Todos sabemos que não existe uma fórmula perfeita para o tão desejado sucesso académico, mas a verdade é que pais, professores, educadores, decisores políticos e outros especialistas continuam a lançar-se na sua busca, por muito inalcançável que a mesma pareça. O livro “The smartest kids in the world” avaliou os sistemas de ensino da Coreia do Sul, da Finlândia e da Polónia e oferece sinais muito positivos para os países que continuam sem saber somar dois mais dois
POR HELENA OLIVEIRA

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Um pouco por todo o mundo, sendo que Portugal não é excepção, sempre que são publicados os resultados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos, a cargo da OCDE), chovem debates e muita literatura que tentam dissecar as razões que levam os países X ou Y a terem bons ou maus resultados nas áreas de leitura, matemática e ciências. O PISA, que se realiza desde 2000 e que testa, de três em três anos, os conhecimentos dos alunos de 15 anos em 65 países a nível mundial, transformou-se num “barómetro” da excelência educativa, sendo que, por norma, são os asiáticos a registarem as melhores classificações nas três áreas em causa. Na última edição do PISA, Xangai, Singapura e Hong Kong ocuparam os lugares cimeiros, com Portugal a não ultrapassar o 31º lugar (apesar de os resultados estarem a melhorar, de edição para edição, ligeiramente).

A propósito do Dia da Criança, assinalado no último Domingo, o VER procurou ir ao encontro da preocupação dos pais e educadores face ao ensino em Portugal ou, em particular, à difícil transição que os alunos portugueses (e não só) parecem ter quando deixam a escola e entram (para os felizardos que o conseguem) no mercado de trabalho.

Em Janeiro deste ano, e a propósito de uma conferência organizada pela ACEGE, o VER publicou também um dossier especial, sobre o emprego e o trabalho em Portugal. Numa das sessões deste evento, foi apresentado um estudo, com a chancela da McKinsey, que analisou a problemática do desemprego em oito países europeus, Portugal incluído.

E uma das principais conclusões daqui retiradas transformou-se num paradoxo não muito facilmente compreensível. Apesar de estarmos perante a “geração mais educada” de sempre, a verdade é que as empresas se queixam de não preencherem as vagas que têm disponíveis por não encontrarem os candidatos com as competências certas. O fenómeno é europeu, mas mais destacado na Grécia (33%), na Alemanha (32%) e no Reino Unido e em Portugal, ambos com 30%. O relatório referia ainda dois motivos em particular para esta inadequação de competências: em primeiro lugar, apenas 46% dos inquiridos acreditam que existem licenciados suficientes provenientes de programas académicos ou de formação “certos”; em segundo, não só afirmam que os jovens estão a estudar as “matérias erradas”, como não lhes estão a ser transmitidas as competências adequadas para o processo de transição para o mercado de trabalho.

Todavia, o fenómeno não é só europeu e serve esta introdução prévia para apresentar um livro, escrito por uma jornalista norte-americana, a qual decidiu investigar por que motivo os Estados Unidos apresentam classificações tão baixas – ainda mais baixas que Portugal – posicionando-se em 36º lugar no último PISA. O livro, intitulado The Smartest Kids in the World: And How They Got That Way, segue o percurso de três alunos norte-americanos – uma espécie de “agentes infiltrados”- em escolas de três países completamente diferentes mas que, em comum, têm sistemas de ensino “de sucesso”, os quais têm vindo a ser progressivamente melhorados e que apresentam bons resultados no já mencionado PISA. A Coreia do Sul (5º lugar), a Finlândia (12º) e, mais “perto” da realidade portuguesa, a Polónia (14º lugar, mas com uma progressão notável na última década). Escrito de uma forma simples, e muito enriquecida com os testemunhos de Kim, Eric e Tom, a obra da jornalista Amanda Ripley desmistifica algumas das ideias que temos sobre o sucesso académico e, numa espécie de literatura de viagens, responde à questão “o que está a acontecer nas salas de aula de outros países que têm melhores resultados do que o nosso?”.

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Quadros de ardósia, rigor e muito trabalho
Se existe uma certeza escrita nas páginas deste livro é a de que os níveis de sucesso escolar são absolutamente dinâmicos e que a esmagadora maioria dos países pode, se trabalhar para isso, melhorar a sua performance e formar alunos que sabem pensar e que são capazes de se adequar às exigências do mundo actual.

