Viver sem as novas tecnologias é já uma memória para muitos de nós. De forma directa ou indirecta, a quase totalidade dos cidadãos que vivem nos países da OCDE utiliza aparelhos tecnológicos no seu dia-a-dia. Num estudo recente sobre esta temática, a organização revela como a revolução digital afecta a ciência, a economia, o trabalho e a própria vida em sociedade. E se a tecnologia traz consigo diversas desvantagens, também tem um potencial enorme para resolver alguns dos principais problemas sociais
POR
MÁRIA POMBO

O mundo está a evoluir e a tornar-se mais digital. Menos papel, menos tempo, mais Inteligência Artificial (IA) e uma maior rapidez. A transformação digital está a afectar a ciência, a economia e a forma como os cidadãos trabalham, comunicam e vivem, sendo já muito poucas as pessoas que, directa ou indirectamente, não apanham esta onda.

De acordo com um relatório recentemente publicado, pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e denominado “Painel de Avaliação da OCDE para a Ciência, Tecnologia e Indústria 2017”, as tecnologias de Inteligência Artificial aumentaram, em média, 6% ao ano entre 2010 e 2015. E, só em 2015, foram registadas 18 mil invenções, envolvendo IA, em todo o mundo. O Japão, a Coreia do Sul e os Estados Unidos foram os principais impulsionadores da IA, tendo registado 62% das invenções nesse ano, essencialmente na área da robótica.

A nível europeu, a República Checa, a Eslovénia, a Hungria e a Eslováquia foram as nações que mais se destacaram no que respeita à criação de robots, nesse ano. Complementarmente, a China e a Índia assumem-se também como referências nesta matéria, pelo seu elevado contributo na área científica e na comunicação máquina-a-máquina (M2M), nos últimos anos, e principalmente em 2017.

Independentemente do local onde foram criadas, sabemos que muitas destas invenções se têm vindo a proliferar e a chegar aos diversos cantos do mundo. Na realidade, e para além de estimularem o crescimento a vários níveis, as mesmas estão a ter efeitos disruptivos com consequências positivas em variados domínios, tais como a produtividade, o emprego, a mobilidade e o bem-estar da população.

Todavia, e como sabemos, existe o medo (justificado) de que a perda significativa de postos de trabalho, particularmente nos casos em que as máquinas podem desempenhar as funções dos humanos, seja um dos principais danos da evolução digital e da utilização de robots, a qual está ainda a dar os primeiros passos. De acordo com o estudo da OCDE, “os robots aumentam a produtividade, mas o seu impacto no emprego e nos salários é ambíguo”.

[quote_center]Em 2015, foram registadas 18 mil invenções, envolvendo Inteligência Artificial, em todo o mundo[/quote_center]

O sector industrial é um daqueles onde a substituição de trabalhadores humanos por robots é mais elevada, essencialmente no Japão, na Coreia, nos Estados Unidos e na Alemanha, dado que as máquinas têm uma capacidade produtiva que supera largamente a das pessoas.

Contudo, a revolução digital não está a afectar de modo igual todos os sectores de actividade. Alguns países, como o Reino Unido, a Holanda e a Irlanda, onde o sector dos serviços é bastante forte, têm vindo a apostar no desenvolvimento tecnológico como modo de tornar muitas tarefas mais fáceis e rápidas para os trabalhadores, mas apresentam baixos níveis de produção de robots, mostrando que é possível utilizar a evolução tecnológica para ajudar a vida humana sem a substituir.

Já a produção de alimentos e os transportes, que são sectores bastante heterogéneos, revelam ter interesse em entrar na era digital, mas a vários ritmos e essencialmente com o intuito de aumentar o número de vendas de produtos e serviços online. Adicionalmente, o sector da agricultura, o do imobiliário e o da extracção mineira são aqueles onde a presença da tecnologia é praticamente inexistente.


Trabalho: novas competências e diferentes rotinas

Para além das alterações visíveis em diversos sectores, a revolução digital traz consigo um conjunto de mudanças no trabalho, em termos de competências e conhecimentos, que outrora eram desnecessários e que actualmente são obrigatórios em praticamente todas as empresas dos países da OCDE. De acordo com o estudo, a automação vai continuar a fazer desaparecer diversas profissões, levando a alterações profundas em muitos postos de trabalho e originando o surgimento de novas funções.

