O gentílico não mereceu ainda entrada dicionarística. Para os ingleses é um Kievan, para os franceses um Kiévien ou uma Kiévienne, para os espanhóis um kieveño ou uma kieveña. Ficamos com pena que o nosso rico idioma tenha esta pecha. Não se pense contudo que é um desmerecimento, pois que para os da enorme Tóquio sucede o mesmo. Acrescentam-se dois que não constam do léxico habitualmente disponível online e que os leitores podem saber agora duma assentada: istambuliota e osloeta, obviamente para Istambul e Oslo.
POR PEDRO COTRIM

Mais que a consagração lexical importa a paz e a pertença, mas deixamos ainda uma adenda: não é por lhe chamarmos Kyiv que a tornamos mais próxima. Também não adianta usar Moldova para Moldávia nem Beijing para Pequim e a toda esta questão podemos tornar mais tarde quando for oportuno.

Nos tempos da URSS, na Ucrânia, e conforme sucedia em toda a união, cidadania e nacionalidade coexistiam. Podia ser-se cidadão ucraniano de nacionalidade russa, uma distinção que ainda é, de algum modo, manifesta, mas em muito menor grau; os cidadãos tinham uma dupla identidade no registo civil: eram cidadãos soviéticos, mas estavam igualmente relacionados com uma das mais de cem nacionalidades oficialmente reconhecidas no país.

Esta distinção entre cidadania e nacionalidade persiste ainda nos recenseamentos, explicando porque a expressão «etnia russa» surge por vezes para designar cidadãos de nacionalidade russa; há cidadãos da federação de nacionalidade osseta, tártara, chechena ou outra.

Tal distinção existia obviamente na Ucrânia na altura em que foi uma República Soviética. A independência, conquistada pelo país em 1991 após referendo, trouxe alguns sobressaltos a esta situação, e, a partir 1994, os documentos civis ucranianos deixaram de mencionar a cidadania. Contudo, no censo de 2001 os cidadãos foram novamente convidados a identificar-se, se assim o desejassem, com uma das nacionalidades reconhecidas no país.

É uma situação que se estranha no nosso país, com estas fronteiras e esta identidade consolidadas há nove séculos, com excepção apenas dos sessenta anos da União Ibérica, mas atente-se que as linhas no mapa foram repostas exactamente no sítio quando se deu a Restauração. Acabaram-se os Filipes e os Áustrias, mas manteve-se tudo o resto. E claro que aqui não se imagina um egitaniense a distinguir-se de um albicastrense ou de um escalabitano, pois que são todos iguais.

No grande Leste, nas grandes pradarias, tudo foi diferente, e apesar das suas grandiosas referências à história imperial e as suas críticas a Vladimir Lenin, Vladimir Putin permanece em muitos aspectos um soviético, em especial no que diz respeito à sua concepção de identidade, o que pode explicar o modo desastrado de antecipar a resistência da população ucraniana ao avanço das tropas russas, resistência que surgiu mesmo nas zonas leste e sul da Ucrânia, as regiões mais russófonas.

A Ucrânia não foi ingrata à União Soviética, e a fotografia de capa deste artigo, uma espécie de «anjo comunista», se existisse, representa a gratidão aos soviéticos pela libertação na Segunda Guerra Mundial. É uma enorme estátua em Kiev e está ainda de pé.

O regresso da guerra, dos bombardeamentos, das grandes vagas de refugiados dura há um mês e colocou em sobressalto o resto do mundo. Sucedem-se manifestações, sanções e embargos, e no mundo há cidadãos russos que pedem desculpa pelo seu país e que por ele se envergonham. Um embaraço também difícil de imaginar.

Às devastadoras consequências directas da guerra adicionam-se outras, sobretudo de cariz económico, mas que não se limitarão à economia e que terão naturais consequências sociais e humanas, pois dizem directamente respeito a tudo o que é essencial. Falemos para já dos números que duas grandes consultoras, a Boston Consulting Group e a Dun & Bradstreet. E os números multiplicam-se com vigor.

Dun & Bradstreet

De acordo com dados da Dun & Bradstreet, a Ucrânia tem mais de 1,5 milhões de empresas activas. Os cinco grandes sectores que englobam 80% das empresas na Ucrânia incluem serviços, retalho, comércio, construção, serviços industriais e agrícolas. Os sectores fabris, agrícolas e retalhistas representam mais de um terço das empresas na Ucrânia que efectuam comércio com outras empresas em todo o mundo, e, em resultado, qualquer interrupção significativa nas suas operações pode ter consequências para a economia global.

