Somos ratos de laboratório e a culpa é de Silicon Valley. Muito sumarizado, este é o principal argumento do mais recente livro publicado pelo jornalista especializado em tecnologia, Dan Lyons. Numa escrita cáustica, sarcástica e que em nada abona a favor da indústria da tecnologia, o autor de “Lab Rats” corrobora as muitas estatísticas que apontam para a infelicidade no local de trabalho, afirmando que a cultura organizacional que sopra do Vale está a contagiar os demais sectores laborais
POR HELENA OLIVEIRA

“Temos uma nova cultura que celebra o excesso de trabalho, a exaustão e o stress, liderada por pessoas que não se preocupam com nada a não ser com dinheiro”. A citação poderia ser de outras “épocas laborais”, a palavra “nova” também poderá estar mal colocada, mas tudo o resto parece caracterizar muitos trabalhadores da nossa era, tendo em conta as inúmeras estatísticas que comprovam a existência de níveis elevados de infelicidade no local de trabalho.

Todavia e neste caso em particular, Lyons acusa os senhores de Silicon Valley (SV) – a quem chama de oligarcas da tecnologia – de serem eles os culpados e de esta cultura tóxica não existir apenas nas startups e gigantes do Vale, mas estar também a contagiar outras indústrias.

O livro em causa é uma espécie de sequela do primeiro best-seller deLyons, Disrupted: My Misadventure in the Start-Up Bubble e, para se perceber este espreitar por trás das cortinas do mundo do trabalho em SV é útil saber um pouco do percurso do autor contado exactamente neste “Disrupted”. Na verdade, reza a história que depois de ter atingido o topo na carreira de jornalista, e estando a trabalhar na revista Newsweek, acabaria por receber um telefonema a despedi-lo. Com 50 anos, mulher e dois filhos, tal desfecho representava um enorme problema. Assim, e depois de ter estado anos a cobrir as notícias da indústria da tecnologia, nomeadamente aquelas que provinham de Silicon Valley, Lyons pensou que talvez não fosse má ideia passar de um outsider a um insider e resolveu juntar-se a uma startup de Boston, bem aprovisionada de 100 milhões de dólares em capital de risco. Basicamente e como conta com piada, a Hubspot – assim se chamava a empresa – “estava a fazer do mundo um local melhor… através da venda de endereços de email para envio de spam”. Lyons narra uma espécie de “vida louca” comum às startups – ou pelo menos ao que imaginamos sobre elas – com festas a começarem às 4h30 da tarde de sexta-feira e a prolongarem-se noite dentro, com um patrão ausente que enviava emails encriptados sempre que despedia mais alguém e com Lyons a ter o dobro da idade dos seus colegas. E não correu bem.

Os millennials querem exactamente o mesmo do que as gerações que os antecederam

Esta história serve apenas para introduzir a intenção de Lyons ao escrever este novo livro, Lab Rats: How Silicon Valley Made Work Miserable for the Rest of Us, na medida em que a sua experiência no interior da cultura organizacional de Silicon Valley foi determinante para as criticas que tece sobre a mesma, nomeadamente o facto de esta ser responsável pela “miséria” dos seus trabalhadores, e esta estar a entrar em modo de contágio em outros sectores.

Lyons desmistifica igualmente os famosos “benefícios” destas empresas – com uma fixação engraçada nas mesas de ping-pong -, concluindo que ao contrário do que toda a gente pensa, os millennials querem exactamente o mesmo do que as gerações que os antecederam: serem bem tratados, com dignidade e respeito, e preferirem um contrato de trabalho e um seguro de saúde a snacks gratuitos ou… mesas de ping-pong. Mas vejamos algumas das suas ideias.

Fomos todos enganados

© DR

Lyons não é parco em palavras de desprezo dirigidas à cultura tecnológica, a qual apelida de “mercenária” e “movida a ganância”. Critica igualmente as startups, afirmando que são terrivelmente mal geridas e financiadas por investidores amorais que apenas as querem colocar na bolsa e ganhar “uns trocos chorudos” rapidamente. Mas não é a gestão ou a viabilidade das empresas de tecnologia que são centrais ao seu livro, mas sim a má sorte dos seus empregados, os quais são e nas suas palavras, impiedosamente explorados, sendo que vários, de tanto desespero, acabam mesmo por se suicidar.

No livro, o autor dá particular importância ao disparo impressionante do número de antidepressivos entre a população activa, em conjunto com as taxas crescentes de suicídios e afirmando, numa entrevista à [email protected], que a cultura de negócios – salvo excelentes excepções que compõem a última e optimista parte do livro – de Silicon Valley está cada vez mais anti-humana. “Os robots estão cada vez mais parecidos com os humanos e os humanos cada vez mais parecidos com os robots”, diz ainda.

