é chegado “o momento de poder transformar” a Quinta Essência – Projectos de Reabilitação para a Pessoa com Deficiência numa associação privada sem fins lucrativos, denominada Associação Qe. Trata-se de”uma nova linguagem para a incapacidade”, acreditam os mentores do projecto. Segundo Ana Simões, “a direcção tomou esta decisão porque considera que estão reunidas as condições para abrir as portas da Associação Qe a muitos outros alunos”. A directora pedagógica explica que desde o início a Qe vem sendo “constantemente abordada por famílias de jovens com atraso de desenvolvimento intelectual, muito carenciadas financeira e socialmente”, que solicitam a integração dos seus filhos no complexo.

Garantindo que se trata de um projecto singular que, transformado em associação sem fins lucrativos, “colocamos agora ao serviço da comunidade”, a responsável recorda que “cabe à comunidade colaborar para que o empreendimento se mantenha com a mesma qualidade”. A Associação Qe vai tornar-se uma IPSS (Instituição Privada de Solidariedade Social), podendo assim receber donativos ao abrigo da Lei do Mecenato, com os respectivos benefícios fiscais.

A Qe apoia a integração sócio-profissional dos alunos, que podem concorrer aos empregos em igualdade de circunstâncias com os restantes candidatos

Método holístico promove “Gentleteaching”
O projecto assenta em três vectores fundamentais: a pessoa com deficiência é vista como um ser humano único, detentor dos seus próprios potenciais; os técnicos são veículos de apoio à prossecução do seu desenvolvimento; e os modelos de avaliação, de ensino e de aprendizagem são pautados pela eficiência e objectividade, dando relevância às componentes afectiva e emocional.

Como defende João Ferreira, trata-se de um modelo holístico, que integra todas as visões – médica, psíquica, terapêutica – da reabilitação, e que está totalmente adaptado à realidade portuguesa. Como quaisquer outras pessoas, os indivíduos com deficiência mental têm um perfil de competências pré-definido, com uma tipologia de pontos fortes e fracos. O que se faz na QE Sintra é tentar “potenciar os pontos fortes e minimizar os fracos, em vez de nos substituirmos a estes últimos, que é o que a sociedade em geral tende a fazer”.

De acordo com o administrador da QE Sintra, o modelo criado pretende-se “globalmente lucrativo, primeiro para os seus utilizadores (pais e alunos), depois para os fornecedores e parceiros e, por último, para os accionistas e para a própria equipa”.

O conceito da Qe adaptou o método de ensino e relacionamento “Gentleteaching” à realidade portuguesa, integrando-o no modelo holístico em que assenta o projecto. O “Gentleteaching” assenta num modelo cultural não instrumentalizado, tendo por base a Pedagogia da Interdependência, que “tem a ver com a nossa maneira de estar”, sublinha João Ribeiro Ferreira, nomeadamente com os outros.

Ana Galhardo Simões exemplifica: “Se estivermos preocupados em ensinar um aluno a ler e escrever mas não fizermos com ele um processo de crescimento, ouvindo as histórias que tem para contar, adaptando os temas do seu interesse nesse processo de leitura e escrita, nunca iremos conseguir que ele aprenda verdadeiramente”. Tratando-se de um adulto, a aprendizagem destituída de afectos torna as pessoas insatisfeitas e inseguras.

O que o Gentleteaching nos diz é que tudo começa na relação e tudo se centra nela. Segundo esta abordagem, em primeiro lugar a pessoa tem de se sentir segura (ninguém é agressivo porque quer, mas porque se sente inseguro) e depois tem de se sentir amada. Cumpridas estas duas premissas “ela está preparada para receber qualquer tipo de input”. Na Qe tenta-se produzir uma atitude comportamental de interacção com os alunos, “que parte de toda a equipa”, conclui João Ferreira.

Uma equipa de 27 pessoas trabalha actualmente no projecto em Sintra, colocando em acção um conjunto de premissas, como equilibrar as dimensões afectiva e racional ou aprender com a própria experiência. O organograma da empresa é horizontal, para que todos (técnicos, auxiliares ou directores) interajam com os alunos.

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Autonomia pessoal, social ou profissional
Na Qe não existem salas de aula ou grupos fixos. Tudo parte de um programa de desenvolvimento individual (PDI), desenhado na sequência de um processo de avaliação inicial, durante o qual se define um conjunto de requisitos relacionados com as competências pessoais e intelectuais do aluno (Ver Caixa 1).

Ao fim de quatro dias de observação, a avaliação do aluno face a cada um desses requisitos é lançada num sistema informático, gerando um perfil de competências, a partir do qual é traçado o relatório de avaliação inicial. Só então, e caso o aluno seja integrado, se avança para a definição de um PDI, a partir do qual cada aluno é integrado num dos três currículos possíveis – de autonomia pessoal, social ou profissional, participando em parte das actividades disponíveis, numa abordagem diferenciada em função dos objectivos pretendidos para cada um.

Os grupos são assim heterogéneos e abertos a todos os alunos, em função da importância que as actividades adquirem. Por exemplo, as áreas de formação profissional, que incluem uma zona de restauração, um minimercado e actividades de tratamento de animais, jardinagem e agricultura biológica, podem ser frequentadas por alunos em formação pessoal, caso estes necessitem de aprender competências ligadas às actividades de vida diária, como descascar uma cebola, pôr a mesa, ou fazer um troco.

Os programas pedagógicos estão organizados em ateliers artísticos, mais lúdicos e terapêuticos (com actividades como as artes plásticas, a dança, a psicomotricidade ou exercícios de relaxamento e grupos de comunicação e informática), e actividades de simuladores, que A constituem áreas de desenvolvimento de competências técnicas específicas, quer numa vertente de formação profissional, quer numa vertente de aquisição de competências para a vida.