Entre 2010 e 2015, e por conta da tecnologia, o emprego cresceu 4,9% nos países da OCDE, traduzindo-se em mais 27 milhões de postos de trabalho. O sector dos serviços contabilizou a larga maioria dos novos empregos (mais de 24 milhões), sendo que a indústria foi responsável pelo surgimento de cerca de dois milhões de postos de trabalho. O sector da informação (que é composto pelas TIC e pela produção de conteúdos digitais) é considerado como uma grande fonte de crescimento dos países da OCDE, embora seja responsável por apenas 5,5% dos empregos desta zona. Desde 1997, as profissões na área da informação aumentaram 18% (mais 5% que o sector dos negócios), mas a sua volatilidade levou à perda de muitos postos de trabalho na época da crise, estando agora a começar a recuperar.

[quote_center]Os robots aumentam a produtividade, mas o seu impacto no emprego e nos salários é ambíguo[/quote_center]

Na União Europeia (UE), entre 2010 e 2016 surgiram 6,4 milhões de novos empregos, principalmente no sector “profissional, científico, técnico e outros serviços empresariais”. Contudo, existiram diferenças, em termos de crescimento, nos diversos países da UE: se a Alemanha e o Reino Unido foram responsáveis por 2,5 milhões de novos empregos, a Grécia, Espanha e Portugal lutam ainda por voltar aos níveis que antecederam a crise, tendo perdido cerca de 1,5 milhões de postos de trabalho.

As competências sociais e não cognitivas, que eram, no passado, tendencialmente pouco relevantes em muitos locais de trabalho, passam agora a ser tão valorizadas como as capacidades técnicas. Estas aptidões, que não se aprendem nas salas de aula, têm sido medidas pela OCDE a partir do seu Programa para a Avaliação Internacional das Competências dos Adultos (PIAAC, na sigla em inglês) e estão essencialmente relacionadas com a autonomia, capacidade de resolução de problemas, disponibilidade para aprender e também com a boa capacidade de comunicação entre colegas, sendo fundamentais num mundo altamente competitivo e ‘sem tempo’.

Para além das mudanças em termos de competências, assistimos a alterações nas rotinas das empresas e dos trabalhadores. As economias onde os trabalhadores mais utilizam as TIC são caracterizadas por elevadas taxas de profissões não-rotineiras, devido ao facto de serem desempenhadas tarefas complexas (como a programação) que não respeitam sempre uma sequência e cuja performance se mede mais pelo resultado final dos projectos do que pelo número de horas que o trabalhador lhes dedicou. Esta nova realidade dá aos trabalhadores a liberdade para organizarem a ordem pela qual vão realizar as suas tarefas.

De acordo com a OCDE, as tarefas não-rotineiras e que estão relacionadas com a utilização de tecnologias são desempenhadas essencialmente por trabalhadores com qualificações elevadas, e as empresas que pretendem aderir a esta nova era devem apoiar os trabalhadores, dando-lhes, por um lado, formação técnica (essencialmente aos trabalhadores com qualificações médias, para que estes possam evoluir e corresponder às novas exigências do mercado de trabalho) e, por outro, motivação e apoio, ajudando-os a organizar o seu dia-a-dia e a manter elevados os seus níveis de empenho e dedicação à organização.

[quote_center]Quase 100% dos cidadãos dos países da OCDE utilizam a Internet e/ou diversos dispositivos móveis no seu dia-a-dia[/quote_center]

O papel das mulheres no mercado de trabalho também foi analisado no documento. Na realidade, embora as profissões tecnológicas e científicas ainda sejam exercidas mais por homens do que por mulheres, alcançar a igualdade de género através da inovação, nas áreas das TIC e não só, é um dos grandes objectivos de muitos países. A inovação promove a igualdade de oportunidades, desde o ensino básico, sendo fundamental para que o acesso a determinadas profissões e cargos seja alcançado em torno das competências e não do facto de se ser homem ou mulher.

No entanto, na OCDE, somente cerca de 30% dos licenciados em ciências naturais, engenharia e TIC são mulheres, sendo elas autoras de apenas 22% dos trabalhos científicos, o que significa uma sub-representação considerável do género feminino nesta área. Também no acesso a cargos de gestão os níveis da presença feminina são ainda bastante baixos, traduzindo-se em menos regalias e salários mais baixos que aqueles que são concedidos aos homens.

