Vários são os estudos que comprovam que trabalhar mais não significa necessariamente trabalhar melhor. De acordo com a New Economics Foundation e com a Autonomy, a redução das semanas de trabalho poderá trazer inúmeros benefícios a nível económico, social e ambiental. Através da campanha “4 Day Week”, as duas organizações pretendem promover uma sociedade mais justa, saudável e sustentável, acreditando que a redução do horário de trabalho estimula a produtividade e contribui para um melhor equilíbrio entre o trabalho e as restantes actividades diárias
POR MÁRIA POMBO

O contexto laboral está a mudar e o número – excessivo, para muitas pessoas – de horas passadas nas empresas está a ser cada vez mais debatido, fazendo agora parte da agenda política de muitos países. O desenvolvimento tecnológico (que põe em risco muitos postos de trabalho), os baixos salários, a baixa produtividade e o facto de a sociedade estar cada vez mais envelhecida (e a ideia, por um lado, de que as reformas chegam cada vez mais tarde e não existe espaço para os mais novos, no mercado de trabalho e, por outro, de que é necessário cuidar dos familiares idosos) são alguns dos pontos que merecem debate e que fazem questionar se faz sentido que cada pessoa passe pelo menos 40 horas semanais no local de trabalho.

De acordo com o think tank britânico New Economics Foundation (NEF), “a promoção de semanas de trabalho mais curtas, mas abrangidas por sistemas de protecção de rendimentos permite lidar com os sintomas de trabalho excessivo e mal remunerado, conferindo aos cidadãos mais tempo de descanso e uma maior possibilidade de participar no processo democrático e cuidar dos seus entes queridos”.

No documento “Achieving a shorter working week in the UK”, apresentado em Dezembro último, a organização explica que “reduzir a quantidade de tempo que gastamos no trabalho traz grandes benefícios e permite enfrentar alguns dos maiores desafios económicos e sociais da actualidade, como o envelhecimento da população e a falta de assistência social”, sublinhando que “as empresas beneficiam, por exemplo, de níveis mais elevados de produtividade” apesar de os trabalhadores passarem menos tempo no local de trabalho.

No mesmo documento, a NEF apresenta seis grandes benefícios – para a economia, para a sociedade, para as empresas e para os cidadãos – que resultam da promoção da redução do número de horas de trabalho por semana. E embora o estudo se dirija apenas ao Reino Unido, a verdade é que as seis vantagens referidas poderão beneficiar qualquer país.

A garantia do futuro da economia é a primeira vantagem. De acordo com o documento, a automação pode ter impacto em 30% das profissões do Reino Unido, no início da década de 2030, sendo certo que muitas tarefas administrativas e manuais passarão a ser realizadas por máquinas. Ao invés de permitirem que a automação dê origem a ainda mais precariedade e desigualdade, os governos e as empresas devem promover a redução dos horários de trabalho, mas sem diminuírem os salários, estimulando assim o empenho e o compromisso dos trabalhadores e aproveitando, em simultâneo, as potencialidades das máquinas.

O aumento da produtividade é o segundo benefício. Ao mesmo tempo que os empregadores devem garantir que a redução das semanas de trabalho não afecta os salários dos colaboradores, estes devem garantir aos seus dirigentes que trabalharem menos horas não significa serem menos produtivos e empenhados, e que, pelo contrário, este é um estímulo que lhes permite produzir mais em menos tempo.

O apoio à transição industrial é o terceiro benefício desta lista. Esta é uma estratégia que faz todo o sentido adoptar numa era em que se assiste ao declínio das indústrias de alto carbono, tendo em conta que muitas máquinas estão a ser substituídas por outras mais eficientes. E de acordo com os autores do documento, a redução do horário de trabalho pode fazer parte de um acordo de “transição justa”, principalmente se for acompanhada de uma oferta ao nível da capacitação e formação profissional, ajudando os trabalhadores a conhecerem as novas tecnologias e adaptando o seu curriculum à nova forma de ver e estar no mercado de trabalho, bem como às novas profissões que estão a surgir.

Um trabalhador alemão que pare de trabalhar à quinta-feira à hora de almoço produz tanto como um trabalhador britânico que cumpre uma semana inteira de trabalho

A promoção da igualdade de género surge como a quarta vantagem. De acordo com o Office for National Statistics, no Reino Unido, e no que respeita a funções não remuneradas (trabalho informal e cuidados prestados a familiares), as mulheres trabalham cerca de 60% a mais do que os homens. Neste sentido, a redução do horário de trabalho permite equilibrar os papéis desempenhados por homens e por mulheres, estimulando a partilha de tarefas e ajudando a sociedade a mudar padrões associados ao papel da mulher na sociedade e à sua presença no mercado de trabalho.

A possibilidade de colocar o bem-estar em primeiro lugar é o quinto benefício. A este respeito, os autores da NEF explicam que o modelo actual causa sofrimento aos trabalhadores, sendo que muitos sofrem de stress e não têm direito a tempo suficiente de descanso. A redução do horário de trabalho irá permitir a diminuição dos níveis de stress causados por trabalho excessivo, aumentando assim o bem-estar dos trabalhadores e melhorando a sua saúde.

Por fim, o documento revela que o compromisso democrático é o sexto e último benefício da redução do horário de trabalho. Neste sentido, e embora não exista uma lei que dite aquilo que os cidadãos devem fazer no seu tempo livre, os autores do documento revelam que um possível benefício será o estímulo, por parte dos governos, a um maior envolvimento na democracia, promovendo-se assim uma maior participação de todos na comunidade, o que também pode ter um impacto positivo na redução das desigualdades sociais e económicas.


