Durante três dias, a Câmara Municipal de Lisboa trouxe a Portugal empreendedores sociais de diferentes países que vieram apresentar inovações sociais com provas dadas internacionalmente. Os próximos passos passam pela implementação destas inovações na capital portuguesa, ao longo dos próximos dois anos
POR SANDRA COSTA

No âmbito do Dia da Inovação Social, a 14 de Setembro foram apresentadas, no Teatro Thalia, em Lisboa, e para uma plateia de mais de 100 pessoas, seis inovações sociais com provas dadas internacionalmente. Os empreendedores responsáveis por estes projectos tiveram a oportunidade de reunir com organizações portuguesas públicas e privadas, e da economia social, que se disponibilizaram a apoiar a sua implementação em Portugal.

As inovações sociais apresentadas em Lisboa têm como objectivo a inclusão social de crianças em risco e o combate ao desemprego jovem e ao desemprego de longa duração. Estas são três problemáticas relevantes para a capital e nas quais a CML está empenhada, desenvolvendo esforços para a sua minimização directamente ou apoiando iniciativas da sociedade civil, no âmbito do plano de acção para os Direitos Sociais e, especificamente, do programa municipal para a economia social e promoção da empregabilidade em Lisboa.

O interesse nestas temáticas levou a CML a envolver-se, há um ano atrás, na iniciativa Accelerating Change for Social Inclusion (ACSI), promovida pela UpSocial, em colaboração com o Eurocities e financiada pela Fundação Stavros Niarchos e pela Fundação “la Caixa”. Lisboa é um dos municípios parceiros desta iniciativa, a par de Atenas, Barcelona, Estocolmo e Roterdão.

O ponto de partida da iniciativa ACSI é que existe um conjunto de problemas sociais comuns a estas cinco cidades nas três temáticas propostas, e que estes problemas podem ser combatidos de forma mais eficaz com projectos que se distinguem pela inovação social, constituem boas práticas e podem ser replicados nos cinco municípios parceiros. A UpSocial fez um levantamento de mais de uma centena de projectos sociais de todo o mundo, que foram depois enviados aos responsáveis dos cinco municípios.

[quote_center]As inovações sociais apresentadas em Lisboa visam a inclusão social de crianças em risco e o combate ao desemprego jovem e de longa duração[/quote_center]

Em Lisboa, a Stone Soup Consulting é o parceiro de implementação da CML e tem apoiado todo o processo. Das inovações pré-seleccionadas pela UpSocial, uma selecção de 30 foram apresentadas a um júri de especialistas portugueses, em Maio passado. Foi assim que chegámos aos nove projectos vencedores da cidade de Lisboa, dos quais seis foram apresentados localmente: dois na inclusão social de crianças em risco, um no desemprego jovem e três no desemprego de longa duração.

No desafio da inclusão social de crianças em risco as inovações vencedoras foram a canadiana Roots of Empathy e a israelita Perach Tutorial. A primeira aposta na prevenção da violência através da criação de laços empáticos nas crianças. A metodologia é simples: uma mãe e um bebé deslocam-se a uma escola do primeiro ciclo, ao longo de 27 semanas. Em conjunto com o instrutor do programa, trabalham um curriculum especializado em contexto de sala de aula, com as crianças e o professor. Os resultados revelam um aumento de empatia geral com a sociedade, o que reduz a violência.

Perach Tutorial é um projecto de mentoria muito premiado que funciona em Israel há 43 anos e foi replicado em 25 países. Promove simultaneamente o sucesso escolar de crianças de comunidades desfavorecidas e a intervenção cívica dos estudantes universitários que nele participam. Assenta numa metodologia de mentoria entre pares, em que os jovens universitários recebem formação para ajudarem as crianças a desenvolverem as suas capacidades cognitivas e não cognitivas. O programa envolve as várias partes interessadas: pais, escola, universidade, município e governo. O aspecto inovador é a integração do Perach Tutorial no próprio programa universitário, em que os jovens universitários recebem incentivos pelo trabalho voluntário que realizam, desde um diploma até uma bolsa monetária que reduz o valor das propinas.