A velha questão, já tratada por inúmeros autores, de que a tecnologia contribui para esta desumanização tem também lugar em Lab Rats. Para o autor, “estamos perante um sentimento de alienação face a nós mesmos promovido pela tecnologia, em conjunto com uma infelicidade e/ou ansiedade cultural”. Lyons cita a especialista em tecnologia Sherryl Turkle e a pesquisa que fez ao longo de 15 anos com base em largas centenas de entrevistas e experiências com crianças, jovens e adultos, a qual viria a transformar-se no livro intitulado Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. Neste, que está muito perto de constituir um tratado por excelência sobre as relações humanas na era digital, é expressa a preocupação crescente de que os computadores (e demais dispositivos), em vez de se tornarem catalisadores para se repensar a nossa identidade, surgem antes como os responsáveis por abalar, de forma significativa, a capacidade de nos relacionarmos, com significado, uns com os outros. Mas também connosco próprios. Lewis acrescenta ainda, e com razão, que quanto mais se fala em Inteligência Artificial e sobre robots, as pessoas estão a começar a perceber o quão importante é o valor das ligações “pessoa a pessoa”. Na medida em que vivemos num mundo em que quase toda a gente consegue ter acesso às mesmas tecnologias é, a seu ver, a qualidade das pessoas que irá determinar o sucesso da organização.

Os robots estão cada vez mais parecidos com os humanos e os humanos cada vez mais parecidos com os robots

Apesar de esta parecer uma verdade de La Palice, o que o autor pretende dizer é que as empresas tecnológicas começaram por “distrair” os seus trabalhadores  – no geral, gente jovem – com os tais “benefícios” que incluíam coisas divertidas que se podiam fazer nos intervalos de longas jornadas de trabalho, cafetarias gratuitas e bem recheadas de comida, as já faladas mesas de ping-pong, entre um sem número de outras “benesses”, pois na verdade o que queriam – e continuam a querer – é que os empregados trabalhem 16 horas por dia e não tenham desculpa para se afastar da empresa pois têm ao seu dispor este conjunto de coisas superficiais e que, no início e aos seus olhos, parecia convidar a uma cultura de trabalho completamente nova e desafiante.

Ora, afirma Lyons, quase vinte anos passados sobre as promessas da Internet – com as previsões no final dos anos 90 a apontarem para que a força laboral seria mais rica, mais feliz e com mais tempo disponível – o que temos à vista são inquéritos atrás de inquéritos que comprovam que os trabalhadores estão cada vez mais infelizes e menos envolvidos com o seu trabalho.

O “engano” que ataca sobretudo os millennials – também eles rotulados, entre muitos adjectivos, como a geração que nunca iria descurar a vida pessoal por causa da vida profissional e que “só” trabalharia em empresas que fizessem bem ao mundo – diz respeito a factores muito simples: esta geração mais jovem quer segurança, um contrato de trabalho, um seguro de saúde e pouca mudança, ao contrário de tantos outros estudos que afirmavam que a geração Y não conseguia estar na mesma empresa ou na mesma função mais do que um curto período de tempo.

De acordo com Lyons, “uma das maiores revelações que tive enquanto trabalhava para este livro foi a de falar com muitos millennials que não suportam estas coisas”, afirma, sendo que estas “coisas” se traduzem nos tais benefícios que eram supostamente garante de um excelente ambiente de trabalho há uns anos. A ideia da “mudança” como estímulo para as mentes curiosas dos membros da geração Y é igualmente negada – e segundo as entrevistas feitas pelo autor – por estes jovens. A ajudar estão quantidades significativas de dados científicos que comprovam que os nossos cérebros estão completamente esmagados com tanta mudança e que simplesmente não fomos feitos para tal.

A insegurança está bem patente na cultura organizacional da actualidade, em particular em Silicon Valley (com contágio a outros sectores, como já mencionado), pois não se sabe se a empresa – ou o nosso lugar – durará um ano, ano e meio ou dois anos, nunca se sabendo o que vai acontecer. E socorrendo-se novamente de mais pesquisa, Lyons afirma que o medo e a insegurança são muito mais prejudiciais ao cérebro do que o acto de se ser despedido. “O medo de perder o trabalho é mais danoso para qualquer pessoa do que o despedimento efectivo”, escreve. E, mediante várias formas, “os locais de trabalho modernos transformaram-se em lugares que mais parecem uma experiência psicológica repleta de ‘agressões’ que invadem o cérebro e é por isso que o livro se chama ‘ratos de laboratório’.

