O Microsoft in Education Global Forum, que reúne anualmente os professores e directores de escolas mais inovadores do mundo, decorreu recentemente em Barcelona. Entre 22 mil candidaturas, há dois professores portugueses premiados. Ao VER, referem a importância de “prestigiar o trabalho dos agentes educativos”, considerando este evento um “excelente catalisador de ideias e projectos que muitas vezes, por falta de promoção, ficam apenas na escola”
POR MÁRIA POMBO

O Fórum Global de Educação da Microsoft é o maior evento de educação promovido pela líder em tecnologia e pretende reconhecer os professores mais inovadores do mundo, iniciar as actividades seleccionadas do Programa Anual das Escolas Inovadoras e promover a partilha internacional de boas práticas de integração das tecnologias, no século XXI.

A iniciativa integra a categoria Professores Inovadores, no âmbito da qual foram premiados os docentes portugueses João Cunha e José Carlos Marques, entre mais de 22 mil candidaturas de 158 países; e a categoria Escolas Inovadoras, que reuniu cerca de 250 candidaturas de 75 países.

A edição deste ano, realizada em Barcelona entre os dias 11 e 14 de Março, contou com a participação de 260 professores e 80 directores de escolas, provenientes de 97 países. Ao todo, estiveram presentes no evento 1100 participantes, entre representantes de governos, parceiros, meios de comunicação social e docentes.

© DR – Professores João Cunha e José Carlos Marques

Portugal esteve ainda representado por duas escolas (Agrupamento de Escolas de Freixo, de Ponte de Lima, e Colégio Monte Flor, de Carnaxide) reconhecidas como Escolas Mentoras Microsoft, e cujos directores tiveram oportunidade de partilhar experiências e boas práticas de inovação e liderança com  80 escolas inovadoras de todo o mundo. Teresa Evaristo, sub-directora geral da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) e Fernando Campos, membro da equipa de Recursos e Tecnologias Educativas da Direção-Geral de Educação, do Ministério da Educação e Ciência, representaram Portugal no painel de jurados, que contou com a presença de especialistas e profissionais de educação de vários países.

João Cunha é professor no Agrupamento de Escolas Abel Salazar, em Guimarães, e reconhece as grandes e rápidas mudanças do mundo que nos rodeia, considerando que a escola deve ser mais “aberta e envolvida com a sociedade”. Ultrapassando a ideia de que é um mero espaço onde se transmitem saberes, este professor entende que a escola “tem de ser um local onde as ideias surgem, onde os projectos se iniciam e se concretizam” e o local onde os alunos “podem exprimir e concretizar as suas ideias”.

Para este docente, e tendo em conta o “momento de desânimo” que a educação atravessa, “as acções desenvolvidas pela Microsoft são um elixir que vem estimular e fomentar novas ideias, novos projectos”.

Já para José Carlos Marques, professor naEscolaEB2,3 Pedro de Santarém do Agrupamento de Escolas de Benfica, o reconhecimento do trabalho de qualquer docente é importante porque permite “ressuscitar o papel essencial da escola e dos seus intervenientes”. Iniciativas como esta visam, pois, “prestigiar o trabalho destes agentes educativos, promovendo os casos de sucesso e permitindo aos professores que iniciem debates e desafios entre eles, numa perspetiva evolutiva das estratégias de ensino”, explica.

“Estas iniciativas prestigiam o trabalho dos agentes educativos, permitindo debates, numa perspectiva evolutiva das estratégias de ensino”

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Durante o Fórum, os participantes puderam assistir às intervenções dos especialistas em educação, com espaço para debate sobre o papel das escolas, dos professores e dos decisores políticos. Do painel de conferencistas fizeram parte Anthony Salcito, vice-presidente da Microsoft WorldWide Education; Jan Muehlfeit, director da Microsoft Corporation para a Europa; Xavier Monné, director-geral adjunto para a Educação da Comissão Europeia; Felipe de Borbón y Grecia, Príncipe das Astúrias; e Montserrat Kindelan, secretária de Estado para a Educação, Formação e Universidades de Espanha. Houve ainda espaço para uma mostra de tecnologia em educação.

Nas categorias a concurso, foram três as modalidades pelas quais os professores e as escolas puderam participar. A modalidade Learn-a-thon constituiu uma espécie de maratona de aprendizagem em que os professores foram desafiados para, em conjunto e em menos de 24 horas, criarem e apresentarem um projecto de aprendizagem relacionado com os objectivos do Milénio da ONU, nomeadamente sobre pobreza, sustentabilidade ou igualdade de género.

