No meio da convulsão da 4ª Revolução Industrial, não concebemos um mundo em que se perca a capacidade de persuadir em direcção à compra ou de produzir algo que vai ter procura: se as técnicas estão obsoletas, o marketing reinventa-se, assim como se reinventa a produção. Muitas vezes aceitamos com um certo fatalismo, como um triste fado com o qual sem querer colaboramos, as previsões de um futuro em que a economia prescinde do trabalho de uma parte significativa das pessoas
POR ANA MACHADO

Um director de marketing que baixe os braços porque as técnicas que conhece não dão resultados, ou um director de produção que feche os olhos porque as linhas de produção instaladas não são competitivas, são exemplos de atitudes impensáveis no nosso contexto socioeconómico. No meio da convulsão da 4ª Revolução Industrial não concebemos um mundo em que se perca a capacidade de persuadir em direcção à compra ou de produzir algo que vai ter procura: se as técnicas estão obsoletas, o marketing reinventa-se, assim como se reinventa a produção. Pelo contrário, muitas vezes aceitamos com um certo fatalismo, como um triste fado com o qual sem querer colaboramos, as previsões de um futuro em que a economia prescinde do trabalho de uma parte significativa das pessoas.

No início de Julho participei em Barcelona no 20th International Symposium on Ethics, Business and Society, que tinha por tema “The Meaning of Work in the Fourth Industrial Revolution”. Entre os seus objectivos, estava este: “esperamos contribuir para a construção de uma nova visão de trabalho que coloque a centralidade do ser humano no núcleo da definição e prática do trabalho, bem como a centralidade do trabalho no núcleo do desenvolvimento das sociedades.”

[quote_center]Quando faz evoluir a técnica, a humanidade dá ‘novos mundos ao mundo’[/quote_center]

Marta Bertolaso, professora de Filosofia da Ciência na Università Campus Bio‐Medico di Roma, teve o papel de desviar logo na primeira conferência os carris pelos quais costuma correr o pensamento numa escola de negócios. Foi útil que, antes de ouvir Ramón López de Mántaras, director do Artificial Intelligence Research Institute, uma filósofa nos chamasse à realidade do que é a inteligência humana, para perceber melhor os limites da analogia usada quando falamos da inteligência artificial.

Se tivesse que escolher um dos oradores? Thomas Malone, director do MIT Center for Collective Intelligence. O seu conceito chave: superminds. Numa primeira abordagem, grupos de pessoas a trabalhar em conjunto. Numa versão mais alargada, grupos de pessoas e computadores a trabalhar em conjunto. A grande questão: como é que se podem unir pessoas e computadores de forma a que, em conjunto, actuem de modo mais inteligente do que até agora qualquer pessoa, grupo ou computador foi capaz?

Repare-se na abordagem: não diz pessoas ou computadores, mas sim pessoas e computadores. Recordando a mensagem da História que apareceu noutra conferência: em cada uma das revoluções industriais, o saldo entre o trabalho perdido e o ganho foi sempre a favor do segundo. Quando faz evoluir a técnica, a humanidade dá ‘novos mundos ao mundo’ também sob a forma de actividades que contribuem para a satisfação de necessidades (ou simplesmente gostos) das pessoas em geral. Claro que há o tempo da adaptação, a crise de crescimento, em que pelo princípio da solidariedade a sociedade deve providenciar uma rede para aqueles a quem falta o chão – uma rede de pesca e não uma cama de rede, porque é de trabalho que se trata.

[quote_center]O que uma ‘pura inteligência’ por definição não pode fazer (seja ou não artificial) é decidir qual é o objectivo para o qual o grupo se há-de dirigir[/quote_center]

Implicações da inteligência artificial para o mundo do trabalho? Verdadeiramente, o tom não era apocalíptico. A ‘inteligência artificial’ actualmente reduz-se a uma ‘inteligência especializada’: uma extraordinária capacidade de atingir objectivos determinados num dado contexto. Possivelmente, dentro de duas décadas a sua plasticidade terá crescido a ponto de se lhe poder atribuir também uma certa ‘inteligência geral’: a capacidade de atingir um vasto leque de objectivos em diversos contextos. Mas há mais aspectos a ter em conta, segundo Tom Malone:

i) a automação de empregos humanos provavelmente levará mais tempo do que muitas pessoas esperam;

ii) as pessoas continuarão a fazer parte das coisas que os computadores fazem mais rápido e melhor;

iii) as pessoas farão as coisas que os computadores não conseguem (é muito mais fácil ver que tarefas terminarão do que imaginar quais serão criadas).

E também acontece que às vezes não reparamos no óbvio. Do ponto de vista do modo como as decisões são tomadas nesses grupos, as superminds dividem-se em hierárquicas, democráticas, mercados, comunidades e ecossistemas (embora este nome seja apelativo, representa simplesmente a ausência de cooperação, ou a sobrevivência dos mais fortes). Em qualquer destas categorias, os computadores podem colaborar no processo de tomada de decisão, podem ajudar a que os objectivos se atinjam de modo mais eficaz (a racionalíssima magia dos algoritmos!). Mas o que uma ‘pura inteligência’ por definição não pode fazer (seja ou não artificial) é decidir qual é o objectivo para o qual o grupo se há-de dirigir.

Em revoluções industriais anteriores, aprendemos por exemplo que a força física não é o principal contributo do trabalho humano. Se soubermos aproveitar a revolução em curso podemos perceber bem melhor que o próprio em cada pessoa, mais que a maximização da eficácia, é a identificação do sentido.