Os alertas têm vindo a ser feitos há já vários anos, por entidades diferentes, convergindo no essencial: os trabalhadores europeus mostram níveis de envolvimento persistentemente baixos relativamente ao trabalho, com custos significativos para si mesmos e para as organizações que os acolhem. No estudo global sobre o “estado do trabalho” que a Gallup publica anualmente, menos de dois em cada 10 empregados sentem-se genuinamente empenhados nas tarefas que executam, uma realidade que não mostra sinais de inversão há já uma década. E, para o seu próprio bem, as empresas não podem continuar a ignorar esta desmotivação alargada, em particular nos tempos de transição e incerteza em que vivemos
POR HELENA OLIVEIRA

De acordo com o “State of the Global Workplace: 2021 Report”, que entrevista trabalhadores de todo o mundo sobre o seu “estado de alma” relativamente ao trabalho, publicado anualmente pela Gallup –uma das mais reconhecidas empresas do mundo de pesquisa, consultoria estratégica, desenvolvimento de liderança e global analytics , no que respeita ao impacto da Covid-19 nas empresas e nos trabalhadores, apenas 36% dos inquiridos na Europa Ocidental e 37% na Europa Oriental afirmaram que as suas vidas foram “muito” afectadas pela pandemia, comparativamente à média global que ascende até aos 45%. Para tal e de acordo com os responsáveis por este relatório, contribuíram as leis laborais “favoráveis” aos trabalhadores, instrumentos flexíveis do mercado de trabalho, estados sociais fortes e respostas rápidas do governo à pandemia, factores que desempenharam muito provavelmente um factor na história de “relativo sucesso” da Europa ao longo do último ano.

Quando questionados sobre os efeitos específicos decorrentes da pandemia, os europeus com trabalho “estável”, e comparativamente aos seus pares a nível mundial, foram os que menos se queixaram de perdas de salário, de terem sido obrigados a deixar temporariamente de trabalhar, ou de perderem o seu emprego ou negócio devido à situação da Covid-19. Todavia, outras tendências – tanto positivas como negativas – sobressaíram neste relatório global sobre o estado do trabalho. Seguem-se os principais resultados apurados junto das empresas europeias, em particular os que devem funcionar como um sinal de alerta para os líderes devido à desmotivação e falta de envolvimento dos trabalhadores que, há uma década, se mantêm inalterados no ambiente organizacional europeu.

A estagnação do envolvimento com o trabalho

Apesar de o relatório demonstrar alguma heterogeneidade no que respeita ao nível do envolvimento dos trabalhadores europeus com o trabalho que executam, a nível individual, e por país, os resultados mostram pouca ou nenhuma mudança nesta matéria face ao ano transacto. Ou seja, o “fenómeno de estagnação” que demonstra esta desmotivação e falta de compromisso com o trabalho não é novo, com a Gallup a constatar que, pelo contrário, há já uma década que, e por parte dos europeus, este se mantém em níveis muito abaixo do desejado. De acordo com o presente relatório, e na maioria dos países da Europa Oriental e Ocidental, menos de dois em cada 10 empregados sentem-se verdadeiramente empenhados a executar as suas funções quotidianas no local de trabalho, o que não são, de todo, boas notícias.

Para além da produtividade e desempenho, a Gallup sublinha a importância do bem-estar dos trabalhadores no que aos seus níveis de envolvimento diz respeito. Ou seja, não é de todo surpreendente que quando as pessoas se sentem apoiadas no seu local de trabalho e são encorajadas a dar o seu melhor, se sintam mais felizes com as suas vidas no geral e apresentem níveis mais reduzidos de stress. Por exemplo, 51% dos trabalhadores europeus “activamente desligados” dizem sentir stress, em comparação com apenas 31% dos trabalhadores empenhados, uma diferença de 20 pontos percentuais que pode ter, e como sabemos, sérias implicações para a sua saúde física e mental.

O que é igualmente pouco claro é o facto de esta falta de envolvimento com o trabalho por parte dos trabalhadores europeus não estar em linha com os aumentos de satisfação reportados em outras partes do mundo ao longo do último ano. São vários os especialistas que argumentam que tal pode dever-se a questões culturais, na medida em que os europeus, no geral, parecem dar mais valor à vida fora do contexto laboral do que à que é vivida “dentro”, mas não explica, pelo menos suficientemente, esta falta de empenho verificada e consistente ao longo dos anos e, em particular, ao longo da pandemia, em que muitos trabalhadores que responderam a inquéritos sobre os seus níveis de compromisso – e muito por causa do teletrabalho – reportaram uma satisfação crescente.

Independentemente da razão, e como alerta a Gallup, o baixo nível de envolvimento dos europeus no trabalho é claramente um obstáculo aos ganhos de inovação e produtividade de que a Europa necessita para se manter relevante num mercado global cada vez mais competitivo no que respeita à atracção e manutenção do talento, bem como aos produtos e serviços que são oferecidos na actualidade.