Foi nesta modalidade que João Cunha ganhou a “medalha de prata”, com um projecto que contou com o envolvimento de vários docentes de diversos países, e que dará aos alunos do mundo inteiro a possibilidade de conhecerem a realidade de outros países e darem a conhecer a sua, na procura de soluções que visam erradicar a pobreza extrema e a fome.

Outra modalidade consistiu na apresentação de projectos inovadores, criados antes do evento, com o objectivo de mostrar como as novas tecnologias ajudam a promover as competências exigidas no século XXI. A concurso estiveram 260 projectos, avaliados por um painel de jurados em diversas categorias, de onde resultaram 18 prémios. O projecto “Kodu na sala de aula”, do professor José Carlos Marques, premiado nesta modalidade, foi apresentado no Fórum com seis alunos com necessidades educativas especiais, que programaram e criaram jogos de computador.

A terceira e última modalidade foi direccionada a escolas inovadoras e desafiou-as a apresentarem projectos de empreendedorismo com a colaboração de professores e alunos. As escolas vencedoras ganharam um prémio monetário, que visa transformar a aprendizagem e aumentar o sucesso escolar dos seus alunos.

Ao VER, os dois professores premiados no Microsoft in Education Global Forum comentaram a sua participação no evento, destacando a pertinência destas iniciativas para uma educação mais inovadora.

João Cunha
 “O que à partida parecia ser uma ligação difícil tornou-se uma oportunidade única”
© DR

Apresentou o seu projecto “Hands on Robots”, que desafia os alunos a desenvolver projectos na área da Robótica Educativa e foi já premiado em diversos concursos internacionais. No entanto, foi na modalidade “Learn-a-thon” que, em conjunto com outros professores, desenvolveu um projecto que lhe garantiu o 2º lugar. Como foi esta experiência?
Através de um trabalho colaborativo com professores de outras partes do mundo, foi delineada uma actividade que, numa fase inicial, consiste em explorar o mundo e aprender mais sobre outros países e como ajudar os alunos naquele país. Neste âmbito serão constituídas equipas de trabalho e criadas parcerias e protocolos de cooperação com associações de solidariedade social e instituições públicas e privadas relacionadas com tecnologia.

Estamos ainda numa fase embrionária no que diz respeito à constituição das equipas de trabalho, mas julgo que nas próximas semanas teremos oportunidade de desenvolver as primeiras iniciativas. Os alunos terão oportunidade de aprender sobre o Brasil, Portugal, Suíça, África do Sul e Estados Unidos. Nesta fase, os alunos executam diversas tarefas tendo em vista a análise e a partilha das realidades de cada país. Tendo em conta os diferentes idiomas e tecnologias de cada país, o projecto está idealizado para estar ao alcance de todos.

Numa fase posterior, a actividade ligará os estudantes de todo o mundo e explorará as diferentes situações sociais e económicas. Apontar soluções para erradicar a pobreza extrema e a fome e definir uma lista de competências e habilidades para se conseguir emprego pleno, produtivo e digno para todos, incluindo mulheres e jovens, são os dois grandes objectivos que pretendemos atingir.

Grupos de trabalho e partilha vão propor soluções para estes problemas. Cada país, depois de resumir as soluções, criará uma lista de competências fundamentais para solucionar estes problemas, que ficarão disponíveis para todo o mundo.

Sendo professor na área da Física e Química e Tecnologias Educativas, como alia estas áreas a um projecto social para a erradicação da pobreza? Como faz a abordagem do tema?
O que à partida parecia ser uma ligação difícil tornou-se uma oportunidade única. Quando falamos em acções sociais de erradicação da pobreza, a primeira coisa que pensamos são as questões relacionadas com a má nutrição e as carências económicas. São áreas que requerem muita atenção e são sempre muito sensíveis.

O meu plano de acção é um pouco diferente. As crianças e os jovens desfavorecidos têm, normalmente, pais com níveis de conhecimento e níveis de escolaridade muito reduzidos e não têm acesso à tecnologia ou, quando têm, é por muito pouco tempo. Existe por isso, nestes casos, uma dificuldade acrescida na passagem de conhecimento entre pais e filhos, e pouca oportunidade para estes últimos de adquirirem e desenvolverem as competências necessárias para responder aos desafios do século XXI.

Quando falamos em competências, falamos no domínio de competências técnicas e científicas, mas também no domínio das atitudes e valores, sentido de equipa, responsabilidade, auto-confiança, capacidade empreendedora, criatividade, inovação, partilha e comunicação.

Para desenvolver estas competências pretendo recorrer a instituições, escolas e academias que visem colaborar em áreas tecnológicas e, deste modo, proporcionar a alunos e jovens carenciados oportunidades de formação complementares e, assim, capacitá-los para que possam assegurar postos de trabalho com um melhor nível de preparação e qualificações mais avançadas. Ao ocupar postos de trabalho mais qualificados, vão transmitir aos seus descendentes competências e valores diferentes, permitindo que as gerações futuras fiquem mais bem preparadas para o mundo cada vez mais exigente e competitivo.