O contributo feminino para o desenvolvimento das novas tecnologias mede-se pela percentagem de patentes registadas por mulheres e varia, em média e de acordo com a análise, entre os 4% na Áustria e mais de 15% em Portugal (o melhor país, neste domínio), sendo que nos Estados Unidos a média é de 10% e no Japão é de 7%. As invenções mais comuns são na área da biotecnologia e das ciências farmacêuticas, sendo mais escassas nos domínios das telecomunicações e da engenharia civil.


Novas tecnologias ao serviço de uma sociedade melhor

No geral, independentemente da região ou do género, o sector da Investigação e Desenvolvimento (I&D) assume-se como uma forte alavanca para o bom funcionamento (em termos económicos e sociais) dos países, a longo prazo. Os governos têm, aqui, um papel fundamental, devendo apoiar o investimento feito nesta área, principalmente nas nações em que o sector privado revela ser mais relutante em investir em grande escala e com um elevado risco. Contudo, verifica-se que o investimento feito por entidades públicas tem tido altos e baixos nos últimos anos.

Enquanto, por exemplo, o apoio da maioria dos governos europeus para a I&D foi relativamente constante entre 2008 e 2015, o mesmo decaiu em cerca de 20% em Itália e França, e em 30% em Espanha e na Letónia. Por seu turno, o apoio financeiro, nesta área, dos governos dos Estados Unidos e Reino Unido tem aumentado nos últimos anos, após um declínio sentido em 2009.

A crise económica mundial é um dos principais motivos apontados para este cenário. Porém, o facto de terem surgido outros mecanismos de financiamento de ideias inovadoras, como benefícios fiscais (que, em 2017, foram concedidos por 30 países da OCDE), também justifica o abrandamento de muitos governos no que respeita ao financiamento directo de muitos projectos. A existência de outros apoios, como os business angels e os capitais de risco, são outras importantes fontes de financiamento, especialmente para start-ups e pequenas organizações, sendo fortemente utilizados no sector das TIC.

[quote_center]Portugal é o país com maior contributo feminino para o desenvolvimento das novas tecnologias[/quote_center]

Complementarmente, e com uma explosão de iniciativas para todos os gostos e feitios, os investidores públicos e privados estão mais cautelosos no que respeita ao financiamento. Deste modo, tem aumentado o apoio a projectos a longo prazo e que pretendem melhorar a sociedade. Assim, as iniciativas que visam combater as alterações climáticas, as que pretendem acabar com a fome e as que promovem melhores condições de saúde para a população (mitigando diversas doenças) são aquelas que, actualmente, recebem e merecem uma maior atenção por parte dos governos e dos investidores privados.

Em jeito de conclusão, a massiva utilização da tecnologia no dia-a-dia é um tema bastante discutível, tendo variadas desvantagens e inúmeras vantagens. Goste-se ou não, a verdade é que o mundo está a tornar-se digital a uma velocidade sem precedentes. De acordo com o documento, são quase 100% os cidadãos que, fazendo parte dos países da OCDE, utilizam a Internet e/ou diversos dispositivos móveis no seu dia-a-dia. No Brasil, China e África do Sul, por exemplo, mais de 50% das pessoas que têm entre 16 e 74 anos utilizam-na diariamente. E a nível mundial, à medida que os “nativos digitais” atingem a idade adulta e que os custos de utilização da tecnologia são cada vez menores, tende a aumentar o número e a percentagem de pessoas para quem a Internet é quase uma necessidade básica.

Contudo, continuam a existir diferenças em diversos aspectos: por um lado, existem discrepâncias entre os mais novos e os mais velhos, e entre os mais ricos e os mais pobres, no que respeita ao acesso e à utilização diária (e mais trivial) das novas tecnologias; por outro lado, as desigualdades de acesso a produtos, serviços e empregos também se verificam entre os que vivem nas áreas mais rurais e nas mais urbanas, e entre aqueles que têm acesso a um melhor ou pior nível de ensino; por fim, continuam a persistir diferenças entre homens e mulheres, no que diz respeito à presença, em termos de trabalho, nas áreas das TIC e na investigação tecnológica.

A boa notícia é que o mundo parece estar mais ligado e aparentemente mais atento e focado em resolver os principais problemas da sociedade.

Jornalista