Uma das certezas que temos na vida é a da impermanência. O mundo é dinâmico e a vida também. Nada é estático, nem o que é bom nem o que é difícil. “Isso passa”, como se costuma dizer, e passa mesmo
POR RITA SACRAMENTO MONTEIRO

Perante eventos de dor e sofrimento, podemos fazer de tudo para que eles passem por nós o mais rapidamente possível ou podemos olhar de frente a realidade e transpor os limites do que nos acontece, não deixando que o que somos fique confinado.

Desde o início desta pandemia, dissemos (e desejámos) várias vezes: “Isto há-de passar”, “esperemos que passe depressa”. Passou um ano e ainda estamos a adaptar-nos. O nosso mundo está necessariamente diferente, como nós também estamos necessariamente diferentes.

A pandemia forçou-nos a parar. Este comboio de alta velocidade em que vai a vida contemporânea, de onde por vezes parece que só conseguimos sair, saltando, travou com toda a força. Todos tivemos a experiência de olhar para ruas vazias, carros estacionados, lojas fechadas. E agora? Como vai voltar a andar este comboio? À mesma velocidade? E nós? Vamos entrar nele da mesma maneira?

Corremos o risco de reabrir, de desconfinar, para correr atrás de um mundo que já não existe. Corremos o risco de correr atrás de um mundo que dava sinal de avaria, como muitos de nós, e sobre o qual vínhamos falando da necessidade de cuidar. Corremos o risco de querer que a nossa vida volte ao que era, como se, depois dos grandes abanões da vida, voltar ao que éramos fosse o melhor para nós!

E se em vez de corrermos, aproveitássemos o abrandamento para repensar, recriar, reorientar a nossa vida? Acredito que a pandemia, no meio da dor e dos estragos que causou, nos trouxe lucidez, novos níveis de consciência, tão importantes para os desafios que temos pela frente:

  • O isolamento forçado que trouxe este vírus mostrou-nos de forma absolutamente límpida que precisamos uns dos outros, e que precisamos uns dos outros de uma forma próxima, afetiva, que o digital não sacia nem nunca saciará. As nossas relações passarão a ser sem máscaras?
  • A paragem foi grande porque a velocidade era enorme! Um mundo ruidoso que produzia, consumia e esgotava. Neste contraste, precisamos de encontrar um ritmo que seja equilibrado, que nos permita viver bem e felizes, e não divididos e doentes. Como podemos viver com um ritmo que nos sustente, sustente os outros e a Terra?
  • A casa e a família são lugares centrais. Com a tempestade, percebemos a importância de ter a casa e a família assentes na rocha. Passámos de uma experiência de vida feita de muitas atividades e lugares para, num mesmo lugar, descobrirmos tantos caminhos dentro de nós e tantas possibilidades diferentes de estarmos com os outros. O que ficará destas vivências?
  • A flexibilidade tem limites. A criatividade e a capacidade de adaptação permitiram-nos descobrir novas formas de fazer as coisas. Mas nem tudo é bom. Ao diluirmos ainda mais as fronteiras entre o trabalho e o cuidado, como a teletrabalharnestas circunstâncias, corremos o risco de não pensar se as novas formas de fazer são as melhores. Que limites são naturais e necessários para cuidarmos de nós e dos outros?
  • Somos frágeis. Todos. Todos ficamos doentes e todos vamos morrer. Tal como a vida merece tanto cuidado na chegada, merece igual cuidado na partida. Despertámos para o verbo cuidar e para a importância dos cuidadores. Precisamos de quem cuide de nós e dos nossos, e não queremos uma sociedade que cuida de uns e não cuida de outros, que cuida numas fases e não cuida noutras. Como é que concretizamos a dignidade do cuidar?
  • O valor da liberdade. Sair à rua tornou-se um bem essencial! Arrisco dizer que todos achámos mais bonitos os caminhos de sempre, e ouvimos melhor os sons do costume. Quem faz experiência de viver limitado na sua possibilidade de uma vida normal e livre, viverá mais agradecido?

Um ano depois da nossa vida se ter transformado, se voltarmos à varanda de onde já cantámos para nos animarmos uns aos outros, o que vemos?…

NOTA: Artigo originalmente publicado no SeteMargens.

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