Empresas, instituições sociais, confissões religiosas, organizações sociais e cidadãos – todos são “convocados para participar no esforço solidário que a situação do país reclama”, defende o Movimento Sociedade Civil Solidária, que lança nesta quadra uma campanha de donativos a favor da Cáritas e da Cruz Vermelha. O apelo à cidadania por maior justiça social faz badalar os sinos nesta quadra natalícia e os portugueses (incluindo nas empresas) respondem ao chamamento com o espírito de entreajuda que faz parte do seu ADN
POR GABRIELA COSTA

Chama-se “Cozinha do Chef desempregado” mas podia muito bem tratar-se do escritório do gestor desempregado, ou da escola do professor desempregado. A campanha lançada esta semana pelo Movimento Sociedade Civil Solidária mostra um chef de cozinha a recolher alimentos de caixotes de lixo com os quais cozinha uma refeição. Sob o claim “Sem a sua ajuda é assim que muitas famílias vão aprender a cozinhar”, o vídeo alerta para a difícil situação de muitos milhares de portugueses, que enfrentam actualmente uma situação de desemprego, com “zero euros para gastar”.

Presente em televisão, mupis e nos autocarros de Lisboa, a campanha produzida pela agência Fuel com a coordenação da Associação Link está a ser emitida na RTP e já corre nas redes sociais, tendo no dia de lançamento alcançado perto de três mil euros.

O valor total a angariar será repartido ente a Cáritas Portuguesa e a Cruz Vermelha Portuguesa (CVP), destinando-se os donativos ao Fundo Social Solidário e ao programa Portugal Mais Feliz, projectos desenvolvidos, respectivamente, por estas organizações.

Para além de reunir inúmeras personalidades públicas solidárias com as (cada vez mais) famílias carenciadas, a iniciativa lançada pelo Movimento Sociedade Civil Solidária visa sensibilizar os portugueses para a necessidade de ajudar.

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Emocionar com a realidade
Promovido por dezenas de personalidades de todos os quadrantes da sociedade, o Movimento Sociedade Civil Solidária é uma iniciativa lançada em Maio deste ano com o apoio de cerca de 160 personalidades, com um objectivo em mente: alertar para a necessidade de pugnar por uma maior justiça social, pelo respeito pela dignidade humana e bem comum, e por uma drástica redução das desigualdades e da pobreza existentes em Portugal.

Entre as várias personalidades que aderiram ao Movimento, estão Manuela Eanes, Alfredo Bruto da Costa, Adriano Moreira, Laborinho Lúcio, Artur Santos Silva, Bagão Félix, Daniel Sampaio, Guilherme Oliveira Martins, D. Januário Torgal Ferreira, João Lobo Antunes, Manuela Ferreira Leite, Maria Barroso, Miguel Sousa Tavares, Vasco Graça Moura e Vítor Melícias.

Visando constituir um pólo congregador de recursos para dar apoio às vítimas mais atingidas pela crise, esta iniciativa em rede optou por não criar estruturas próprias de gestão e aplicação dos recursos que venha a recolher, canalizando antes esses recursos para “estruturas idóneas e estáveis já existente”, como é o caso do Fundo Social Solidário.

Para concretizar a sua missão, os promotores do Movimento comprometem-se a “acompanhar a definição de prioridades, critérios e normas de utilização das verbas, e a avaliar os respectivos resultados, informando periodicamente a opinião pública sobre os montantes recolhidos e a respectiva aplicação”.

Esta é uma crise que reclama justiça social, respeito pela dignidade humana e pelo bem comum, e drástica redução das desigualdades e da pobreza .
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Defendendo que a crise que atinge o mundo em geral e o nosso país em particular, com “causas diversas e consequências profundas na vida das sociedades, famílias e pessoas”, implica “profundas mudanças no sistema financeiro, nas actividades económicas em geral, no sistema de valores, no estilo de vida, nos padrões de consumo, na valorização do trabalho humano na vida das famílias e das empresas, e nos modelos de comportamento dominantes”, as diversas personalidades que integram esta iniciativa subscrevem que “todos – empresas, instituições sociais, confissões religiosas, organizações diversas e cidadãos – são convocados para participar no esforço solidário que a situação do país reclama”. Apelando ao exercício da cidadania, o Movimento reclama, em Manifesto, justiça social.