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Dinheiro, insegurança, mudanças constantes e desumanização

No meio das críticas aos oligarcas tecnológicos – o autor revela particular aversão a Jeff Bezos, o patrão da Amazon, a quem apelida de um Tio Patinhas dos tempos modernos, que lidera fábricas exploradoras nas quais os trabalhadores são forçados a fazer trabalhos fisicamente exigentes, em ambientes inseguros, a ganharem ordenados baixos e forçados à categoria de ‘permatemps [de que falaremos abaixo] sem direito a qualquer benefício laboral – o autor de Lab Rats elege quatro factores por excelência que contribuem para a infelicidade dos trabalhadores da actualidade.

Esta geração mais jovem quer segurança, um contrato de trabalho, um seguro de saúde e pouca mudança

O primeiro, relacionado com o dinheiro, não tem só a ver com os ordenados baixos que se praticam em muitas empresas tecnológicas e em substancial contraste  às fortunas dos milionários que as lideram, mas sim com o retirar de vários benefícios que eram comuns ao contrato laboral entre empregador e empregado. Nos Estados Unidos, uma das principais perdas relacionadas com os contratos de trabalho são os fundos de pensões, um garante de reforma, que em muitas empresas parece estar em vias de extinção. Mas tudo isto tem também a ver com a chamada “economia gig”, a qual as empresas estão a apostar cada vez mais, uma vez que podem ter trabalhadores “por empreitada” sem serem obrigadas a oferecer-lhes um contrato de trabalho.

Os “permatemps” acima referidos – ou os trabalhadores por conta própria simultaneamente “permanentes e temporários” – estão a inundar o mundo dos negócios e não é difícil reconhecer a crítica de Lyons a gigantes tecnológicos como a Apple, o Facebook ou a Google, entre muitos outros. Na verdade, estas empresas que não só têm lucros astronómicos como também milhares de milhões de dólares em contas offshore para que não sejam obrigados a pagar impostos, permitem que nas suas imediações existam milhares de trabalhadores “sem-abrigo” que vivem em roulottes ou dentro de carros porque não têm dinheiro para uma casa nas imediações dos seus locais de trabalho (este fenómeno está a representar um enorme problema, nomeadamente no estado da Califórnia, onde se situa Silicon Valley, com milhares de trabalhadores a viverem situações verdadeiramente complicadas).

O medo de perder o trabalho é mais danoso para qualquer pessoa do que o despedimento efectivo

O segundo factor está relacionado com algo previamente mencionado: a insegurança. De acordo com as suas pesquisas, as taxas de turnover estão a aumentar desmesuradamente, sendo este encorajado, na medida em que, e por não existir contrato de trabalho “oficial”, os despedimentos são muito mais fáceis e, na maioria das vezes, por razões que não passam de meros caprichos dos empregadores. Ou seja, estamos perante uma força de trabalho que é completamente descartável (mas que tem snacks gratuitos). O livro está pejado de exemplos de trabalhadores, muitos deles entrevistados anonimamente, que contaram as suas histórias pessoais para o livro. E o elenco é extenso e variado: desde recém-licenciados a sofrerem de depressão porque são obrigados a trabalhar 60 horas semanais – mesmo que existam vários estudos que comprovam que este número de horas é absolutamente contraprodutivo -, a outros que são despedidos por não se encaixarem no tipo de cultura vigente, aos que sofrem na pele um racismo mascarado – Lyons afirma que Silicon Valley continua a ser um lugar que permanece “demasiado branco e masculino” e onde existe uma segregação activa -, ou aos mais miseráveis que, cita, têm de acampar nos campos gélidos de Inglaterra para pouparem dinheiro enquanto trabalham para os armazéns da Amazon.

As mudanças constantes e fortuitas são consideradas também como factor de enorme stress para os trabalhadores, estejamos a falar da adopção de filosofias na empresa que mais parecem cultos, da escuta activa de palestras de líderes especialistas em… legos ou a da obrigação de participarem em workshops, aulas ou jogos de simulação verdadeiramente humilhantes.

Por fim, a desumanização do local de trabalho é traduzida em open spaces nos quais os empregados não têm qualquer privacidade e estão sob constante vigilância seja no que respeita aos seus emails, às conversas de chat, aos websitesque visitam e até às pausas que fazem para ir à casa de banho.

Pese embora o sarcasmo e a escrita cáustica que percorre todo o livro, na última parte o autor brinda os leitores com uma nota de optimismo e esperança. A descoberta de um “movimento silencioso de líderes de negócios que estão a construir locais de trabalho ‘amigos-do-trabalhador, inclusivos e diversificados, e socialmente conscientes apoiados por pessoas ricas bem-intencionadas”.

Tema a que o VER tem dado constante atenção.