Em toda a Qe há uma matriz tridimensional, que permite um aproveitamento superior. Como ilustra João Ribeiro, “temos um economato, mas  com um layout de minimercado, que lhe confere uma dimensão social e pedagógica. Além disso, se algum destes alunos quiser ser repositor de supermercado, aprende ali o seu “ofício”. A associação estabelece protocolos de parceria com fornecedor, para dar apoio à integração sócio-profissional dos alunos, em consonância com as várias áreas de simulação. O percurso passa também por uma “formação no posto de trabalho”, que decorre nos espaços destes parceiros e prevê que os alunos da Qe possam concorrer em igualdade de circunstâncias com qualquer outro candidato, caso surja uma vaga de emprego.

Paralelamente aos programas pedagógicos, a QE Sintra implementou um projecto de formação de pais ou outros encarregados de educação,  partindo do princípio de que a base de desenvolvimento do aluno assenta nos dois grupos com quem estabelece laços, a família e os técnicos. O resultado é que a exigência dos pais sai reforçada deste envolvimento no dia-a-dia dos filhos e dá-se uma maior concentração de todos no apoio ao desenvolvimento do projecto de vida do aluno. Os pais “não estão habituados a ver valorizada a informação que transmitem, mas antes a ouvir um técnico a debitar sentenças sobre o seu filho”, diz Ana Simões.

Mecenas dão Bolsas Sociais
Actualmente, a Qe recebe trinta e seis alunos, com idades compreendidas entre os dezasseis e os 47 anos. Com o novo estatuto de associação, é previsível que a estes alunos se juntem muitos mais, segundo Ana Simões. A implementação de parcerias sociais e do conceito de Bolsa Social, que apoia famílias com menor rendimento através de mecenas, já tinha aberto caminho ao ingresso de alunos carenciados economicamente neste espaço de reabilitação. Os mecenas, pessoas singulares ou colectivas que co-financiam “objectivamente, e por um período mínimo de três anos,” um aluno carenciado, apoiam, de momento, cerca de quarenta e um por cento dos casos, com financiamentos na ordem dos 25 a 30 por cento. Resta dizer que as mensalidades oscilam entre os 1370 euros (para não residentes) e os 2350 euros (para residentes permanentes).

Sendo a QE Sintra um prestador de serviços, uma outra dimensão de financiamento poderá ser o próprio Estado, pressupondo que é sua função co-financiar terapias de pessoas que tenham baixos recursos financeiros. Embora a Qe ainda não tenha estabelecido o acordo de cooperação com a Segurança Social, através do qual será financiada num valor fixo por cada aluno que apresente poucos recursos económicos, a Segurança Social já financia um total de sete alunos. A associação espera que o Acordo de Cooperação seja estabelecido em 2011, o que permitirá “integrar um conjunto vasto de novos alunos, que de outro modo não teriam acesso” aos cuidados deste projecto de reabilitação na área da deficiência mental, que parte do valor de cada indivíduo para promover a sua integração e autonomia.

Nova Avaliação Inicial em Dezembro
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De 14 a 16 de Dezembro terá lugar na Associação Qe um novo processo de Avaliação Inicial para todos os que pretendem obter a sua integração na Associação Qe ou para quem pretende dispor de informação actualizada sobre as reais competências actuais de alunos inscritos. O processo dirige-se também a inscrições em regime não residencial.

O método de avaliação da Qe define as necessidades educativas da pessoa com atraso de desenvolvimento intelectual, a sua capacidade de realização e as suas dificuldades actuais. Uma equipa técnico-pedagógica avalia cerca de 270 requisitos, tendo em conta os seguintes domínios:

  • Domínio da Autonomia Pessoal: Higiene Pessoal, Vestuário, Alimentação, Actividades da vida diária e Auto-suficiência na comunidade;
  • Domínio de Comportamento Social: Ajustamento Pessoal e Social e a Linguagem Social;
  • Domínio do Desenvolvimento Físico: Desenvolvimento Sensorial e Desenvolvimento Motor;
  • Domínio do Desenvolvimento Cognitivo: Funções executivas, Memória, Desenvolvimento da Linguagem, Atenção/Concentração, Capacidades Visuo-Construtivas/Perceptivas, Orientação Espacio-Temporal, Leitura e Escrita, Cálculo.

Este modelo de avaliação permite a apresentação de um perfil de competências individualizado, onde se salientam as áreas de intervenção prioritárias.

Curso Profissional de Apoio Administrativo e Secretariado
No dia 10 de Dezembro realiza-se, nas instalações da Associação Qe, um novo processo de avaliação a Candidatos ao Curso de Apoio Administrativo e Secretariado, criado em parceria entre o ISLA Lisboa e a Associação Qe. O curso de Apoio Administrativo e Secretariado tem início marcado para meados de Janeiro de 2010.

Natal Especial na Qe
Em antecipação da Colónia de Férias de Natal 2009, a Associação Qe preparou actividades lúdicas e pedagógicas para os Fins de Semana e Feriados de Dezembro 2009. Estão previstos fins de semana prolongados com actividades natalícias, que vão proporcionar às pessoas com atraso de desenvolvimento intelectual desfrutar mais cedo da diversão do Natal. Um programa cheio de actividades lúdicas, com acompanhamento técnico, está já disponível para a Colónia de Férias, seja em regime residencial ou em regime não residencial.
© 2009 – Todos os direitos reservados. Publicado em 2 de Dezembro de 2009