Em plena crise pandémica, a que se junta uma crise ambiental há muito anunciada e uma potencial crise de empatia, mais do que uma opção, a visão de um estilo de vida diferente é antes de tudo uma necessidade. Este estilo de vida implica uma reflexão profunda, quer sobre a forma como nos relacionamos, quer sobre como usamos os recursos naturais que temos à nossa disposição. O tema estará em discussão no Encontro de Assis
POR AFONSO BORGA

A reflexão por uma nova Economia, mais inclusiva e na qual cada um de nós tem lugar leva-nos desta vez até à Village “Life & Lifestyle”, onde somos desafiados a pensar no nosso estilo de vida, desde o uso (ou abuso) das redes sociais, a forma como consumimos, onde entram temas como a moda e o desperdício, ou a nossa relação com a saúde mental, que merece cada vez mais destaque nos tempos em que vivemos.

Em plena crise pandémica, a que se junta uma crise ambiental há muito anunciada e uma potencial crise de empatia, mais do que uma opção, a visão de um estilo de vida diferente é antes de tudo uma necessidade. Este estilo de vida implica uma reflexão profunda, quer sobre a forma como nos relacionamos, quer sobre como usamos os recursos naturais que temos à nossa disposição.

Neste aspeto, Romano Guardini, citado pelo Papa Francisco na Encíclica “Laudato Sí” realça a importância desta reflexão, acentuando que o ser humano “aceita os objetos comuns e as formas habituais da vida como lhe são impostos pelos planos nacionais e pelos produtos fabricados em série e, em geral, age assim com a impressão de que tudo isto seja razoável e justo”.

Do fast fashion às fast relationships

Para a reflexão que trago aqui, proponho olharmos para a roupa que trazemos vestida e para o telemóvel que temos no bolso.

A primeira, leva-nos ao conceito de fast fashion e à indústria têxtil, considerada uma das mais poluentes, tendo em conta a produção, fabrico, transporte e uso que lhe estão associados.

Impulsionados por preços cada vez mais baixos, compramos cada vez mais roupa e usamo-la menos vezes, estimando-se que, por ano e em todo o mundo, sejam fabricadas 20 peças de roupa por pessoa. A fast fashion tem também efeitos sociais, nomeadamente nas condições laborais precárias, insegurança no trabalho, abusos e violência.

Importa assim refletirmos sobre o papel que a moda tem no nosso estilo de vida e olharmos para alternativas mais sustentáveis, que respeitem os Direitos Humanos ao longo da sua cadeia de valor, que não usem os recursos naturais de forma abusiva e que comuniquem de forma clara as origens da matéria-prima e os meios  e condições de produção que utilizam. É nossa responsabilidade, enquanto consumidores, sermos exigentes e estarmos atentos ao comportamento das marcas que usamos.

Sobre o telemóvel, nunca como agora se discutiu o poder e a influência das redes sociais. Em média, cada português passa diariamente cerca de 90 minutos nas redes sociais. Acordamos com a luz do telemóvel e adormecemos a ler o último post na rede social. Mas será que as redes sociais nos aproximaram? Será que estamos agora mais conscientes das necessidades das pessoas que nos rodeiam?

À superficialidade das relações “digitais”, junta-se também a questão da saúde mental. Repensarmos um novo estilo de vida exige uma compreensão mais profunda da importância da manutenção e promoção da saúde mental, numa altura em que as normas de distanciamento social e de restrições no comportamento social trouxeram novos desafios, acentuando em muitos casos o isolamento social e a desconfiança do “outro”.

Na Laudato Sí, o Papa Francisco aponta para uma falta de identidade coletiva, que é vivida com angústia e que, apesar de todos estes avanços tecnológicos, “a humanidade pós-moderna não encontrou uma nova compreensão de si mesma que a possa orientar”.

Uma vida com propósito

Pensarmos numa mudança de estilo de vida, mais centrado no “outro” e que compreenda uma visão holística sobre os efeitos da nossa forma de viver no meio ambiente é a oportunidade de vivermos uma vida com mais propósito.

Nesta linha, o Cardeal Tolentino Mendonça fala-nos da “sede do essencial” para nos relembrar da importância de um propósito no nosso dia-a-dia. A sede de “relações, de aceitação, de amor”, que está presente em todas as pessoas e que nenhuma “pílula pode mecanicamente resolver”.

Somos cada vez mais responsáveis pelos nossos atos enquanto consumidores, cidadãos, profissionais e temos o dever de contribuirmos para um estilo de vida mais sustentável, inclusivo e que “não deixe ninguém para trás”. Este é um pensamento que começa com cada um de nós, já hoje!