 

José Carlos Marques
“O curioso foi perceber que a vontade de produzir jogos se sobrepôs à vontade de os jogar”
© DR

Como surgiu, como funciona e que resultados já teve o projecto “Kodu na Sala de Aula” nas duas escolas onde foi implementado? Como é financiado?
No ano lectivo 2011-2012, implementei no Agrupamento de Escolas Pedro Jacques de Magalhães o “Clube Alunos Inovadores”. Uma das tarefas a desenvolver com os alunos que estavam neste clube era a programação de jogos através do Kodu. Dada a facilidade da linguagem desta programação, que assenta exclusivamente em imagens e numa lógica simples, os alunos produziram jogos. O curioso foi perceber que essa vontade de produzir jogos, inclusive fora das horas do projecto, se sobrepôs à vontade de os jogar.

No ano lectivo seguinte, 2012-2013, desafiei três professoras desta escola a implementar um novo projecto de educação especial, que aceitaram o desafio. E foi assim que nasceu o projecto “Kodu na sala de aula – uma experiência com alunos das necessidades educativas especiais”. Para além da baixa motivação, auto-estima e predisposição em aprender coisas novas e diferentes, estes alunos apresentam grandes dificuldades a nível cognitivo. O início deste projecto assentou, portanto, em actividades de trabalho simplificadas e, sessão após sessão, os alunos foram colocados em momentos de partilha e relembraram as acções de programação apreendidas nas sessões anteriores.

Foi um projecto multidisciplinar que, para além de envolver as TIC, integrou a disciplina de Português, na qual os alunos produziram uma história à sua escolha que viria a ser recriada, mais tarde, num jogo, integrando uma componente da Matemática através da aplicação de conceitos como áreas, volumes, entre outros. Este projecto ultrapassou amplamente os objectivos inicialmente delineados. Não teve qualquer tipo de financiamento e a sua implementação aconteceu ao longo do terceiro período, com a duração de 100 minutos (dois tempos lectivos) onde quase todos os alunos e professores envolvidos estavam voluntariamente na escola.

No Fórum Global, o projecto foi desenvolvido com seis alunos com necessidades educativas especiais que apresentavam problemas cognitivos acentuados. Inicialmente, os desafios foram enormes. Os alunos apresentavam muito receio em iniciar as actividades de programação e criação dos jogos, afirmando serem incapazes de as desenvolver. Muitos desafios se colocaram, mas logo após as primeiras sessões de trabalho foi notória a mudança de atitude dos alunos, essencial para que conseguíssemos torná-los activos e motivados, ao longo do processo. Esta evolução foi significativa, porque permitiu que estes alunos passassem a tomar as iniciativas.

De que forma projectos que promovem a inovação, como o “Sou Um Aluno Inovador”, capacitam e motivam os alunos para enfrentarem os desafios do futuro de uma forma mais optimista?
Os meus 11 anos de percurso escolar, enquanto professor, sempre me levaram a tentar ir mais além do que o mero trabalho de sala de aula. Ao longo dos tempos, fui implementando pequenos projectos que me deram novas ideias e amadureceram as minhas práticas de trabalho. O meu primeiro reconhecimento foi com um projecto realizado com alunos do primeiro ciclo, no ano de 2007, denominado “A minha turma está na net”, e que foi apresentado em Paris na Conferência Professores Inovadores, com professores da Europa, Médio Oriente e África.

Passados dois anos, surge o projecto “Sou Um Aluno Inovador” onde fui seleccionado para representar Portugal no Fórum Professores Inovadores em Viena, no mesmo contexto. Em ambos os projectos as ideias foram amadurecendo e, neste último, foi primordial compreender que o trabalho em equipa é um dos factores-chave para o sucesso. Assim, estiveram envolvidas largas dezenas de alunos e vários professores de diferentes áreas curriculares. Para além disso, a participação dos encarregados de educação foi essencial para que este projecto acabasse por envolver os principais agentes educativos do Agrupamento de Escolas Vasco Santana.

Foram grandes os desafios e constrangimentos que tivemos de ultrapassar, mas no final, o projecto foi um sucesso, com os nossos alunos a colaborarem na conferência dos Professores Inovadores que decorreu em Lisboa, e a participarem numa reportagem televisiva sobre a interacção entre a aprendizagem da matemática e a da tecnologia. A escola possibilitou-lhe novas experiências de trabalho, incentivou-os e motivou-os, e permitiu-lhes construir e aprender a construir materiais pedagógicos que potenciaram a sua aprendizagem.

Mária Pombo

Jornalista