Numa altura em que a solidariedade de proximidade se apresenta não só como uma urgência, mas como uma realidade crescente, o fundador da Public Allies – uma organização não lucrativa norte-americana cuja principal missão é formar jovens líderes para fortalecer as comunidades, as organizações não lucrativas e a participação cívica – lança um livro em que defende que a liderança não é apanágio de uma minoria, mas um dever de todos os que procuram provocar mudanças sociais
©Stanford Social Innovation Review
Traduzido por Helena Oliveira

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Ao contrário da esmagadora maioria dos livros sobre liderança, Everybody Leads, escrito por Paul Schmitz, o CEO da Public Allies, elege a liderança em termos da acção que cada um realiza em detrimento da posição que se ocupa. Ou, como o próprio autor escreve, “movermo-nos de uma ênfase no substantivo ‘líder’ para o enfoque no verbo ‘liderar’.

E Schmitz sabe do que fala. Enquanto CEO da Public Allies em Milwaukee, e em conjunto com a sua organização, tem trabalhado, de forma incansável, para reforçar as comunidades, as organizações não lucrativas e a participação cívica ao formar jovens líderes norte-americanos em todos os cantos do país. Desde 1992, a Public Allies já apoiou mais de 2800 líderes em 18 comunidades diferentes.

Schmitz escreve sobre a liderança como algo que alguém faz para beneficiar as comunidades e não somente uma organização ou um grupo de indivíduos, definindo-a através de três linhas por excelência: em primeiro lugar, a liderança é uma acção que pode ser tomada por muitos e não uma posição que apenas uns poucos podem ocupar. Em segundo, a liderança é o meio através do qual cada individuo pode, com responsabilidade pessoal e social, trabalhar para o alcance de objectivos comuns. Por último, a liderança consiste na prática de valores que envolvem vários membros da comunidade e grupos num trabalho eficaz e conjunto.

No que respeita ao primeiro ponto, Schmitz apresenta um argumento convincente e apaixonante no qual a liderança não está apenas reservada a uma minoria, mas que, ao invés, consiste numa responsabilidade que deve ser abraçada por todos. Schmitz utiliza a combinação de histórias pessoais com técnicas testadas pela Public Allies ao longo dos seus vinte anos de existência. Por exemplo, cada um dos líderes formado pela Public Allies tem de “atravessar”  10 princípios de responsabilidade pessoal e de aferir as consequências de não aceitarem essa responsabilidade. O que consiste num excelente exercício para um jovem líder, preparando-o para os desafios que lhe estão subjacentes.

Apesar de o autor fornecer um modelo para a liderança individual, o maior valor deste livro consiste na reformulação do conceito de liderança, transformando-o num ambiente de colaboração. Schmitz desmistifica a noção de que, para se ser líder, é necessário alguém ser um fundador ou ter um conjunto de seguidores para criar uma mudança significativa. A verdadeira transformação social nunca foi realizada pela visão de uma pessoa só, mas sim por um grupo de pessoas que se juntaram em torno de uma causa comum.

Para Schmitz, o processo de liderar e construir uma comunidade exige três elementos: a liderança e o compromisso dos residentes; os serviços e o apoio que os vizinhos proporcionam aos demais vizinhos; e a coordenação e colaboração no sentido da existência de objectivos comuns entre os cidadãos, associações, organizações sem fins lucrativos, escolas, instituições religiosas e empresas num determinado bairro. Os projectos comunitários mais bem-sucedidos não vêm do topo para baixo, mas do terreno para cima. As pessoas que partilham o mesmo bairro têm de trabalhar ombro a ombro para atingirem o seu objectivo, o que, sem um nível profundo de envolvimento e compromisso, não é passível de ser alcançado.

O autor aconselha igualmente de que forma se deve liderar – através do reconhecimento e mobilização de todos os activos da comunidade, das relações entre culturas, da facilitação da acção colaborativa, da aprendizagem e melhoria contínuas, sem esquecer a responsabilização relativamente a nós mesmos e aos outros. Este ponto é de extrema importância na medida em que a maioria das comunidades não identifica os seus activos. E quando se ajuda os membros de uma comunidade a reconhecer os recursos colectivos existentes, dá-se-lhes a confiança necessária para passarem à acção em nome de um bem maior. Depois da primeira vitória, sentem-se com muito mais poder para estabelecer objectivos mais ambiciosos e de longo prazo.

Schmitz acredita igualmente que, para solucionar os mais prementes problemas sociais, é necessário procurar novos líderes nas comunidades – estejamos a falar de estudantes, pais, ou proprietários de negócios locais – e capacitar esses líderes a excederem-se em termos de colaboração e de construção de equipas.

Schmitz revela-se ainda um mestre em transformar a sua experiência e conhecimentos adquiridos ao longo dos últimos 20 anos, enquanto líder da Public Allies, em conselhos práticos para todos os tipos de líderes, seja para um responsável de uma organização não lucrativa, um estudante universitário que se queira envolver numa causa académica ou um activista de bairro. Everybody Leads está repleto de exemplos de pessoas verdadeiramente inspiradoras que escolheram este caminho, em conjunto com exemplos de como o aprofundar. Caso esteja nos seus planos transformar-se num líder eficaz ou desenvolver novos líderes preocupados com questões sociais e com os desafios do amanhã, este é um livro a não perder.

Artigo originalmente publicado na Stanford Social innovation Review. Traduzido com permissão.