Neste ambiente agreste e violento, os pinguins adoptaram algumas técnicas de sobrevivência que se revelaram determinantes para o seu sucesso enquanto comunidade. Partilham. De outra maneira nunca chegariam à nova primavera. Ou seja, o indivíduo é irrelevante nesta situação, é o grupo, a rede cooperativa que sobrevive e faz passar as gerações. Não há mais tempo do cada um por si
NUNO GASPAR DE OLIVEIRA

Por vezes gosto de recordar as minhas origens de biólogo, onde nem me passava pela cabeça que muito do que aprendia, especialmente de ecologia, me iria ser determinante para, anos mais tarde, começar a desenvolver o meu gosto pela economia. No fundo, ecologia é a ciência de conhecer a casa e economia, a de a governar. Parece simples não é? Vá-se lá perceber porque parece tão difícil a tanta gente.

Enfim, o que me parece é que o século XXI é a nossa derradeira oportunidade de cruzar conhecimentos de múltiplas áreas e criar a desejada transdisciplinaridade, a ciência miscigenada e romper as barreiras que nos impedem de realmente progredir rumo a uma sociedade mais justa, solidária, equilibrada e orientada para o bem-estar comum.

Mas, de volta às aulas de ecologia, lembro-me um dia de ouvir falar numa teoria que afirmava de forma veemente que ‘um pinguim não existe’. Era capaz de jurar que sim, mas lá explicava a professora mais à frente: os pinguins são seres muito bem adaptados a um meio extremamente hostil, a Antárctida, a última fronteira terrestre (já agora, um curioso caso de geopolítica em que, não tendo sido colonizada por nenhuma potência durante séculos, se tornou pertença de todos, o derradeiro território comum da humanidade. Se ao menos não fosse tão gelado, como seria diferente…).

Neste ambiente agreste e violento, os pinguins adoptaram algumas técnicas de sobrevivência que se revelaram determinantes para o seu sucesso enquanto comunidade. Partilham. No caso do pinguim-imperador, enquanto as fêmeas cruzam o gélido mar do sul em busca de peixe e krill, os machos, que ficam a guardar o ovo, partilham o frio, revezando os indivíduos expostos aos ventos cortantes e distribuindo o calor entre o grupo. De outra maneira nunca chegariam à nova primavera. Ou seja, o indivíduo é irrelevante nesta situação, é o grupo, a comunidade, a rede cooperativa que sobrevive e faz passar as gerações.

“Quando se gera valor, aparece o dinheiro, mas o oposto nem sempre é verdade” .
.

Estava eu a sonhar com pinguins quando num programa de TV sobre empreendedorismo se glorificava a importância do segredo do negócio, do exemplo dos self-made-men ou da grande ideia que os indivíduos ‘a’, ‘b’ e ‘c’ tiveram e que os cobriram de ouro. E logo a seguir, mostrava estatísticas assustadoras e irreproduzíveis de desempregados, falências de empresas e colapsos de parques de negócio por todo o Portugal. E, olhando para o cenário que se desenrolava dantesco no ecrã, pensei de mim para mim que muitas destas empresas, empresários e promotores nunca tinham estudado pinguins, muito menos ecologia.

Talvez face ao conceito de resiliência – a capacidade de um sistema, comunidade ou organismo resistir à perturbação e pressão e recuperar as suas funções vitais após o choque, podendo mesmo melhorar a sua performance após aprender com o erro e factores de stress – de redes neuronais (o verdadeiro factor de inteligência não é o número de neurónios, ou células nervosas, mas a quantidade de ligações que estes formam entre si à medida que o organismo é exposto a factores de perturbação, aprendizagem e desenvolvimento) – e, vai na volta, até em termos de economia, tivessem algum problema em perceber que o fim último da economia deverá ser gerar bem-estar e não o crescimento ilimitado da actividade económica.

Lá está, quando se gera valor, aparece o dinheiro, mas o oposto nem sempre é verdade. Se precisa de provas para suportar esta afirmação, está a perder tempo precioso a ler esta opinião, convém dar um pouco mais de atenção à vida real, a das pessoas e comunidades reais, em situações cada vez mais surreais.

Voltado ao empreendedorismo e dinamização de negócios, parece-me que ou percebemos como funcionam os pinguins ou entramos numa fria. Não há mais tempo do cada um por si, do empreendedor que brande o seu business plan aos ventos cortantes da economia abaixo de zero e grita por ajuda enquanto colapsa sobre a pressão. Como dizia um amigo meu, em Portugal, clusters são aqueles cereais com um esquilo e pouco mais. Mas já que não aprendemos com os esquilos, que tal uma lição dos pinguins? Que tal irmos buscar à biologia os conceitos de resiliência, de redes e de sistemas auto-regulados para compreendermos a importância de fomentar não um mais um mais um projecto de empreendedorismo, um mais um mais um mais um apoio do QREN ou um mais um mais um processo de apoio à entrada no parque industrial da região ‘x’ ou ‘y’? Que tal nos deixarmos de dar a cana e ensinar a pescar e passarmos a explicar como se cria uma rede de negócios resilientes que além de peixe partilha outros benefícios, liga actividades complementares, partilha riscos, aprende com os erros dos outros, expõe-se a benefícios colectivos e gera valor e bem-estar?

Nesta era de alterações climáticas em que os pinguins se tornam cada vez mais raros e ameaçados, convém perceber que durante milhões de anos a Terra floresceu e, com base no seu potencial natural, fez-nos florescer. É capaz de haver aqui uma lição ou outra a tirar para a economia e gestão. Digo eu.