A Polónia e a Finlândia representam bem esta dinâmica, na medida em que ambas têm conseguido “dar a volta” aos seus sistemas de ensino, melhorando substancialmente a sua performance, ao contrário, por exemplo, da Noruega, a qual, apesar de ter uma população homogénea, uma taxa de pobreza baixíssima e uma rede de segurança social generosa, tem vindo a decair na tabela do PISA (os últimos resultados colocam-na em 30º lugar, um lugar acima de Portugal). E, comparativamente aos Estados Unidos, o trabalho de Amanda Ripley deixa igualmente claro que os mais privilegiados alunos norte-americanos, filhos de pais com excelentes currículos académicos e que frequentam as mais prestigiadas escolas secundárias não vão além de um 18º lugar em Matemática, por exemplo, comparativamente a outros seus pares, de países como a Nova Zelândia, a Bélgica, a França ou a Coreia. A constatação é, no mínimo, digna de esperança, na medida em que também estamos habituados  – muitas vezes com razão – a associar os bons desempenhos escolares a estatutos de riqueza e privilégios.

Um outro mito dos tempos modernos que cai por terra depois da leitura deste livro prende-se com as promessas dos mundos e fundos veiculadas pela utilização das novas tecnologias nas escolas – uma “modernização” seguida pelo nosso país na era dourada do “Portugal tecnológico” – e que, nos países analisados, não contribui em nada para a melhoria do pensamento crítico dos estudantes, antes pelo contrário.

A experiência de Tom, que passou um ano a estudar na Polónia, é um bom exemplo de que o cérebro vale mais do que a máquina. Nas aulas de matemática que frequentou na Pensilvânia, todos os alunos eram obrigados a usar máquina de calcular (qualquer semelhança com a realidade portuguesa não é pura coincidência). Na escola situada na cidade polaca de Wroclaw, os cálculos são todos feitos “de cabeça” e o primeiro grande embate de Tom foi o facto de achar que todos os seus novos colegas eram fluentes numa linguagem [matemática] que ele desconhecia. Adicionalmente, o nível de rigor é incomparavelmente superior ao que Tom estava habituado nos Estados Unidos. As expectativas e o trabalho exigido são muito maiores, os professores anunciam, depois de cada teste, as notas em voz alta e no sistema de classificação (de 1 a 5), o 5 – o mais elevado – é raramente atingido. De acordo com o próprio Tom, ter um “A” (a nota mais alta do sistema norte-americano”) é infinitamente mais fácil nos Estados Unidos do que ter um 5 na Polónia.

Por seu turno, Kim, uma rapariga que cresceu no Oklahoma rural, rumou à Finlândia, convencida que ia encontrar uma espécie de “paraíso académico”, recheado de instalações futuristas e tecnologias de última geração. Errado. A escola que frequentou ao longo de um ano era antiga, com filas de velhas secretárias em madeira e um enorme e fora de moda quadro preto de ardósia. Sem iPads ou quadros interactivos à vista. E a resposta óbvia que recebeu à pergunta “mas por que motivo se preocupam vocês tanto com a escola?”, das colegas da cidade finlandesa de Pietsaari foi tão simples quanto “porque é a escola e não existe outra maneira para podemos ter boas notas, concorrer à universidade e arranjar um bom emprego”. Como comenta a autora do livro, rigor foi algo que a maioria dos norte-americanos nunca precisou. “A riqueza fez do rigor algo opcional e não obrigatório”, escreve, acrescentando que, entretanto, tudo mudou: “numa economia global e automatizada, os miúdos precisam de ser estimulados; precisam de saber como se adaptar, na medida em que terão de o fazer ao longo de toda a sua vida. Ou seja, todos precisam de uma cultura rigor”.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, poderia ter respondido Eric, que apanhou um choque profundo quando percebeu que os seus colegas, na escola sul-coreana que frequentou, aproveitavam todos os bocadinhos livres para dormitarem. Alguns levavam até pequenas almofadas, para melhor dormirem em cima das secretárias da sala de aula. Só mais tarde é que percebeu que os colegas estavam extremamente cansados, por passarem a noite toda a estudar, nas denominadas hagwon, um tipo de estabelecimento de ensino especializado em preparar os alunos para os testes e para os complexos exames de admissão à universidade, funcionando como um complemento às aulas “normais” que os alunos sul-coreanos têm durante o dia. No livro, Amanda Ripley entrevista igualmente Andrew Kim, o qual é por ela apelidado como o “professor dos quatro milhões de dólares”, na medida em que é docente numa  das mais prestigiadas e exigentes (e caras) hagwon de Seul, a capital, e na qual ganha uma verdadeira fortuna.

