Acredito que o capitalismo é o melhor sistema económico. Mas também não tenho dúvidas que precisamos de mudar aquilo que tem feito mover o capitalismo. A ganância de ter mais e mais dinheiro faz mal às pessoas. Distorce a sua perceção sobre os valores morais que defendem, e torna-as sociopatas e desligadas do mundo
POR SOFIA SANTOS

Na mesma semana da Web Summit ocorreu também em Lisboa a iniciativa da House of Beautiful Business durante cinco dias. Pela segunda vez consecutiva, a organização conseguiu reunir 600 pessoas em Lisboa, 100 das quais oradores de mundos muito diferentes como a filosofia, inteligência artificial, computação quântica, música, gestão, psicologia, entre muitos outros. Foram vários os temas tratados, tendo existido um enfoque muito grande na tecnologia e na Inteligência Artificial, e também nos temas do propósito empresarial e da necessidade de se redefinir um novo capitalismo.

Aqui argumentou-se que estamos muito longe de ter as máquinas a mandar nos homens, assumiu-se que a tirania da informação está a invadir o espaço individual de cada um, mas também ouvi uma investigadora afirmar que é muito difícil que os algoritmos adivinhem qual é o filme que nos dá mais prazer ver após termos visto um vídeo no YouTube. Foi unânime a ideia de que ainda estamos muito longe de ter robots com emoções e intuição, tendo sido muito defendida a necessidade de existirem forte preocupações éticas com o uso da tecnologia e o seu fim. O ser humano saiu fortalecido nesta conferência, uma vez que era inequívoco que, num mundo cada vez mais tecnológico, é necessário pensar-se mais nas pessoas e valorizá-las cada vez mais.

Defendeu-se também que o mundo corporativo deveria ter menos poder do que o que tem, e que o Setor Público deveria atuar com regulação mais severa nas áreas da proteção ambiental e social; defendeu-se a veracidade do propósito empresarial – que começa agora a substituir a palavra “sustentabilidade” – tendo-se questionado até que ponto este “propósito” agora anunciado não é apenas um soundbite semelhante ao greenwashing. Uma empresa com propósito pode ter desigualdades salariais brutais? Uma empresa com propósito pode ignorar os colaboradores desmotivados, com ansiedade, com ataques de pânico? Uma empresa que tem vários colaboradores neste estado pode dizer que “as pessoas são o ADN” da empresa?

Toda esta reflexão à volta das pessoas, pôs-me a pensar…

Ando de metro quase todos os dias. É a minha forma de manter sempre o contacto com a realidade. Por vezes penso que, quem não anda de metro ou de transportes públicos, não sabe em que país vive, como o país se sente ou como se veste. É fundamental conhecer-se as pessoas do nosso país, para depois não ficarmos surpresos com os “Trump” e os “Brexit” da vida. Costumo dizer que “não conheço nenhum Inglês que tenha votado no Brexit e nenhum Americano que tenha votado no Trump”. Os meus amigos ingleses e americanos dizem o mesmo. Talvez eles não andem de metro …

Não andar de metro e andar sempre de carro e com motorista deve ser confortável. Mas isso tem um preço. Afasta-nos da realidade. E eu gosto de saber a realidade em que vivo, e por isso, apesar de não ter motorista, poderia andar mais de carro, mas prefiro um banho de realidade a uma dose de isolamento e ignorância. Prefiro uma boa realidade à ilusão de um mundo que não existe.

Os administradores e CEOs correm um enorme risco de ficarem isolados, de viverem num mundo que não existe, com expectativas e exigências infundadas e ridículas para os seus colaboradores os quais, muitos deles, andam de metro.

Entrar no metro em Lisboa pelas 8h da manhã é interessante mas deprimente. As carruagens estão agora cheíssimas, as pessoas movem-se depressa e até poderíamos pensar que vivemos numa cidade cosmopolita a vibrar de atividade. Mas olhemos para os olhos das pessoas que vão ali tão próximas de nós. Olhemos para as expressões corporais. As pessoas estão exaustas e ainda a manhã mal começou. As olheiras são imensas, e a prostração é visível na forma como olham o infinito de mais um dia obrigatório para a sobrevivência do seu ser e da sua família.

Acredito que o capitalismo é o melhor sistema económico. Mas também não tenho dúvidas que precisamos de mudar aquilo que tem feito mover o capitalismo. A ganância de ter mais e mais dinheiro faz mal às pessoas. Distorce a sua perceção sobre os valores morais que defendem, e torna-as sociopatas e desligadas do mundo. Retira-nos a empatia e ficamos obcecados por atingir um fim que, em si mesmo e ignorando as implicações que pode ter nos outros, não é um fim maior. Quando ficamos sem empatia e desligados do mundo e da realidade, ficamos como que autómatos ou robots, sem autocrítica ética e humanista sobre as nossas decisões. E é isto que queremos ser? Humanos sem empatia e sem ligação ao mundo real? Queremos nós ser “ricos” ignorando o que custa a nossa riqueza para os outros? Não digo que obter esta “riqueza” não seja também exigente e cheia de sacrifício para o ator principal, mas acima de tudo é uma opção dele. Para muitas pessoas que andam de metro, não há opção. São reféns das ambições dos outros, pois as suas pouca voz têm.

Considero-me liberal, mas uma liberal com consciência e que gosta de ver a felicidade dos outros. Por isso sou tentada a defender que a ambição, e por vezes exigência legal, de maximizar o lucro de curto prazo para o acionista tem de acabar. Esta ambição faz mal às empresas, aos colaboradores e à sociedade. No curto prazo só faz bem aos acionistas. E eles, por muito importante que sejam, apenas conseguem obter retornos se todo o sistema funcionar bem. Por isso, quando se tem uma população desiludida, exausta e anémica, e culturas empresariais fingidas, estamos a um passo do sistema começar a funcionar mal. Acho que Portugal está ai.

Por isso faz sentido pensar-se em tornar as nossas empresas mais bonitas. Tornar os negócios humanos, belos, plenos e idílicos. O tal propósito deveria ser isso mesmo. E pode ser, se verdadeiramente o quisermos. Se não, alguns de nós ficarão desligados, serão ignorantes da realidade e acabarão por se transformar em sociopatas. Muito melhor seria conseguirmos ter empresas mais coloridas e alegres, menos rígidas e hierárquicas e mais humanistas e recompensadoras. O mundo seria bem melhor.

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