As questões da pobreza, da fome ou do desperdício de recursos “já não são um problema dos outros, de ‘África’. São hoje, aqui, na nossa cidade, no nosso país”. Para o designer João Borges, distinguido internacionalmente pelas suas criações nas áreas da sustentabilidade e dos direitos humanos, o Design deve assumir um papel activo capaz de “destapar os mantos da sobranceria ou da passividade”. Foi o que fez, no concurso ‘Fight Poverty’, onde foi o único vencedor português, entre duzentos candidatos
POR GABRIELA COSTA

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© João Borges
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O trabalho do designer português João Borges em prol da sustentabilidade e dos direitos humanos foi mais uma vez reconhecido, desta feita no concurso internacional ‘Fight Poverty – Design for social and human rights’, promovido pela Associação Italiana para a Comunicação Visual. João Borges foi o único português a integrar a lista dos dez vencedores, entre duzentos candidatos.

Já neste mês de Maio, o trabalho do designer português, eleito por um júri de designers gráficos e industriais de países como o Brasil, EUA, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido, França e Zimbabwe, esteve exposto no Festival Tec Art Eco – Arte e Ambiente pelo Ambiente, na cidade italiana de Lugano e em Milão, no âmbito do seminário “O Social e a Ética na Comunicação”.

Depois de, em Março de 2010, se ter consagrado como o grande vencedor do concurso internacional para a selecção do logótipo da World Urban Campaign, plataforma patrocinada pelas Nações Unidas através da UN – Habitat, e de, em Junho, ter sido seleccionado através de um concurso internacional para integrar a Exposição YAKU (dedicada à agua enquanto recurso vital), no Peru, e o YAKU Oficial Book, João Borges conquistou mais uma distinção, em ex-equo com os outros nove vencedores do ‘Fight Poverty’, na categoria Design Gráfico.

Para além das exposições onde o projecto já foi apresentado, está previsto o lançamento de uma campanha que inclui a edição de um catálogo e a participação dos designers vencedores em outros eventos do organismo italiano Segretariato Sociale della Rai.

O ‘Fight Poverty’/Utilità Manifesta Design Contest é uma iniciativa que arrancou na sequência do lançamento, em 2004, do projecto Utilità Manifesta / Design de Comunicação Socialmente Útil. Partindo da ética e dos direitos universais, o Utilità Manifesta desenvolve acções de design social com enfoque em temas importantes da vida quotidiana, como a responsabilidade e a solidariedade, a autonomia, os direitos das crianças, imigração, direitos humanos, o planeta e o meio ambiente.

Temas que João Borges valoriza na sua vida profissional, porque “a participação cívica passa pela disponibilidade em abraçar os desafios” e os designers devem ter “uma participação ética”, a partir das ferramentas de que dispõem “para construir a expressão e direccioná-la ao público”, como explica, em entrevista ao VER.

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© DR

A sua formação e experiência profissional centram-se sobretudo no Design de Comunicação e Gráfico. O que é que o motiva a desenvolver projectos nas áreas da sustentabilidade e dos direitos humanos?
A minha experiência profissional, entre outras temáticas que concebo assiduamente (cultura, edições, museografia expositiva), tem-me levado a contactar com áreas na vertente da educação ambiental, sustentabilidade, formação de públicos juvenis e divulgação de iniciativas vocacionadas para a reciclagem e gestão de recursos naturais. Àparte a experiência com projectos nas temáticas que evocou, tenho uma predisposição para estes temas e, talvez de forma mais acentuada, para as questões de timbre social, especialmente aquelas que remetem para noções de mensagem ou linguagem de comportamentos.

Na altura em que concorri ao concurso “Fight Poverty” senti vontade de corresponder ao anúncio da Utilità Manifesta não só pelo apelo ao tema proposto mas porque a participação cívica passa também pela disponibilidade em abraçar os desafios.

Como é que encara o facto de ter sido um dos dez designers distinguidos no “Fight Poverty – Design for social and human rights”, depois de ter sido o vencedor de um concurso da World Urban Campaign e de ter integrado a exposição YAKU?
Realmente, para quem durante anos, por motivos de trabalho, nunca teve tempo – apenas vontade – para concorrer a concursos, ter ganho uma competição internacional promovida pelas Nações Unidas, para a imagem da “World Urban Campaign”, foi motivador de mais desafios. Ainda estive em dúvida se poderia concorrer ao “Fight Poverty” mas como os timmings das entregas eram quase coincidentes decidi concorrer.

Ter sido seleccionado, entre mais de 1500 candidatos de todo o mundo, para a exposição e livro oficial YAKU foi muito satisfatório. Este ano fui convidado pela Universidade de San Ignacio de Loyola a voltar a concorrer e, curiosamente, a temática deste ano, intitulada “Walls Down”, é sobre os comportamentos e preconceitos sociais, e convida os designers a promover mensagens que esbatam e derrubem os “muros”, por exemplo, da ignorância e da intolerância que subsistem nas sociedades. Como referi, a participação cívica é muito importante e no meu caso, enquanto designer, devo assumir as responsabilidades de uma participação ética, até porque graças à minha formação tenho as ferramentas para construir a expressão e direccioná-la ao público, ao meio.

De que importância se revestem estas distinções para o enriquecimento do seu trabalho a partir de experiências colectivas nos domínios do ambiente e das alterações climáticas, da ética, das cidades sustentáveis, e dos direitos humanos?

