No Ano Internacional das Florestas, importa valorizar a preservação deste importante recurso nacional, cada vez “mais degradado e insustentável”, segundo a Liga para a Protecção da Natureza. A floresta portuguesa cobre mais de um terço do território e gera, no conjunto das suas actividades, 3,2 por cento do PIB, mas os reincidentes incêndios de Verão, a má gestão e o aumento da área de espécies exóticas colocam-na, ano após ano, em perigo de sobrevivência. Em 2011, o apelo é unívoco: Todos à floresta!
POR GABRIELA COSTA

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O Ano Internacional das Florestas foi declarado pela Organização das Nações Unidas com o objectivo de consciencializar a sociedade civil para a importância das florestas e da sua gestão sustentável no mundo. A abertura oficial da efeméride a nível mundial, que teve lugar no início de Fevereiro, em Nova Iorque, durante a 9ª sessão do Fórum das Nações Unidas sobre Florestas, foi acompanhada, em Portugal, por uma cerimónia no Centro de Ciência Viva de Proença-a-Nova, na presença do Secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural, Rui Barreiro, e do Secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor.

Já no Dia Mundial da Floresta, 21 de Março, o Comité Português para o Ano Internacional das Florestas, o Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas e a Câmara Municipal de Lisboa juntaram sinergias em Monsanto – uma “floresta modelo” que importa dar a conhecer melhor aos portugueses – para celebrar a importância da floresta para a economia portuguesa e para a sustentabilidade do país.

Para o comité nacional que coordena este ano internacional, “é fundamental que cada cidadão possa, por si mesmo, assumir-se como um exemplo ao nível da preservação e valorização do papel das florestas enquanto recurso fundamental”, considerando que a floresta “é uma fonte de riqueza nacional que importa dar a conhecer aos portugueses”.

Mais de cem mil hectares ardidos
Num país onde a floresta cobre cerca de um terço do território, “as razões para celebrar são muito poucas”, lamenta a Liga para a Protecção da Natureza (LPN). A organização ambientalista sublinha que a floresta portuguesa enfrenta cada vez “maior degradação e insustentabilidade”. As principais causas são os incêndios, o abandono e falta de gestão e o aumento da área de espécies exóticas.

No Dia Mundial da Floresta, a LPN defendeu que os incêndios são “um problema que continua a colocar o país numa situação de destaque pela negativa, a nível europeu”, já que os valores relativos de área queimada e de ignições são “muitíssimo elevados quando comparados com os restantes países do Sul”. E a meta “muito pouco ambiciosa” de um máximo de cem mil hectares de área queimada apontada no Plano Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndios “foi largamente ultrapassada em 2010”, acusa a Liga, citada pela agência Lusa.

As dificuldades no funcionamento das Zonas de Intervenção Florestal (ZIF) e a ausência de desenvolvimento na concretização de um Cadastro das Propriedades Florestais são outras razões para a realidade pouco animadora das florestas portuguesas, a par da presença de espécies exóticas, que a LPN classifica como “um dos maiores problemas da conservação da natureza em Portugal”, mas também da prevenção de incêndios e em termos económicos. Espécies como a acácia e o eucalipto são exemplos de como este problema se prende “sobretudo com o seu carácter quase irreversível, dadas as tremendas dificuldades em parar a expansão destas espécies, logo que se instalam”, conclui a organização ambientalista: “se pensarmos que não há nenhuma espécie nativa que possa competir em crescimento com o eucalipto, é fácil perceber as consequências desta expansão para os ecossistemas naturais e para outros usos do solo”.

A Liga questiona ainda o destino dado às verbas do Fundo Florestal Permanente, defendendo que, “para além das ZIF de utilidade duvidosa, uma boa parte dos recursos financeiros são anualmente gastos no funcionamento de gabinetes técnicos florestais cujo trabalho dificilmente se vê reflectido no terreno”.

Floresta, terceiro maior exportador
Informar e sensibilizar os portugueses sobre a situação real é relevante para a LPN, numa tentativa de “tentar mudar o futuro pouco animador que se vislumbra para a floresta em Portugal”.

Note-se que, com uma ocupação de 39 por cento do território nacional, a floresta portuguesa sequestra mais de 289 milhões de toneladas de CO2, e gera no seu conjunto aproximadamente 3,2 por cento do PIB nacional, sendo o terceiro sector exportador, e abrangendo mais de quatrocentos mil proprietários e 260 mil trabalhadores nos diversos agentes da fileira.