Ripley não deixa de elencar todas as desvantagens que encontra neste sistema de ensino demasiado “rigoroso”, chegando mesmo a apelidá-lo como uma “cultura de masoquismo educativo”. A pressão académica é absolutamente descontrolada – o que é do conhecimento tanto das autoridades governamentais como dos responsáveis educativos – mas a verdade é que o sistema serve tanto a pais como a filhos ambiciosos, que têm consciência que o exame final antes da universidade é crucial para um futuro próspero e bem-sucedido. Todavia, a autora garante que os alunos aprendem a lidar com ideias complexas, a pensar “fora da caixa”, a deixarem a sua zona de conforto e, mais importante que tudo o resto, a perceberem o valor da persistência. “Eles sabem o que é falhar e, por isso, sabem também como trabalhar mais arduamente e fazer melhor”.

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Professores bem preparados, respeitados e valorizados
Eis a variável que faltava para esta equação de sucesso: o papel dos professores. Comum aos países mais bem classificados no ranking do PISA é o facto de, em todos eles, os professores serem alvo de um rigoroso processo de selecção. Só os melhores dos cursos de preparação para a carreira docente são escolhidos – e mesmo estes têm de trabalhar arduamente para serem aceites como professores -, todos são extremamente respeitados e todos auferem salários elevados.

A Finlândia costuma ser amplamente citada no que a estas características diz respeito, mas nem sempre foi assim. Como conta Ripley, nos anos de 1970, a formação de professores na Finlândia era muito similar àquela que se vive hoje nos Estados Unidos (e não só): uma panóplia alargada de programas de formação, na sua maioria medíocres, níveis de exigência muito baixos para quem era aceite nestes programas e uma supervisão dos mesmos quase inexistente. Como parte de um movimento reformista da educação no país, o governo finlandês fechou muitos destes programas, elevou substancialmente os requisitos de entrada no sistema de ensino e gerou uma enorme controvérsia que durou vários anos. Mas que acabou por funcionar e por dar início a um ciclo verdadeiramente virtuoso. Aos professores mais bem preparados e formados foi dada uma maior autonomia, o que elevou os seus níveis de satisfação e, consequentemente, o nível de ensino e os resultados dos alunos.

Algo parecido aconteceu na Polónia, mas a um nível ainda mais surpreendente. Antes do ano 2000, metade dos adultos da Polónia rural não tinha mais do que o correspondente ao ensino primário português (o actual 1º ciclo). Actualmente, os seus alunos têm classificações bem superiores comparativamente aos Estados Unidos, ao Reino Unido, à França, à Alemanha, à Dinamarca ou a Portugal. E com gastos bem inferiores por aluno (face aos Estados Unidos).

A autora confere o crédito deste progresso surpreendente a Miroslaw Handke, antigo ministro da educação polaco. Quando assumiu o cargo, em 1997, a economia estava a crescer, mas os polacos pareciam estar destinados a ficar com os trabalhos pouco qualificados que os seus pares europeus simplesmente não queriam. E foi então que lançou um programa de reformas educativas “épico”, nas palavras de Ripley, reformulando por completo as escolas, os currículos e o sistema de avaliação, com testes estandardizados. Todavia, como também explica Ripley no seu livro, a sua mudança mais eficaz foi a de ter esperado, e exigido, um trabalho árduo de todos os alunos. Handke decidiu manter todas as crianças polacas na mesma escola até que estas completassem 16 anos (o equivalente à escolaridade obrigatória), adiando o momento em que muitas delas teriam de seguir cursos profissionalizantes. Hoje em dia, os bons resultados no PISA demonstram que é possível transformar jovens supostamente “não-académicos” em alunos com notas brilhantes.

Ainda no que respeita aos objectivos do PISA e de acordo com Andreas Schleicher, o “cientista educacional” que desenhou este programa internacional de avaliação de alunos, se a maioria dos testes e exames, um pouco por todo o mundo, quantificam a capacidade dos estudantes para memorizar diferentes tipos de matéria, os testes que incluem o PISA têm como objectivo determinar a sua eficácia na resolução de problemas.

De qualquer das formas, e apesar de os alunos portugueses terem vindo a melhorar, ainda que ligeiramente, a sua prestação nos testes do PISA, são várias as vozes que apelam para uma alteração nos currículos, que propicie esta resolução de problemas – e não só de matemática –, uma tendência reconhecida internacionalmente como crucial para a adequação dos alunos à “vida moderna” e obrigatória para uma transição mais adequada para o mercado de trabalho.

De realçar igualmente que, apesar de este livro nos oferecer matéria suficiente para uma boa reflexão, em conjunto com sinais de esperança para um melhor futuro para a educação nacional – provado que está que o mesmo é possível – não é de todo adequado comparar a cultura nacional com as culturas de outros países, nomeadamente com as dos países asiáticos que ocupam os lugares cimeiros neste ou em rankings similares. Para tal seria preciso introduzir uma mudança radical na sociedade portuguesa, a qual não seria, decerto, aquela que queremos para o nosso país.