Num contexto “de muitas incertezas e contestação do ponto de vista social”, que importância tem o espírito empreendedor na superação da crise e do desemprego? Os resultados de um Relatório Europeu de Empreendedorismo, ainda não publicado, revelam que 70% dos jovens participantes mostram uma atitude muito positiva perante a possibilidade de criar o seu próprio emprego. Mas a mesma maioria tem receio de arriscar e precisa de apoios públicos e de formação em gestão, para alavancar negócios. Em entrevista, a porta voz da empresa responsável pelo estudo adianta que o mesmo vai ser realizado em Portugal, no 3º trimestre de 2012
POR GABRIELA COSTA

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A crescente atitude positiva dos Europeus face ao empreendedorismo e à criação do seu próprio emprego é uma das principais conclusões do Relatório de Empreendedorismo Europeu de 2011, promovido pela Amway Europe junto de mais de 13.500 pessoas, em doze países da União Europeia.

O estudo apresentado a 8 de Maio, no Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa, no âmbito de um Encontro sobre Empreendedorismo e Valorização Pessoal, vai ser realizado em Portugal no final do 3º trimestre de 2012, prevendo-se uma apresentação oficial dos resultados “ainda no final deste ano, depois de preparadas todas as conclusões”.

Organizado pela Amway e desenvolvido com o apoio da empresa de estudos de mercado GfK Research Nuremberg e do LMU Entrepreneurship Center, da Universidade Ludwig Maximilians de Munique, o inquérito a efectuar terá “uma abrangência muito vasta, tal como tem acontecido nas duas últimas edições”, incluindo indivíduos de todo o território nacional, de ambos os sexos, e com diferentes idades e graus de instrução, adiantou ao VER a organização.

Europeus não arriscam por dinheiro
Nesta segunda edição dedicada essencialmente aos prós e aos contras da criação do próprio emprego, o Relatório de Empreendedorismo Europeu 2011 (cuja publicação está prevista para o final da próxima semana) revela que, em média, mais de 1/3 dos participantes “afirmam veemente que se imaginam a criar o seu próprio negócio”. Esta atitude “é evidente sobretudo junto dos mais novos, entre os 14 e os 29 anos de idade”: 80% dos inquiridos nesta faixa etária mostraram esta tendência para o empreendedorismo.

A Amway tem vindo a observar um crescente interesse e potencial para o Empreendedorismo em toda a Europa, segundo a porta-voz da empresa, Monica Milone. Prova disso são os 72% de inquiridos no âmbito deste relatório que asumem uma atitude positiva relativamente à criação do seu próprio emprego.

Mas esta vontade de empreender “é vencida pelo receio de não se ter sucesso, principalmente pela falta de conhecimentos de âmbito económico e pela falta de aptidões”, conclui o estudo. A carência de iniciativas ligadas ao empreendedorismo e a falta de apoio de entidades públicas são os principais constrangimentos apontados pelos participantes do relatório anual da empresa mundial de venda directa.

A independência face a um empregador e a realização pessoal são os aspectos mais apelativos do empreendedorismo, conclui também este estudo europeu. De resto, o dinheiro não é uma das principais razões apontadas para se arriscar na criação do próprio emprego. Pelo contrário, as potenciais gerações de empreendedores europeus valorizam principalmente a possibilidade de independência, de concretização das suas próprias ideias e de conciliação da vida familiar com a carreira profissional.

Para os europeus é consensual que a educação e a formação são factores relevantes para qualquer actividade empreendedora. Cerca de 70% dos indivíduos que responderam ao Relatório de Empreendedorismo Europeu concordam com esta realidade e, “acreditam que deveriam existir mais programas educacionais e de carácter público”, direccionados para quem pretende iniciar o seu negócio.

Independentemente das ofertas existentes nos mercados analisados, cerca de 50% dos participantes admitem “não estar bem informados” sobre as oportunidades de formação existentes para empreendedores, “possivelmente por falta de informação e comunicação” por parte das entidades promotoras.

O Relatório de Empreendorismo Europeu 2001, promovido pela Amway Europe, realizou-se, entre Agosto e Setembro de 2011, em doze países europeus (Alemanha, Áustria, Dinamarca, Espanha, França, Grã-Bretanha, Itália, Polónia, Rússia, Suíça, Turquia e Ucrânia).

O estudo, desenvolvido com o apoio da empresa de estudos de mercado GfK Research Nuremberg e com o apoio do LMU Entrepreneurship Center, da Universidade Ludwig Maximilians de Munique, pretende dar a conhecer as tendências europeias para o empreendedorismo, assim como os prós e os contras da criação do próprio emprego.