O Comité Português para o Ano Internacional das Florestas 2011 tem precisamente por missão dinamizar e coordenar um conjunto de actividades que assinalam o evento em Portugal, e que visam mobilizar a população para assegurar que os ecossistemas florestais são geridos de modo sustentável para as gerações actuais e futuras. Um desafio que depende da necessidade urgente de alterar comportamentos no que respeita à (má) acção humana sobre os ecossistemas.

As actividades desenvolvidas no âmbito do Ano Internacional das Florestas, a decorrer já desde o início deste ano, são muitas e variadas, estendendo-se desde conferências e eventos na área da educação ambiental, à publicação de relatórios sobre a floresta, à atribuição de prémios de investigação sobre gestão florestal sustentável e à realização de inúmeros concursos destinados a alunos dos ensinos básico e secundário. A decorrer está uma petição para elevar o sobreiro a Árvore Nacional de Portugal, bem como uma série de acções de sensibilização a propósito da biodiversidade e da sustentabilidade da floresta portuguesa, dinamizada para a população em geral.

O Comité Português para o Ano Internacional das Florestas conta com a colaboração de catorze parceiros oficiais – ADP Águas de Portugal; BES – Banco Espírito Santo; BP Portugal; CTT Correios de Portugal; Corticeira AMORIM; EDP – Energias de Portugal; Fundação PT; GALP Energia; Grupo Portucel Soporcel; Jerónimo Martins; Repsol; SAPO/Naturlink; Sonae e Xecompex -, mas qualquer entidade pode participar com ideias e iniciativas, uma vez que a programação do Ano não se restringe aos membros da Comissão Executiva, constituída por representantes de mais de vinte organismos públicos e privados que actuam na área do ambiente, por um represente do Governo e por outro da UNESCO. As várias entidades que se associarem serão integradas numa Comissão de Entidades Representadas que, neste momento, inclui já várias dezenas de organismos da administração pública, autarquias locais, associações, entidades escolares e empresas.

O evento
No âmbito das Comemorações do Ano Internacional das Florestas, a 7ª edição da ExpoFlorestal decorre de 8 a 10 de Abril, em Albergaria-a-Velha. A ExpoFlorestal dinamiza o papel fundamental que o sector florestal tem para o desenvolvimento de Portugal.

Desde a primeira edição que a iniciativa pretende criar um espaço de reunião entre todos os agentes da fileira, e envolver a sociedade civil nas problemáticas florestais. Simultaneamente, a aposta na educação ambiental, um dos principais objectivos do evento, visa permitir a crianças e jovens e à população em geral o reconhecimento da importância da floresta e dos desafios inerentes a uma Gestão Florestal Sustentável.

A petição
Em curso está a Petição Pública “Sobreiro – Árvore Nacional de Portugal”, numa iniciativa das Associações Transumância e Natureza e Árvores de Portugal. Num País “de grande riqueza e diversidade florestal, e sem desprimor para outras espécies que assumem papel relevante na floresta portuguesa, existe um largo consenso nacional de que é o Sobreiro, pela sua ampla distribuição geográfica e pela sua importância económica, social, ambiental, paisagística, histórica e cultural, a árvore que melhor poderá assumir o simbolismo de Árvore Nacional de Portugal”, afirmou a propósito da iniciativa o secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural.

Defendendo a importância dos montados, sistemas multifuncionais “de elevadíssimo valor conservacionista e económico”, Rui Barreiro sublinhou a importância histórica do sobreiro, gerador de uma grande diversidade de bens e serviços, com destaque para a produção de cortiça, matéria-prima “de características únicas e de extraordinárias propriedades tecnológicas, base de uma importante fileira industrial, estratégica para o país, e na qual somos líderes mundiais na produção, transformação e exportação”. Até à data de fecho desta edição, a Petição Sobreiro – “Árvore Nacional de Portugal” reunia mais de mil assinaturas.

O relatório
Para assinalar o Ano Internacional das Florestas, a World Wide Fund (WWF) lançará durante o ano de 2011 um novo relatório sobre as florestas, o Living Forests. Neste documento, a WWF procura dar a conhecer soluções sustentáveis para a floresta em seis capítulos, sendo que o último será apresentado em Janeiro de 2012.