Mas, e dando o desconto devido à empresa de consultoria estratégica que trabalha com variadíssimos clientes em todo o mundo exactamente nesta área, apesar de uma década de estagnação, diz a Gallup, é errado pensar-se que os baixos níveis de envolvimento demonstrados pelos trabalhadores europeus não têm remédio. Mesmo em culturas organizacionais diferentes, as pesquisas sobre esta matéria mostram que todos os seres humanos têm as mesmas necessidades “emocionais” em contexto laboral e que quando estas são satisfeitas, as pessoas respondem com maior motivação, inovação, criatividade e paixão. De acordo com a própria Gallup, o trabalho que tem vindo a fazer com clientes em toda a Europa prova que o envolvimento dos funcionários pode ser melhorado, bastando para isso que os líderes lhe confiram maior valor ao significado e ao propósito, ao mesmo tempo que assumem esse mesmo envolvimento como uma prioridade. Assim, e uma vez mais confiando nos dados da própria Gallup, estas empresas são capazes de envolver 44% da sua força de trabalho, em comparação com apenas 16% em toda a Europa, com a sua experiência a garantir que é possível promover uma cultura de local de trabalho mais comprometida e envolvida.

Desta forma e apesar de defender que os baixos níveis de envolvimento não sejam inevitáveis, as consequências da manutenção do status quo serão, em última análise, desastrosas para a Europa. As empresas globais que oferecem mais do que um salário – sob a forma de significado, propósito e desenvolvimento pessoal – acabarão por atrair os melhores talentos da Europa e serão as únicas a conseguir sustentar a prosperidade futura.

Trabalhadores querem empresas a cumprir critérios de ESG

No relatório “Gallup 2021 State of the Global Workplace”, foram igualmente analisados os pontos de vista dos trabalhadores no que respeita aos critérios ambientais, sociais e de governação (ESG), que estão a gerar uma mudança histórica na forma como o sucesso empresarial é definido. E, na Europa, talvez mais do que em qualquer outra região, a revolução ESG está a ser impulsionada pelos sentimentos e preferências dos trabalhadores.

Assim, e de acordo com a pesquisa da Gallup, os trabalhadores europeus demonstram uma insatisfação significativa, comparativamente às demais regiões do globo, no que respeita aos esforços de protecção ambiental no interior dos seus próprios países – 46% versus 62% da média global, o que poderá traduzir a maior maturidade sobre o tema existente no Velho Continente.

Figuras populares como Greta Thunberg, eventos como as “sextas-feiras para o futuro” e a crescente popularidade dos “partidos verdes” em toda a Europa apontam para uma crescente consciência da necessidade de acção climática. Surpreendentemente, e porque são muitos os que associam o movimento climático aos mais jovens, o estudo da Gallup não encontrou uma divisão geracional sobre esta questão, com as pessoas com idades inferiores e superiores a 40 anos a demonstrarem a sua insatisfação face à insuficiente luta de protecção ambiental nos seus países.

Europeus sentem-se mais respeitados no local de trabalho comparativamente às demais regiões

Um outro (bom) resultado patente neste estudo global diz respeito à toxicidade existente nos locais de trabalho, com a Gallup a afirmar que quando um empregado se sente desrespeitado, existem 90% de probabilidades de o mesmo já ter sentido algum tipo de discriminação ou assédio por parte da organização onde trabalha. Como é sabido, o respeito é o fundamento por excelência em qualquer que seja o trabalho de equipa (ou individual), sendo essencial para se atingir elevados níveis de performance, ao mesmo tempo que constitui a pedra basilar para a inclusão em termos laborais.

A boa notícia é que apenas 6% dos empregados na Europa Ocidental e apenas 10% dos empregados na Europa Oriental dizem não ter sido tratados com respeito (dentro ou fora do trabalho), em comparação com 14% a nível global. Curiosamente, não foram encontradas diferenças significativas entre os homens e as mulheres inquiridos ou entre os respondentes mais jovens e os mais velhos. A Gallup recorda ainda que dados respeitantes a 2019 demonstram, sem surpresas, uma ligação entre os níveis de envolvimento e o sentimento de respeito, com os funcionários empenhados a demonstrarem uma maior propensão do que os trabalhadores “activamente desligados” para relatar que se sentiam respeitados no trabalho.

Relativamente à percepção da corrupção em ambiente empresarial, uma outra questão que fez parte do inquérito global da Gallup, e apesar da existência de uma preocupação transversal a todos os europeus no que respeita a esta matéria, o relatório demonstra que, comparativamente à média global de 69%, é menor, se bem que expressivo, o número de respondentes da Europa Ocidental que reportam a existência de actos de corrupção nas organizações em que trabalham (51%). Todavia, a percentagem sobe para 75% – ultrapassando a média global – no que aos trabalhadores da Europa de leste diz respeito. Como é sabido, esta percepção de corrupção acaba por desgastar a confiança que os empregados têm nos seus empregadores, tornando quaisquer iniciativas de liderança – incluindo programas que visam aumentar os níveis de envolvimento e aqueles relacionados com os critérios ESG – muito mais complexos.