Para tanto, dizem os subscritores dos mais variados quadrantes políticos, económicos e sociais, é necessário “um elevado sentido de responsabilidade por parte do Estado”, que “não dispensa o contributo da sociedade civil, no sentido de minorar os seus efeitos negativos, abreviar a sua superação e procurar novas soluções.”

Seis meses depois da sua criação, o empenho deste Movimento permitiu já entregar os seus primeiros donativos ao Fundo Social Solidário da Cáritas. Mas “dado o agravamento constante da situação económica e social de um crescente número de famílias”, os promotores da iniciativa “assumiram a necessidade de revitalizar a intervenção pública do Movimento”, anunciam, em comunicado.

E para chegar ao coração dos portugueses nesta quadra com um Natal a meio gás, nada melhor do que fazê-lo através de uma campanha “que espera emocionar com a realidade, para a situação dramática de muitos milhares de pessoas apoiadas pela Cáritas e pela Cruz Vermelha Portuguesa”. Realmente, não é fácil ficar indiferente à ideia de alimentar a família com restos de batatas fritas recolhidas do lixo, para acompanhar umas salsichas enlatadas fora do prazo de validade…

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Ter fome de partilha
O Fundo Social Solidário disponibiliza uma conta bancária, criada pela Cáritas Portuguesa por orientação da Comissão Episcopal da Pastoral Social, que se destina a acorrer aos mais necessitados, especialmente neste contexto de crise. Aproveitando estruturas localizadas (as paróquias), o FSS permite dar respostas imediatas de apoio para chegar junto daqueles que vivem em dificuldades. Em que medida, isso depende exclusivamente dos donativos feitos “pelas pessoas de boa vontade”, diz Eugénio Fonseca, presidente da organização: “desde o arranque desta iniciativa, têm sido muitos os que desta forma colaboram e, assim, levam mais longe a acção da Cáritas Portuguesa”.

“Fome de partilha, justiça e solidariedade” foi o tema que a Cáritas Portuguesa escolheu para assinalar o Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza. Para Eugénio Fonseca, “a verdade é que sem partilha, justiça e solidariedade, a paz é impossível”. A operação “10 Milhões de Estrelas – Um gesto pela paz” é “uma oportunidade de intensificar a partilha de bens, promover a solidariedade a todos os níveis e lutar por mais justiça, mais do que uma mera angariação de fundos”, defende ainda.

O projecto, que já existe há dez anos, tem na sua essência a consciencialização para a partilha, promovendo redes de compromisso local e nacional, um desafio que a Cáritas assume no seu trabalho diário. Até ao primeiro semestre de 2012, em todas as Cáritas Diocesanas, espalhadas por todo o país, registou-se o atendimento a mais de trinta mil famílias, num total de mais de 88 mil pessoas, o que representa um aumento de 64% relativamente a igual período do ano anterior.

Mas é preciso não só contornar a realidade como também, e “acima de tudo, desencadear esforços para que quem precisa deixe de precisar”.  Num contexto “de extrema urgência e tendo em conta as expectativas para o ano de 2013”, a campanha 10 Milhões de Estrelas irá entregar 65% do valor angariado com a venda de velas às Cáritas Diocesanas, a quem caberá a sua aplicação na resposta às famílias. Como habitualmente, o montante remanescente será aplicado a um projecto internacional, este ano relacionado com o desenvolvimento do mundo rural no Brasil: Casas Familiares Rurais.

Ao longo destes dez anos a operação “10 Milhões de Estrelas – um gesto pela paz” já apoiou diversos projectos nas áreas da Educação, Saúde, formação de adultos e inserção profissional, entre outras, principalmente nos países em desenvolvimento. Em 2011 foi angariado um valor de 35.011 euros para o apoio alimentar a 649 crianças e 150 famílias de agricultores e pastores no corno de África, na Somália.

Respostas interventivas
Diariamente, as Delegações da Cruz Vermelha Portuguesa recebem cada vez mais pedidos de apoio de famílias carenciadas, que estão em dificuldades. Carências na alimentação, problemas graves de saúde, pagamento de luz, água e gás, procura de emprego, situações de solidão e isolamento, necessidade de equipamentos como cadeiras de rodas, camas articuladas, andarilhos e outras ajudas técnicas são os factores mais reportados.

Neste Natal, e no âmbito do programa Portugal Feliz – um programa da CVP que visa constituir uma resposta interventiva, ao nível da pobreza, formação e empregabilidade – quem adquirir os Postais de Natal da Cruz Vermelha (vendidos num sortido de 18 postais diferentes), contribui para o Fundo de Emergência da organização.

