O SPEAK, start-up que promove a integração social de refugiados nas suas cidades de acolhimento, dinamizando grupos de línguas e culturas nos quais os participantes podem aprender e ensinar simultaneamente, está a lançar um programa para que migrantes, empreendedores e organizações criem o seu próprio negócio social (associado a uma campanha de crowdfunding de um grupo de sete aventureiros – os Desert Sailors -, que conta com o apoio da Google). Em entrevista, o CEO do projecto, Hugo Menino Aguiar, sublinha a importância de pôr uns e outros a falar a mesma língua,numa altura em que “a Europa e o mundo precisam de soluções eficazes para juntar pessoas” e “quebrar preconceitos”
POR GABRIELA COSTA

O SPEAK é uma resposta para pessoas migrantes e refugiadas, que se tem destacado em Portugal como solução de integração das mesmas, pela forma como quebra estigmas, promove a igualdade e cria redes de suporte informal entre os participantes. Presente em sete cidades portuguesas e também em Turim (Itália), Madrid (Espanha) e Berlim (Alemanha), este projecto de inovação social reúne já uma comunidade de cerca de 14 mil pessoas de mais de 130 países, que participam nos seus programas de intercâmbio de línguas e culturas.

Segundo Hugo Menino de Aguiar, os resultados dessa participação em cursos de línguas e eventos interculturais, durante apenas 12 semanas, traduzem-se numa redução de 30% das barreiras linguísticas; numa melhoria de 15% ao nível do sentimento de pertença à comunidade local; e num aumento de 40% quanto à sensação com que os migrantes ficam relativamente à valorização da sua cultura pelos outros.

Segundo o co-fundador e CEO do SPEAK “os participantes não só quebram a  barreira do idioma, como desconstroem preconceitos e mal entendidos e promovem a compreensão e colaboração” na sociedade em geral.

Que balanço faz do programa SPEAK no que respeita aos objectivos de quebrar a barreira linguística e os preconceitos culturais e facilitar uma rede de apoio aos migrantes e refugiados no seu país de acolhimento?

Hugo Menino Aguiar, co-fundador e CEO do SPEAK – © Ricardo Graça

O SPEAK é uma start-up tecnológica com o objectivo de promover a integração social de migrantes e refugiados nas suas cidades de acolhimento, facilitando a criação de laços com pessoas locais através do intercâmbio de idiomas e culturas.

Para atingirmos a nossa missão, implementamos grupos de línguas e culturas nos quais os participantes podem estar a aprender uma nova língua e cultura num grupo e a ensinar a sua noutro grupo. Durante as 12 semanas do programa, os participantes não só quebram a  barreira do idioma, como se conhecem uns aos outros, desconstroem preconceitos e mal entendidos, fazem novas amizades e promovem a compreensão e colaboração na comunidade em geral.

No SPEAK, medimos três dimensões fundamentais que contribuem para a inclusão social de migrantes e refugiados: o sentimento de pertença, o domínio da língua local e a valorização da sua própria cultura. De acordo com esta avaliação de impacto, os resultados, medidos após 12 semanas de participação em cursos de línguas e eventos interculturais, são:

– Melhoria de 15% do sentimento de pertença à comunidade local;

– Redução das barreiras linguísticas em 30%;

– Aumento de 40% no que respeita à sensação que a sua cultura é valorizada pelos outros.

Na realidade, o que mais demonstra o impacto do SPEAK são as histórias que vamos conhecendo, como a da Fattema e do Naki (entre muitos outros).

A Fattema veio para Portugal da Líbia com a sua família. Quando chegou, não conhecia ninguém, não falava português nem conhecia pessoas que falassem árabe. No SPEAK, ajudou pessoas locais a aprenderem árabe e aprendeu português com eles. Fez amigos e ainda conheceu uma pessoa com a qual iniciou um pequeno negócio. Hoje  em dia, a Fattema continua a ter um papel activo em ajudar outros, como por exemplo um casal de refugiados sírios que acompanha ao curso SPEAK para que possam melhorar o seu português, apoiando-os ainda no acesso a cuidados de saúde e outros serviços públicos.

O Naki  é togolês e chegou a Portugal vindo de Espanha (país onde vivia). Não falava português e não conhecia ninguém, não tinha amigos em Lisboa. Descobriu o SPEAK através do couchsurfing e juntou-se para partilhar a sua cultura e a língua francesa. No SPEAK aprendeu também português e até conheceu a sua namorada, a Soraia, que ensina português no SPEAK.

Quantos participantes e quantos idiomas reúne já o projecto, e em quantas cidades e países?

Para além de estar em sete cidades do território nacional com uma resposta para pessoas refugiadas, oficialmente o projecto também está em Turim (Itália), Madrid (Espanha) e Berlim (Alemanha).

Este ano estamos a lançar o programa “Leva o SPEAK para a tua cidade”, que permite que migrantes, empreendedores sociais ou organizações criem o seu próprio negócio social, enquanto ajudam a transformar a sua cidade num espaço que valoriza e potencia a diversidade cultural. A Khouloud, da Síria, a Valeria, do México e o Município de Amarante já abriram o seu próprio SPEAK em Braga, Aveiro e Amarante, respectivamente.