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Os objectivos Desflorestação  Zero e Degradação Florestal Zero até 2020 são tidos como as metas críticas deste relatório, onde “se discute de forma clara as implicações das nossas atitudes na vida das florestas e destas nas questões da Pegada Ecológica e da Biodiversidade”.

A WWF assinalou já o Ano Internacional das Florestas com um jantar de gala que reuniu o ex-vice presidente dos EUA e Prémio Nobel, Al Gore e o presidente da WWF Indonésia a mais de seiscentos delegados do governo indonésio e líderes empresariais. Em debate esteve o papel do sector corporativo na procura de soluções para a floresta capazes de dar resposta ao desafio das alterações climáticas. O evento inseriu-se na reunião do grupo de Empresas pelo Ambiente – Diálogo Florestas 2011 -Business for Environment (B4E) Forest Dialogue, o evento que antecipa a principal conferência internacional do mundo para a acção empresarial orientada para o meio ambiente, o B4E Global Summit, organizado pela GI e agendada para 27-29 Abril de 2011, em Jacarta. Defendendo o papel das florestas num futuro sustentável, Al Gore afirmou que “o início do Ano Internacional das Florestas das Nações Unidas é o momento perfeito para se chamar a atenção para a proximidade da comunidade empresarial, líderes governamentais e ONG’s num momento em que a reunião B4E se avizinha”.

O Programa de Voluntariado
O Governo Civil de Setúbal, o Instituto Português da Juventude e a Autoridade Florestal Nacional apresentaram a 21 de Março, no Barreiro, o Programa Voluntariado Jovem para as Florestas 2011, que visa sensibilizar para questões ambientais e vigiar e limpar os espaços verdes. A vigilância, sensibilização e limpeza são os principais objectivos deste programa que, em seis anos, já envolveu cerca de quarenta mil jovens e 1600 projectos, tendo detectado cerca de oito mil incêndios.

As inscrições para esta iniciativa, que se destina a incentivar a participação dos jovens “no grande desafio” que é a preservação da natureza – da floresta em particular – e a reduzir o flagelo dos incêndios através de acções de prevenção, estão abertas a partir de Maio, e prolongam-se até ao dia 31 de Agosto.

Os prémios
Também no âmbito das comemorações do Ano Internacional das Florestas e com o objectivo de promover a investigação científica sobre gestão florestal sustentável, o Comité da Madeira da Comissão Económica para a Europa e a Comissão Europeia das Florestas da FAO – Organização para a Agricultura e Alimentação lançaram um Prémio Internacional que vai distinguir a tese de doutoramento que melhor forneça novos dados e percepções sobre a gestão florestal e sobre o equilíbrio da conservação da floresta, da sua produtividade e do bem-estar social. O Prémio tem um valor pecuniário de dez mil dólares.

Já o Prémio D. Leonor Lopes Fernandes Vieira Lopes, na sua segunda edição (2011-2012),pretende contribuir para a promoção e divulgação do sobreiro e da cortiça portuguesa. Instituído pela Fundação João Lopes Fernandes, foi criado para homenagear a memória da subericultora D. Leonor Lopes Fernandes Vieira Lopes e pressupõe candidaturas por parte de autores de trabalhos inéditos e de aplicação prática na área da subericultura, realizados por jovens agricultores e por estudantes ou licenciados na área da subericultura, da silvicultura ou da agro-pecuária, nacionais ou estrangeiros. Com um valor monetário de quatro mil e quinhentos euros, este Prémio está aberto à apresentação de trabalhos até 31 de Janeiro de 2012. A decisão do júri será conhecida no dia 26 de Junho de 2012

Os concursos
Preservar a floresta portuguesa e promover as suas inúmeras potencialidades através da divulgação de trabalhos escolares, exposições fotográficas, cartazes e outros suportes para projectos de educação ambiental são os grandes objectivos dos inúmeros concursos que estão e irão estar, ao longo de 2011, em curso, a propósito do Ano Internacional das Florestas. As iniciativas, na sua maioria destinadas à comunidade educativa (envolvendo alunos e professores) contam com o apoio de diversas entidades nacionais e internacionais aliadas a este Ano. Reflectir sobre a importância da floresta, estudar os ecossistemas florestais a nível local, regional ou nacional, desenvolver com criatividade soluções sustentáveis e vivenciar os espaços florestais e conhecer a sua biodiversidade são algumas das oportunidades que os mais novos terão de participar na preservação de um património de que depende o seu futuro.