“Os jovens não sabem como empreender, esse é o maior entrave”
Em entrevista ao VER, Monica Milone, Amway Corporate Affairs Manager Europe, sublinha que a amostra deste estudo revela que a grande motivação das potenciais gerações de empreendedores que podem contribuir para o combate ao desemprego e a coesão social na Europa não é o dinheiro. Quem deseja tornar-se empreendedor valoriza principalmente “a autonomia para o desenvolvimento do trabalho”, bem como “a vontade de querer realizar-se profissionalmente”, diz.

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Monica Milone, Amway Corporate Affairs Manager
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Qual é a importância de avaliar o empreendedorismo numa Europa em crise profunda?
Neste contexto actualmente difícil, de muitas incertezas e contestação do ponto de vista social, a Amway foi quis reflectir sobre o tema do empreendedorismo, o espírito empreendedor e a sua importância na superação da crise no desemprego.

Com a realização deste estudo notámos que mais de 70% dos jovens participantes que responderam ao inquérito (dos 14 anos 29 anos de idade) têm uma atitude positiva perante a criação do próprio emprego, o que é fantástico.

Para além desta percentagem, salientamos também o feedback dos participantes, relativamente ao dinheiro: os inquiridos indicaram outras motivações para se tornarem empreendedores e sublinho principalmente a autonomia para o desenvolvimento do trabalho, sem estar sujeito à autoridade de uma entidade patronal.

Outras motivações apresentadas pelos europeus neste estudo foram a vontade de querer realizar-se profissionalmente, assim como a segurança de que poderão oferecer produtos e serviços de qualidade ímpar e que sejam uma mais-valia para a sociedade.

O velho continente está finalmente disposto a arriscar em inovação?
Este estudo revela-nos de facto, que a vontade para os europeus empreenderem é muita, mas também é muitas vezes vencida pelo receio de não se ter sucesso… E este receio resulta de uma falta de conhecimentos de âmbito económico, como também da falta de aptidões das próprias pessoas que querem empreender.

O maior entrave ao empreendedorismo não é desânimo nem desinteresse por parte dos jovens, é o facto de não saberem como empreender. Para além das burocracias envolvidas no processo e a dificuldade em recorrer a créditos.

O que é necessário fazer para superar esses constrangimentos?
É importante que se multipliquem iniciativas ligadas ao empreendedorismo e que o apoio das entidades públicas e privadas se torne mais visível. Na actividade da Amway, por exemplo, é possível iniciar um negócio sem investimento financeiro relevante, para além do facto que existem formações específicas de vendas, totalmente gratuitas e, que podem ser benéficas para qualquer actividade comercial.

A escassez de iniciativas empreendedoras e a falta de apoio foram os principais factores negativos apontados neste estudo anual sobre mercado e tendências de empreendedorismo, e é de facto nisto que devemos investir, na formação das pessoas que mostrem interesse em empreender.

Que resposta à crise poderão dar os jovens empreendedores europeus?
A importância dos empreendedores para o desenvolvimento da economia é muito grande, tanto pelo contributo que poderão dar à criação de emprego e geração de riqueza, como pelo contributo para a inovação nacional.

Notamos um crescimento do número de empreendedores anualmente, pelo menos no caso da Amway, que celebrou agora vinte anos de actividade em Portugal, e que tem presentemente mais de quatro mil empresários independentes. Pode não parecer um número muito expressivo no contexto de uma marca internacional, mas é um número que está alinhado com a dimensão do mercado português.

Esta tendência para o empreendedorismo, principalmente entre os mais jovens, é um sinal de esperança na capacidade de inovação, de iniciativa e na revitalização económica. Não tenho dúvida que é a resposta à crise que atravessamos, mas é importante que o Estado, as entidades públicas, e as privadas desempenhem um papel pedagógico e criem condições para que os empreendedores se revelem e, sejam eles as principais molas do desenvolvimento.

É relevante disponibilizar informação e meios para que se saiba como diminuir o risco de insucesso. Quanto mais bem informado e preparado estiver o empreendedor, menor será, seguramente, o desperdício de recursos financeiros na criação de start-ups.

A Próxima Geração de Empreendedores

Europeus com uma atitude positiva perante Empreendedorismo

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    A criação do próprio emprego tem uma reputação maioritariamente positiva na maioria dos países europeus. Em média, mais de 2/3 das pessoas entrevistadas, dos onze países participantes no estudo europeu (72%), mostraram uma atitude positiva em relação ao empreendedorismo. Número que representa um aumento de 3%, comparativamente ao estudo realizado o ano passado.