[quote_center]O que mais demonstra o impacto do SPEAK são as histórias que vamos conhecendo[/quote_center]

A nossa comunidade tem hoje cerca de 14 mil pessoas de mais de 130 países. No ano de 2017, mais de 6 mil participaram em eventos SPEAK e 1900 em grupos de intercâmbio de línguas e culturas.

Para que áreas e projectos estão a canalizar os financiamentos recolhidos pelo programa?

Num momento em que o impacto social do SPEAK já tinha sido validado em Portugal, e numa altura em que também a Europa e o mundo precisam de soluções eficazes para juntar pessoas de diferentes origens e culturas, de forma a quebrar preconceitos e estereótipos, é isto que nos move: conseguirmos escalar o impacto e chegar a mais pessoas.

O Fundo Bem Comum, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Fondazione CRT entraram no projecto num momento fundamental para que o SPEAK conseguisse crescer de forma mais rápida do que sozinhos conseguiríamos, e é nisso que estamos a investir o financiamento. Estas organizações acreditam no crescimento internacional e no potencial do projecto impactar mais pessoas.

O nosso objectivo com este financiamento é testar a solução a nível europeu e validar que é possível conseguirmos escalar impacto e ajudar mais pessoas, garantindo que nos adaptamos às especificidades de cada cidade.

Em que consiste o crowdfunding do Desert Sailors e como está a decorrer a campanha em que a Google irá doar um euro por cada euro angariado para ajudar duas pessoas refugiadas a iniciarem o seu projecto? Quais são as vossas expectativas quanto ao montante a angariar?

Em tempos de angústia e preocupação com o que se passa no mundo e a forma como esta onda de refugiados está a ser acolhida na Europa, muitas pessoas se perguntam como podem ajudar e contribuir para resolver este problema. Tivemos a oportunidade de ter os Desert Sailors, um grupo de sete aventureiros que fará o percurso Portugal-Mongólia, a escolherem o SPEAK como organização a quem vão doar o dinheiro.

[quote_center]O objectivo é testar a solução a nível europeu e validar que é possível escalar impacto e ajudar mais pessoas[/quote_center]

Já vamos a meio do valor que queremos alavancar, 20 mil euros, o que nos irá permitir ajudar a Khuloud e outra pessoa a lançarem o SPEAK na sua cidade. Ou seja, vamos apoiar dois empreendedores alinhados com a missão do SPEAK, que terão oportunidade de colocar as suas próprias experiências de integração ao serviço da comunidade que os acolheu. Ao mesmo tempo, trazem consigo um efeito multiplicador, na medida em que estarão a promover a inclusão social de tantas outras pessoas, envolvendo a sociedade local nesse caminho de criar impacto social positivo na vida das pessoas.

Claro que qualquer apoio é bem-vindo, e será uma excelente forma de todos poderem fazer parte deste processo. O valor mínimo são cinco euros, o que torna acessível o contributo a qualquer pessoa.

Khuloud (ao centro), Fundadora do SPEAK Braga, num evento do SPEAK – © SPEAK

Como comenta a história de coragem de Khuloud, uma empreendedora da Síria que acaba de levar o SPEAK – projecto de integração de migrantes para a sua cidade, Braga?

A Khuloud veio para Portugal com a plataforma de apoio aos estudantes Sírios num momento em que a sua faculdade estava a ser afectada pela guerra. Quando chegou ao Porto, onde estudou, encontrou vários desafios, tais como a língua, perceber a cultura, sentir-se parte da cidade e fazer novas amizades. Nesta fase difícil, fez sempre a escolha que a colocava mais perto do sentimento de integração. Escolheu fazer o mestrado em português, rodeou-se de pessoas que a podiam ajudar, juntou-se a grupos de voluntariado para ser ela a ajudar outras pessoas e procurou todas as oportunidades que a deixassem mais próxima de criar o seu próprio lugar e a sua própria pertença ao país que a acolheu.

Hoje, a Khuloud vive em Braga, onde, nas suas próprias palavras, tem “uma rede de amigos espectacular. Gosto de viver em Portugal. Sinto-me bem na minha comunidade. Tenho amigos, falo bem a língua. Aqui sinto-me em casa.”

A Khuloud tem a experiência de chegar a uma nova cidade em circunstâncias de vulnerabilidade. Hoje, ela quer ajudar outros a sentirem-se também em casa como ela se sente. Esta história é muito bonita! Estamos orgulhosos de ter a Khuloud a levar o SPEAK para Braga, é uma inspiração para a equipa e a ilustração perfeita dos nossos ideiais e da nossa confiança na capacidade das pessoas para serem agentes de mudança nas comunidades.

A Khuloud sabe o que lhe fez falta na sua integração e ao mesmo tempo acredita que é possível qualquer pessoa se sentir em casa na cidade onde vive, e é isso que a move  e faz querer assumir a responsabilidade do SPEAK em Braga.

O que pode adiantar sobre o segundo projecto a apoiar com esta campanha de crowdfunding?

O SPEAK irá abrir candidaturas de forma a identificar uma pessoa refugiada que acredite e sinta a sua missão, tenha algumas competências necessárias num empreendedor e, claro, tenha vontade de lançar um projecto próprio.

Gabriela Costa

Jornalista