Trabalhar mais não significa trabalhar melhor

Paralelamente, um outro estudo, denominado “The Shorter Working Week”, apresentado recentemente pela Autonomy (uma plataforma que se dedica a questões relacionadas com o futuro do trabalho), explica que a redução do horário de trabalho também traz benefícios ao ambiente, já que permite diminuir a pegada ecológica e reduzir a poluição do ar através da promoção de uma mudança nos padrões de consumo (a qual passa pela ideia de que se devem encontrar alternativas de baixo carbono para actividades tão simples como comer e viajar de casa para o trabalho).

Corroborando a ideia apresentada acima e relacionada com a saúde, os autores deste estudo explicam que a redução do horário de trabalho é substancialmente importante para a saúde física e mental, permitindo que os trabalhadores, ao conseguirem um maior equilíbrio entre o tempo de trabalho e o tempo livre, não sintam tanta necessidade de ter férias nem de pedir dispensa de dias, aumentando também a sua autonomia para a realização das tarefas diárias. E o problema do excesso de trabalho não é uma invenção dos preguiçosos: no Japão, um dos países do mundo onde os trabalhadores trabalham mais horas, morrem anualmente cerca de 10 mil cidadãos por trabalharem demasiado – e este é um fenómeno conhecido internacionalmente por karoshi, que significa precisamente morte por excesso de trabalho.

No mesmo documento, explica-se que uma abordagem universal à redução do horário de trabalho é “a melhor forma de prevenir um ‘novo dualismo’ entre aqueles que podem pagar o seu tempo livre e aqueles que não podem”, diminuindo deste modo as desigualdades sociais e económicas.

Adicionalmente, e focando-se também no caso do Reino Unido, o estudo explica que os problemas de produtividade que têm surgido naquele país não devem ser uma responsabilidade exclusiva dos trabalhadores. Neste sentido, os seus autores consideram que, tendo em conta que a economia britânica precisa de uma significativa modernização tecnológica, este é o melhor momento para fazer uma boa ligação entre a automação e a redução dos dias de trabalho. E é através de uma boa gestão que se consegue fazer da tecnologia um aliado e não uma ameaça, devendo esta ser utilizada para aumentar a produtividade e facilitar a produção de bens, e não para substituir trabalhadores.

Adicionalmente e de acordo com a New Economisc Foudation, tudo isto deve ser feito de forma gradual, colectiva e com o apoio de reformas amplas, chegando gradualmente aos diversos sectores e permitindo a todos – trabalhadores, empregadores e Estado – lidar com as novas formas de encarar e gerir o trabalho. No fundo, tudo pode ser feito através da construção progressiva de uma nova normalidade, em que os trabalhadores se sentem mais comprometidos e empenhados e em que os empregadores não olham para a redução do horário de trabalho como uma forma de perder dinheiro ou reduzir postos de trabalho.

Através de uma comparação entre países, os responsáveis da Autonomy demonstram que não existe uma correlação entre trabalhar mais horas e criar uma economia forte, mas que o oposto já se verifica, tendo em conta que os países onde se trabalha menos horas tendem a apresentar níveis mais elevados de produtividade, maiores índices de riqueza por habitante e economias mais fortes.

De acordo com o documento, a Alemanha, a Holanda e a Noruega são os países europeus onde o horário semanal de trabalho é menor, e a Grécia, Itália e Espanha são as nações onde os trabalhadores passam mais tempo no seu local de trabalho. O Reino Unido surge como o quarto país onde os cidadãos mais horas trabalham. E se dúvidas ainda existissem, a diferença de produtividade entre os mais e os menos “trabalhadores” é notória: um trabalhador alemão que pare de trabalhar à quinta-feira à hora de almoço produz tanto como um trabalhador britânico que cumpre uma semana inteira de trabalho.

Assim,o apelo está lançado: queremos seguir países como a Grécia e o Japão, onde se trabalham horas sem fim e se morre por excesso de trabalho, ou queremos estar ao lado de países como a Alemanha e a Holanda, onde os trabalhadores trabalham mais, em menos tempo, conseguindo em simultâneo criar uma economia forte e equilibrar o trabalho com o tempo livre?


Por uma sociedade mais igualitária, sustentável, produtiva e saudável

Foi com o intuito de promover a redução do horário de trabalho que as duas organizações – a New Economics Foundation e a Autonomy – se juntaram e estão a promover a campanha  “4 Day Week”, lutando assim para que os trabalhadores tenham uma semana mais curta de trabalho e apelando aos sindicatos para que apoiem esta causa.

A criação de uma comunidade mais forte (em que existe mais tempo para dedicar a familiares e amigos) e de uma sociedade mais justa (através de uma partilha mais equilibrada entre o trabalho remunerado e as tarefas domésticas), e a promoção de uma melhor saúde física e mental (tendo em conta que os cidadãos passam a ter mais tempo para fazer exercício e comer melhor, ao invés de o ocuparem com refeições rápidas e tarefas pouco interessantes) são alguns dos principais benefícios referidos pelos autores da campanha e defensores de semanas mais curtas de trabalho.

No fundo, os promotores desta acção lutam por uma sociedade mais igualitária, sustentável, produtiva e saudável.