O estudo “Mulheres, Liderança e o Paradoxo da Prioridade” revela que a diferença de géneros em cargos relevantes e de liderança continua bastante enraizada nas organizações e no dia-a-dia. Urge a necessidade de olhar para a evolução profissional das mulheres como uma prioridade, uma vez que este estudo conclui que a diferença global de género pode verificar-se até 2073
POR LÍGIA CABEÇADAS

No último dia 8 de Março, Portugal assistiu à maior greve feminista dos últimos tempos. De norte a sul, as mulheres saíram à rua para lutar pela igualdade salarial e pela reposição da contratação colectiva com o objectivo de defender o trabalho e combater as desigualdades.

Lígia Cabeçadas, Directora de Recursos Humanos da IBM Portugal

Foi neste contexto que a IBM Institute for Business Value (IBV), em parceria com a Oxford Economics, apresentou os resultados do estudo “Mulheres, Liderança e o Paradoxo da Prioridade”, que inquiriu 2.300 executivos e profissionais com o objectivo de compreender a perspectiva das organizações sobre a desigualdade de género no trabalho. Foram entrevistados o mesmo número de mulheres e homens de organizações de todo o mundo para compreender a disparidade que existe entre géneros em cargos de liderança e o que deve ser feito para impulsionar mais igualdade.

O estudo “Mulheres, Liderança e o Paradoxo da Prioridade” revela que a diferença de géneros em cargos relevantes e de liderança continua bastante enraizadas nas organizações e no dia-a-dia. Urge a necessidade de olhar para a evolução profissional das mulheres como uma prioridade, uma vez que este estudo conclui que a diferença global de género pode verificar-se até 2073. Previsões assustadoras em pleno século XXI, onde a desigualdade e a disparidade deviam estar cada vez mais longe e ser cada vez menos uma realidade.

O estudo revelou que 18% dos cargos de liderança sénior são ocupados por mulheres, um número baixo, que se deve ao conservadorismo das organizações que não estão convencidas da mais-valia da igualdade de género para o negócio. 79% dos entrevistados revelam que não existe igualdade de género na liderança, ainda que conscientes que a igualdade pode conduzir ao sucesso financeiro e à competitividade; os homens subestimam a magnitude da diferença de género nos seus locais de trabalho, porque 65% dos inquiridos de sexo masculino acreditam que seriam promovidos mesmo que fossem mulheres. Uma utopia real na cabeça dos mesmos; e poucas organizações reconhecem e priorizam a diferença de género: as organizações confiam demasiado nas “boas intenções” e aplicam uma abordagem de laissez-faire à diversidade, quando deviam optar por aplicarem a estratégia e a disciplina na execução operacional e desempenho organizacional.

Neste contexto, surge um conjunto de organizações – os “First Movers” – que se destaca pelo esforço comum de alcançar a igualdade de género em posições de liderança. Representando, apenas, 12% da amostra total dos inquiridos, estas organizações partilham características e valores que promovem um ambiente mais inclusivo, constituindo um exemplo para as outras organizações que queiram olhar para a disparidade com olhos de ver e com a sensibilidade necessária. Os “First Movers”, caracterizados por promoverem e fomentarem a igualdade, estabelecem objectivos mensuráveis e definem uma abordagem sistémica para a inclusão em toda a organização, como o recrutamento, a remuneração, o desenvolvimento, a retenção e a valorização das mulheres.

[quote_center]Uma decisão fundamental para o sucesso passa por tornar a liderança das empresas responsável pelos resultados de igualdade de género, uma vez que são os profissionais seniores que têm o poder de promover as mulheres para cargos de liderança[/quote_center]

Estas organizações são um exemplo para outras empresas que queiram evoluir nesta área e disponibilizam linhas de orientação sobre os principais passos para a criação de uma cultura que promova a igualdade de género no local de trabalho e que promova os objectivos de desempenho e incentivos em todos os níveis de organização, lutando por um ambiente e qualidade laboral equitativa. Para isto é importante perceber que, à semelhança dos “First Movers”, é fundamental considerar a igualdade de género um tema sério, sendo a valorização da mulher uma prioridade formal do negócio – neste estudo, apenas 9% das organizações têm esta preocupação; outro ponto passa pela motivação através de melhoria financeira, concordando que as organizações inclusivas de género têm mais sucesso financeiro, ainda que apenas 38% dos entrevistados concordem com estas ideias; o reconhecimento e assumir a responsabilidade de agir para fazer mudanças ao nível da igualdade de género é fundamental para caminhar em direcção à igualdade.

Tornar a igualdade de género na liderança uma prioridade de negócio vai reforçar o compromisso no plano de negócio, com indicadores de desempenho (KPIs), orçamento e recursos atribuídos. É imprescindível criar uma cultura de inclusão na missão estratégica da organização com programas que oferecem condições de trabalho mais flexível e iniciativas. Uma decisão fundamental para o sucesso passa por tornar a liderança das empresas responsável pelos resultados de igualdade de género, uma vez que são os profissionais seniores que têm o poder de promover as mulheres para cargos de liderança.

Numa sucinta análise, confirma-se que mais de 60% dos inquiridos não se preocupa com estas práticas e que não levam a sério a desigualdade de género e a importância de ter mulheres em cargos de gestão e de chefia para atingir o sucesso e melhores resultados, como não compreendem como é importante valorizá-las e tratá-las da mesma forma que os homens.

Em pleno século XXI, a (des)igualdade de género em posições de liderança e no quotidiano é uma imagem bem real do que acontece.