Na área das oportunidades para o emprego dos jovens foi apresentado o projecto canadiano Digital Opportunity Trust (DOT). Trata-se de um processo de capacitação de jovens adultos de comunidades desfavorecidas, usando tecnologia, que favorece a criação de negócios. Os jovens podem entrar em contacto com outros jovens inseridos na rede internacional DOT e trocar ideias ou desenvolver projectos em conjunto. Os resultados alcançados são animadores: só este ano, o programa DOT gerou mais de 5800 novos negócios, mais de metade desenvolvidos por mulheres. 70% são inovações que resolvem um problema da comunidade ou escalam o impacto de uma iniciativa existente.

[quote_center]O objectivo é encontrar sinergias com as iniciativas existentes para que se possam constituir soluções que resultem num verdadeiro impacto social nestas áreas[/quote_center]

Já o projecto catalão Reempresa consiste numa plataforma online que propõe transformar em vez de criar de novo, e dá resposta a duas necessidades: coloca em contacto empreendedores que querem criar novas empresas com gestores de empresas familiares que estejam em risco de encerrar portas, por risco de falência ou porque não existem sucessores para o negócio. A continuidade dos negócios existentes aumenta a probabilidade de sucesso face a negócios criados de raiz. Nos últimos seis anos foram feitas 1400 transferências de negócio com sucesso, sobretudos nas áreas do comércio, indústria hotelaria e serviços, que permitiram salvar mais de 4 mil empregos.

Ainda na área das soluções para combater o desemprego de longa duração, o projecto Specialisterne é uma proposta de origem dinamarquesa para combater o desemprego de pessoas que sofrem de TEA – Transtorno do Espectro do Autismo. A proposta é ousada: transformar o autismo numa vantagem em termos de emprego. Aproveitando as características especiais das pessoas que sofrem de autismo de alto funcionamento e síndrome de Asperger, como a capacidade de concentração e a memória, esta iniciativa social proporciona-lhes formação e garante-lhes emprego em grandes empresas da área da informática, como a SAP, Microsoft, HP ou Everis. Em 13 anos o programa, que foi reconhecido pelas Nações Unidas, integrou profissionalmente mais de mil pessoas em 17 países.

Discovering Hands foi a última inovação social apresentada em Lisboa. Trata-se de uma empresa social alemã que se propõe formar mulheres invisuais para ajudarem no combate ao cancro da mama, usando a sua particular habilidade para detectar caroços de pequenas dimensões que poderiam não ser detectados pelos médicos. Discovering Hands dá resposta a duas necessidades: o emprego de mulheres invisuais e o combate ao cancro da mama, ajudando à detecção precoce. Através de franchising social, a proposta já está implementada em quatro países e estão previstos projectos-piloto noutros cinco, incluindo Portugal, já em 2018.

Ao longo das próximas edições, o VER, media partner do Dia da Inovação Social, vai apresentar com mais detalhe cada uma destas inovações sociais.

Depois da apresentação pública em Lisboa, os próximos passos passam pela implementação destas inovações sociais na capital, ao longo dos próximos dois anos. A CML é impulsionadora do projecto, sendo fundamental a participação de outras organizações da economia social e do sector público e privado, que podem facilitar a implementação com o seu conhecimento do terreno, contactos e apoios a vários níveis. As reuniões entre os empreendedores e estes potenciais parceiros já tiveram início e vão continuar nos próximos meses, com o apoio da Stone Soup, que tem estado a trabalhar na adaptação dos modelos.

Sabemos que em Portugal existem vários projectos de mérito na inclusão social de crianças em risco e na inclusão laboral de jovens e de desempregados de longa duração. Os projectos que, através da iniciativa ACSI, chegaram ao nosso país não pretendem substituí-los. Muito pelo contrário, o objectivo é encontrar sinergias com as iniciativas existentes para que, conjuntamente, se possam constituir soluções que resultem num verdadeiro impacto social nestas áreas. A par, esta troca de experiências permite, a todos, uma aprendizagem enriquecedora sobre inovação social e escalabilidade.