Ainda de acordo com a Dun & Bradstreet, a Rússia tem mais de 3,5 milhões de empresas activas. Os cinco principais sectores tomam cerca de 80% de todas as empresas na Rússia, incluindo retalho, serviços financeiros e de seguros, imobiliário, construção e demais comércio. Provavelmente, a actividade da maioria destas empresas pode cessar se outros países optarem por não realizar negócios com entidades russas, ou então poderão enfrentar ameaças de segurança cibernética. A remoção das instituições financeiras russas da Sociedade de Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais (SWIFT) pode igualmente interromper o fluxo de caixa destas empresas.

Apesar de Rússia e Ucrânia representarem respectivamente 1,9% e 0,3% do valor global de exportação de mercadorias, os dois países são os maiores exportadores mundiais de todos os bens. Em conjunto, Rússia e Ucrânia representam 59% das exportações globais de óleo de girassol, 36% das de ferro ou aço não ligado e 26% das de trigo.

A base de dados UN Comtrade mostra que vários países apresentam uma elevada dependência das exportações russas e ucranianas (sendo que para os relatórios constantes nesta base de dados, elevada dependência significa mais de 50% das importações totais). Assim, 25 países têm uma elevada dependência de trigo e centeio, 24 países de carvão, 16 de gás natural e 10 de petróleo. E neste elenco estão representados muitos países da UE.

Ainda de acordo com dados da Dun & Bradstreet, as empresas ucranianas adquirem bens e serviços de pelo menos 55 000 empresas localizadas noutros países. 57% destas empresas estão localizadas nos EUA, China, Índia, Alemanha e Reino Unido. As empresas russas adquirem bens e serviços a pelo menos 92 000 empresas localizadas noutros países. Cerca de 55% destas empresas estão localizadas nos EUA, China, Índia, Alemanha e Reino Unido.

Boston Consulting Group

A informação desta consultora destaca igualmente o papel de Rússia e Ucrânia na exportação de energia, produtos agrícolas e metalúrgicos, sendo que a UE está mais exposta que os EUA e igualmente mais alavancada nas trocas comerciais.

A guerra está a ocasionar preços elevados e voláteis na energia, como bem sentimos. Os EUA, o Reino Unido, a UE e o Canadá adoptam posturas mais firmes que os grandes mercados emergentes, que optaram por mais subtileza. As sanções terão igualmente impactos segunda e terceira ordem. O sector dos serviços financeiros será o mais afectado, sendo que Rússia aplicando medidas contra as sanções.

As vendas na Rússia serão afectadas ou proibidas por sanções ocidentais. Marcas mundiais serão afectadas por vendas, serviços e risco de reputação na própria Rússia, sendo que os fluxos de importação de bens industriais serão igualmente afectados.

Números:

Em milhares de milhões de dólares (mmd), as trocas comerciais da EU com a Rússia valem mais de 180 mmd. Em termos mundiais, a Rússia exporta energia no valor de 201 mmd, sendo que importa do resto do mundo apenas 1 mmd. No caso das trocas metalúrgicas, a razão é de 49 para 18, estando a balança relativamente equilibrada em relação aos produtos químicos e agrícolas, mas valendo ambos os sectores globalmente 100 mmd. Se se estancarem definitivamente estes fluxos, as consequências não são muito difíceis de adivinhar.

A Ucrânia, valendo menos que a Rússia na generalidade dos sectores, é o maior produtor e exportador mundial de alguns cereais, como o trigo e as sementes de girassol. O impacto no preço do próprio pão será difícil de estimar.

Deixamos as ligações para os dois relatórios para os leitores que procurarem mais detalhes. O artigo ficaria extremamente longo se incluíssemos todos os elementos constantes nos documentos.

Já se viu que actos tresloucados conduzem habitualmente à tragédia e que a temperança abona felicidade para nós, para os nossos e para todos os outros. E para trazer luz ao que são Rússia e a Ucrânia, recordamos Mikhail Bulgakov, nascido em Kiev, império russo, em 1891, e tendo expirado eu Moscovo, URSS, em 1940. O trecho é de Margarita e o Mestre em tradução de António Pescada. O romance foi terminado pouco antes de morrer, mas apenas teve publicação em 1966, mesmo assim com muitas reservas dos serviços soviéticos.

«-Desculpe – disse delicadamente o desconhecido –, mas para governar é preciso, quer se queira ou não, ter um plano preciso para um período razoável. Permita-me portanto que lhe pergunte como pode o homem governar, se não é ele incapaz de estabelecer um qualquer plano para um período ridiculamente breve, digamos de mil anos, como nem sequer é capaz de garantir o próprio dia de amanhã?»

Pensar a mil anos. Se pensarmos na humanidade e nos vindouros nem é tanto assim. Ou é afinal tanto assim?


https://www.dnb.co.uk/content/dam/english/dnb-data-insight/DNB_Russia_Ukraine_Crisis_UK.pdf

https://www.consulting.us/news/7286/mckinsey-bcg-and-bain-bosses-respond-to-russias-criminal-aggression

Pedro Cotrim

Editor