Para a Gallup, e de acordo com os resultados obtidos neste inquérito, há ainda um longo caminho a percorrer pelos empregadores no que respeita a questões de transparência, honestidade e justiça. A nível global, quatro em cada 10 inquiridos acreditam que o seu empregador faria a “coisa certa” caso fossem alertados pelos seus colaboradores de ausência de ética ou integridade nas organizações que lideram. Contudo, importa não esquecer que “fazer o que está certo” é, de forma crescente, um imperativo nas lideranças, na medida em que a ética e a conformidade (compliance) estão estreitamente relacionadas com questões legais, culturais, de segurança, de produtividade e, também, de marca. E, mais uma vez, os dados apontam para que os empregados europeus verdadeiramente envolvidos com o propósito do seu trabalho e com a missão da empresa têm igualmente mais confiança na integridade moral dos seus líderes.

E como inverter os níveis de insatisfação persistentes?

Neste momento e com a pandemia a não dar tréguas ao caminho de incerteza que temos vindo a viver, todos sabemos que a forma como trabalhamos muito dificilmente vai voltar ao que era. Entre os prós e os contras do teletrabalho, até à transição, desejada tanto por empregadores como por empregados, para um modelo laboral híbrido, é imperativo que se reflicta sobre as mudanças que, inevitavelmente, as organizações terão de fazer para se alinharem com as incertezas do futuro. Todavia, e como sublinha o relatório da Gallup, há que ter em conta que, e de acordo com os dados obtidos, a cultura de trabalho actual – mesmo que em fase de transição – parece não estar a funcionar para muitos trabalhadores, o que já acontece há uns bons anos.

Os baixos níveis de envolvimento com o trabalho reportados pelos empregados demonstram que os líderes não estão a saber lidar com questões de motivação/produtividade e, talvez mais importante que tudo, com a falta de propósito que parece contagiar uma grande parte dos trabalhadores europeus, nem a responder de forma adequada aos seus desejos de que as empresas cumpram com os critérios ambientais, sociais e de governação (ESG).

A Gallup oferece algumas linhas de orientação para as empresas agirem no sentido de aumentar os níveis de envolvimento e compromisso dos trabalhadores, começando por recordar que a mudança organizacional começa no topo e que sem um compromisso de longo prazo por parte da liderança para conferir maior significado e propósito às suas pessoas, este cenário de desmotivação e desinteresse irá continuar, com custos óbvios para empregadores e empregados.

Uma das sugestões oferecida é a necessidade de os líderes procederem a inquéritos sobre o “estado de espírito” dos trabalhadores – algo que, e como tem vindo a ser reportado, teve uma boa repercussão ao longo da pandemia em muitas empresas – e no que respeita aos seus níveis de envolvimento, bem-estar e às questões relacionadas também com o cumprimento dos critérios ESG.

Para a Gallup, o ano de 2020 foi um bom exemplo de como as empresas “saudáveis” conseguiram superar os vários obstáculos impostos pela crise pandémica e tudo isso graças a empregados envolvidos, devidamente apoiados e optimistas quanto ao seu futuro e ao da organização. Considerando que são os gestores os principais “agentes condutores” deste tipo de sentimento, a Gallup sublinha também que são muitos aqueles que simplesmente não sabem como envolver melhor as suas equipas num objectivo comum e com significado, desconhecendo igualmente o que realmente sentem as pessoas por eles lideradas. A título de exemplo, e num inquérito que foi feito na Alemanha, enquanto 97% dos gestores consideram que estão a fazer um bom trabalho na gestão das suas pessoas, 69% dos empregados afirmam exactamente o contrário. A percentagem é significativa o suficiente para fazer soar sinais de alarme, sendo imperativo que as empresas consigam fornecer aos seus gestores a informação necessária que lhes permita perceber qual o “estado” dos trabalhadores e que medidas deverão ser tomadas para melhorar o clima organizacional.

Sendo óbvio que não será apenas um inquérito de satisfação que irá resolver questões problemáticas, a verdade é que o mesmo pode funcionar como uma base e ponto de partida para a tomada de decisões a partir de dados e informações preciosas, ao invés de meras conjecturas.

A falta de formação dos gestores – responsáveis por 70% da “variação” no envolvimento das equipas – para promover um ambiente que motive genuinamente os trabalhadores é igualmente apontada pela Gallup como uma das principais razões para a estagnação e baixos níveis de compromisso que há uma década caracterizam a maioria das empresas europeias. Desta forma, há que apostar na sua educação e formação para que sejam eficazes na percepção do que realmente sentem os empregados, para que consigam ter conversas de qualidade com os mesmos e que saibam como proceder às mudanças necessárias para inverter este quadro persistente de apatia e desmotivação. E, em tempo de pandemia, esta necessidade é cada vez maior.