  • Dos onze países que participaram no estudo, a Dinamarca (88%), a França (76%) e o Reino Unido (72%), foram os que mostraram uma atitude mais positiva em relação à criação do próprio emprego. Já a Turquia (65%) e a Alemanha (61%) foram os que menos interesse mostraram na temática.
  • Tendo em conta o potencial de empreendedorismo na Europa, mais de 1/3 dos participantes (39%) imagina-se a criar o seu próprio negócio. Independentemente da situação económica actual e dos problemas financeiros que alguns países europeus possam enfrentar, este potencial permanece num nível constante em relação ao estudo de 2010.
  • Os Suíços (51%), os turcos (50%) e os italianos (42%) foram os participantes que mostraram mais interesse em iniciar o seu negócio, contrariamente aos ucranianos (35%) e aos alemães (27%), que consideraram pouco provável tal situação acontecer.

Nova geração de Empreendedores: Adolescentes e Jovens Adultos

  • Na Europa, o espírito empreendedor mostrou-se particularmente vasto em participantes com idades compreendidas entre os 14 e os 19 anos de idade. 80% dos inquiridos desta faixa etária afirmou ter uma atitude positiva em relação ao empreendedorismo. Quanto à possibilidade de se imaginarem a iniciar o seu próprio negócio, 50% respondeu de forma positiva.
  • Os jovens participantes naturais da Dinamarca (92%), Reino Unido (89%), Áustria e Suíça (85%), e Itália (84%) foram os que apresentaram uma disposição mais positiva, ao contrário dos jovens franceses, que este ano foram os que menos interesse mostraram em relação à oportunidade de criação do seu próprio emprego.

Independência e realização pessoal são aspectos mais apelativos

  • Para os participantes deste estudo europeu, o dinheiro não foi uma das razões apontadas para arriscarem na criação do seu próprio emprego. Um dos factores mais importantes para iniciarem o seu próprio negócio é a relevância da realização pessoal (40%), incluindo o facto de se tornarem independentes de uma entidade empregadora (47%) e concretização das suas próprias ideias.
  • 25% dos inquiridos salientaram o facto de poderem conciliar a vida familiar e o lazer com a sua carreira profissional, como um dos principais motivos para arriscar no empreendedorismo. Este aspecto é particularmente apelativo para os austríacos (36%), para os dinamarqueses e, para os suíços (ambos com 32%).

Privação de conhecimento e aptidões diminuem o entusiasmo

  • Muitos europeus têm receio em iniciar o seu próprio negócio pois sentem que não têm o enquadramento económico suficiente para o fazer. 40% dos europeus assume que a ausência de conhecimentos deste âmbito, é suficiente para terem receio e não quererem apostar num negócio próprio. Os alemães (48%), os polacos e os espanhóis (46%) foram os participantes que mais contestaram a ausência de conhecimentos e de informação económica.
  • Mais de 36% dos inquiridos tem dúvidas sobre suas capacidades pessoais e saberes e, não se sentem bem preparados para serem empreendedores. Os países participantes que mostraram sentir-se menos preparados foram a Turquia (55%) e a França (47%).

Europeus exigem mais informação e formação

  • Para os europeus é consensual que a educação e a formação são factores relevantes para qualquer actividade empreendedora. Em média, 68% dos respondentes ao inquérito concordam com esta realidade, principalmente os suíços (83%) e os espanhóis (74%). Mas apenas 3% dos turcos afirmam que a formação é de facto relevante para empreender.
  • A maioria dos europeus, 68%, afiança que deveriam existir mais programas educacionais, de carácter público, para quem pretende iniciar o seu negócio. Os países que mais exigiram esta condição foram a Espanha e a Ucrânia (73%), seguidos da Itália (69%).
  • Independentemente das ofertas existentes em cada mercado, 46% dos inquiridos acredita não estar bem informado sobre oportunidades de formação para empreendedores, nomeadamente os participantes alemães (58%), os espanhóis (55%) e os franceses (53%). Os países que indicam estar bem informados são a Suíça, a Áustria e a Turquia.

Europeus reconhecem o empreendedorismo como algo familiar

  • A harmonia entre a família e a carreira profissional é reconhecida como uma condição importante para os europeus. Em média, 71% dos inquiridos afirma que este equilíbrio é efectivamente essencial para a sua vida.
  • Contudo, há opiniões muito diferentes em relação aos inquiridos: a Áustria (87%) e a Suíça (84%) são os países que mais valorizaram este contexto, contrariamente à Turquia, onde apenas 2% dos inquiridos considera importante conciliar a família e o trabalho.
  • Para a maioria dos participantes, o empreendedorismo é compreendido como um modelo familiar de trabalho, principalmente para os que têm filhos (76%). Contudo, os inquiridos que não têm crianças também mostraram uma atitude positiva em relação a este modelo (71%). A criação do próprio emprego parece ser muito apelativa para as pessoas que têm descendentes: 42% consideram mesmo uma provável alternativa de trabalho.

 

Gabriela Costa

Jornalista