São uma forma de eu sentir que devo continuar a participar. Se o tempo de que dispomos for só usado para as tarefas profissionais, isto é, as estritamente relacionadas com a “empresa”, perdemos a oportunidade e o ensejo de contribuir para uma comunidade, seja ela local, longínqua ou circunstancialmente familiar. Ter sido distinguido nos três concursos não é importante para a minha persistência e princípios, mas devo reconhecer que a notariedade ajuda a que os outros possam ver os nossos resultados com a consistência que, porventura, têm, no que toca a um esforço que pretende gerar frutos.

Outra questão sensível é a maneira como poderemos agir para ajudar as causas prementes que todos os dias se nos deparam. As questões da pobreza, da fome, dos recursos, da infância desprotegida, já não são um problema dos outros, de “África”, do “terceiro mundo”. São hoje, aqui, na nossa cidade, no nosso país. Levantar essas questões, destapar os mantos da sobranceria ou da passividade é frucral e, neste contexto, os designers podem ter um papel activo estimulando as mensagens, promovendo a propagação da discussão.

Como define o conceito de design de comunicação socialmente útil, que alimenta o projecto Utilità Manifesta? Na sua opinião, como se posiciona o nosso país face a este tipo de “missão” que o design pode assumir?
Bem, todo o design é útil desde que ético. Em vários países há associações similares à “Utilità Manifesta/ design for social” cujo objectivo é a reunião de designers que queiram participar na promoção de mensagens sobre problemáticas “sociais”, mas não só.

Um designer com missão social
João Borges foi o designer português que em 2010 ganhou mais distinções internacionais no âmbito do design e da responsabilidade social/sustentabilidade:

World Urban Campaign das Nações Unidas – venceu o concurso internacional para a criação do logo da World Urban Campaign. Foi convidado pela UN para desenvolver a imagem da campanha mundial.

Exposição YAKU – Foi um dos 120 designers (entre mais de 1500 de todo o mundo) seleccionados para integrar a exposição dedicada à importância do recurso “Água” e o YAKU Oficial Bock.

“Fight Poverty – Design for social and human rights” – Foi o único designer português entre os dez vencedores, ex-equo, do concurso internacional “Fight Poverty – Design for social and human rights”, na área do Design gráfico, promovido pela Associação Italiana para a Comunicação Visual.

O Design de Comunicação, enquanto disciplina, é uma ferramenta com recursos ilimitados, não só porque estamos no campo da criatividade, mas porque as plataformas estão a desenvolver-se desmesuradamente. A questão da comunicação coloca-se hoje nos termos dos interfaces, dos hiper-media, da conjugação de dispositivos. Essa fruição não é igual para todos os cidadãos, uns porque não se sentem atraídos para as tecnologias por questões culturais, outros porque as capacidades financeiras não lhes permitem acompanhar a oferta.

Todavia, a comunicação de ideias existe e o papel do designer é propor conceitos que alcancem o maior número de pessoas. As campanhas de “missão” social que costumamos ver e que temos em Portugal são lançadas por instituições estatais ou similares. A sociedade “civil” não tem procurado desenvolver concursos, até porque os recursos económicos são escassos e o “anátema” do papel da televisão e da imprensa, enquanto veículos primordiais, tem um custo caro; e é conservador.

Mas, estou em crer que nos próximos tempos, porque estão conturbados, várias iniciativas poderão aparecer.

Na área do ecodesign sustentável, que cartas dá o nosso país no recurso a matérias-primas “amigas do ambiente” e a criações simultaneamente úteis e originais? O que falta fazer para que este seja um nicho de mercado em crescimento?
O nosso país é bom na aptidão pelas “novidades”! Não tenho dúvidas que somos um potencial produtor de energias alternativas, para já de investimento muito caro, e de outras áreas ligadas aos sistemas de informação.

A noção da sustentabilidade está enraizada nos cidadãos e as empresas sabem que não podem ter um discurso díspar. O mercado funciona quase ideologicamente. Por vezes a concorrência obriga os empresários ou criadores a “seguir o líder” e o factor comercial, de sobrevivência empresarial, não arrisca pela diferenciação.

Depois há as matérias-primas. Grande parte dos produtos em bruto na área do papel, dos plásticos, dos fios, etc, são reutilizáveis ou recicláveis. A revolução que surge na produção de propilenos é sintomática. Na área de impressão, por exemplo, existem imensos papéis reciclados e cartões “ecológicos”, mas infelizmente mais caros que o papel com cal. Não se pode querer mudar tudo num dia, especialmente num país onde muitas “fábricas” têm uma mecanização ultrapassada e de custosa renovação.

Mas a proliferação de estudantes de Design é salutar, especialmente para a indústria, para incutir a personalização de ideias e conceitos. Nos últimos tempos, a vinda para Portugal de empresas como a Ikea trouxe consigo o factor de “educar” o sentido crítico dos consumidores, de os tornar mais exigentes, pelo menos no que toca ao papel da aparência formal.

O crescimento do mundo empresarial não pode ser visto isolado da conjuntura de um país. Não podem florescer empresas de design se não houver oferta, assim como não existe espaço para a exploração dos domínios da criatividade se não houver projectos de comunicação, sejam eles institucionais ou de produto. Neste particular, o design pulsa mas carece do objecto. Todavia estou em crer que num futuro próximo o peso específico e o sucesso dos artefactos nacionais estarão, mais do que nunca, dependentes da componente criativa.

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Gabriela Costa

Jornalista