Cortiça, uma MATERIA de design
A experimentadesign e a Corticeira Amorim apresentam a 13 de Abril uma colecção inédita de objectos de cortiça em Milão, no âmbito do Salone del Mobile, palco mundial do design. A colecção MATERIA será lançada naquele que é considerado o mais prestigiado evento internacional comercial de design, assinalando “uma etapa chave na estratégia de diversificação e entrada em novos mercados” por parte da empresa nacional.

O lançamento do projecto comissariado pela experimentadesign para a Corticeira Amorim inclui uma exposição na galeria Spazio San Marco. Numa operação de comunicação criada pela experimentadesign e com design de exposição de Miguel Vieira Baptista, o showcase MATERIA irá inaugurar este espaço, permanecendo aberto ao público até ao dia 17 de Abril.

A colecção MATERIA é composta por objectos inéditos para o quotidiano feitos em cortiça com um cunho de criatividade. Tirando partido das singulares propriedades desta matéria-prima, “de  potencial inesgotável”, a colecção foi desenhada por seis designers e estúdios portugueses e quatro estrangeiros: BIG-GAME, Daniel Caramelo, Fernando Brízio, Filipe Alarcão, Inga Sempé, Marco Sousa Santos, Miguel Vieira Baptista, Nendo, Pedrita e Raw Edges.

Investindo no design, que “exponencia a relação entre funcionalidade, pertinência e valor estético”, esta colecção procura “conquistar novos territórios de utilização para a cortiça, revelando a sua versatilidade e mais-valias técnicas e estéticas”, divulga a Corticeira Amorim. MATERIA CORK BY AMORIM assume a cortiça enquanto uma das matérias-primas de eleição para o século XXI, distinguindo-se quer pela sua combinação única de características quer pelo facto de ser cem por cento natural e altamente sustentável.

A nível nacional, o lançamento da colecção MATERIA terá lugar a 5 de Maio, na experimentadesign, em Lisboa.

Green Cork recicla 43 milhões de rolhas
O programa de reciclagem da Corticeira Amorim tem como objectivo sensibilizar os consumidores de vinho e os públicos do sector para a importância da rolha de cortiça, valorizando a preferência por vinhos engarrafados com este tipo de vedante natural, de modo a promover a sua reciclagem.

Implementada em países como os Estados Unidos, o Reino Unido, a África do Sul, a França e a Itália, a iniciativa da corticeira nacional divulga o impacto ambiental benéfico da utilização de rolhas de cortiça, tanto ao nível da redução de CO2 como da preservação da biodiversidade e do combate à desertificação.

Cem por cento natural e cem por cento reciclável, a cortiça é uma matéria-prima cuja reciclagem é assegurada, em Portugal, pelo programa Green Cork, ao nível das rolhas. Em 2010, e no conjunto de países que aderiram a este programa de reciclagem da Corticeira Amorim, foram recolhidas e recicladas 172 toneladas de rolhas de cortiça, o equivalente a 43 milhões de unidades.

Com a chancela da Quercus e a parceria da Biological, dos centros comerciais Dolce Vita e dos hipermercados Modelo e Continente, o projecto está também a contribuir para o financiamento do programa “Criar Bosques, Conservar a Biodiversidade”, que tem como principal objectivo a plantação de árvores que fazem parte da floresta autóctone portuguesa, de que é exemplo o sobreiro.

Recentemente, o Green Cork foi promovido no evento Essência do Vinho – um dos principais do sector a nível nacional – que decorreu no início de Março, no Palácio da Bolsa, dando lugar à recuperação de cerca de vinte mil rolhas, durante os quatro dias do evento.

Também na 53ª cerimónia dos Grammy Awards, que decorreu a 13 de Fevereiro nos Estados Unidos, os vinhos servidos foram vedados exclusivamente com cortiça natural, com o objectivo de contribuir para o programa de reciclagem da corticeira portuguesa. Só nos Estados Unidos, já foram recolhidas mais de catorze milhões de rolhas. A cortiça é seguidamente reciclada e integrada nos produtos fabricados pela Sole, uma empresa de calçado especializada que tem como clientes as equipas da NBA e as Forças Especiais do Exército e da Marinha norte-americana.

Gabriela Costa

Jornalista