A iniciativa que presta apoio direccionado a crianças, jovens, idosos e famílias, fez também nesta quadra uma parceria com a Worten: “Dê a mão por um Portugal + Feliz” consiste na venda de embrulhos de Natal a um euro, para apoiar o programa da CVP. A iniciativa, que conta com o apoio da SIC, prolonga-se até ao dia 6 de Janeiro.

Esta acção, que visa apoiar famílias carenciadas na reconstrução dos seus projectos de vida, combatendo a pobreza e a exclusão social, apela ao espírito solidário dos portugueses quando realizam as suas compras de Natal. Uma causa social, entre tantas outras, que se for colocada no sapatinho, engrandece com certeza o seu conteúdo, este ano mais parco.

Estudo Sdc
Empresas investem na comunidade apesar da crise
A crise socioeconómica influencia os montantes investidos na comunidade, mas nem por isso as empresas deixam de reforçar estratégias a propósito do seu envolvimento e investimento na comunidade, apostando no voluntariado e no combate à pobreza e exclusão social.
A Sair da Casca apresentou recentemente os resultados da 3.ª edição do Estudo “O Envolvimento das Empresas com a Comunidade”. Com uma amostra total de 27 relatórios de sustentabilidade a consultora aferiu mais uma vez qual o contributo das empresas para a comunidade.Baseando-se na informação comunicada pelas empresas, esta investigação analisou a forma como estas relatam o seu desempenho social, quais as práticas mais comuns, que causas e projectos são os mais apoiados, e como contribuem as empresas para o combate à pobreza e à exclusão social a nível interno e externo, entre outras questões.As principais conclusões revelam que o voluntariado empresarial continua a ser uma tendência geral. Cerca de 86% das empresas desenvolvem ações de voluntariado para ter impacto a nível interno (colaboradores) e simultaneamente a nível externo (comunidade).O compromisso de contribuir para o combate à pobreza e à exclusão social a nível interno foi reforçado, conclui-se ainda, já que cerca de 96% das empresas analisadas comunicam práticas internas no âmbito da criação de condições de empregabilidade e também de acessibilidade a produtos.

Por outro lado, a comunicação dos critérios de escolha dos projectos, instituições e iniciativas apoiadas é já uma tendência, com 68% das empresas analisadas a comunicarem fazê-lo.

O amadurecimento da visão estratégica sobre o envolvimento e investimento na comunidade, que já se vinha a sentir nos estudos anteriores, é reforçado nesta análise pela percentagem de empresas que comunica a importância da medição do impacto das suas iniciativas (40%).
Principais conclusões:

. O resultado antes de imposto das empresas analisadas reduziu 15% entre 2009 e 2011, tendo-se também verificado que o valor investido na comunidade sofreu uma redução de 12% de 2009 para 2011. O que indicia que a situação de crise socioeconómica poderá estar a influenciar os montantes investidos na comunidade.
. Cerca de 18% das empresas analisadas aumentaram o investimento na comunidade entre 2009 e 2011.
. O voluntariado empresarial continua a ser uma tendência geral. Cerca de 86% das empresas desenvolvem ações de voluntariado para ter impacto a nível interno (colaboradores) e simultaneamente a nível externo (comunidade).

. O compromisso de contribuir para o combate à pobreza e à exclusão social a nível interno foi reforçado, pois cerca de 96% das empresas analisadas comunicam práticas internas no âmbito da criação de condições de empregabilidade e também de acessibilidade a produtos.

. A Solidariedade foi a causa mais apoiada pelas empresas, seguindo-se a Educação e a Cultura.

. A comunicação dos critérios de escolha dos projectos, instituições e iniciativas apoiadas é já uma tendência, com 68% das empresas analisadas a comunicarem faze-lo.

. O amadurecimento da visão estratégica sobre o envolvimento e investimento na comunidade, que já se vinha a sentir nos estudos anteriores, é reforçado nesta análise pela percentagem de empresas que comunica a importância da medição do impacto das suas iniciativas (40%).

. Cerca de 40% das empresas comunica fazer medição do impacto social dos projectos que desenvolve, apoia ou investe, no entanto, o que comunicam são essencialmente resultados (por exemplo, número de beneficiários ou número de refeições entregues). Apenas quatro empresas utilizam uma ferramenta de gestão e medição de impacto social, como é o caso do LBG2 (London Benchmarking Group).

Gabriela Costa

Jornalista