Mais do que apenas palavras, a escrita da poesia contém uma musicalidade que me é completamente fascinante. Cada palavra parece ter um som associado que se modifica conforme o contexto do verso, o que torna o poeta num alguém que escuta. Por isto, «compor um poema» faz-me mais sentido do que «escrever um poema». Esta ligação à música e aos sons que fazem as palavras ressoar tem uma espécie de sabor de essência do que a poesia realmente é
POR MARGARIDA TEIXEIRA DE SOUSA

No dia 6 de Novembro, Sophia de Mello Breyner Anderson teria celebrado 103 anos de vida.

Fui, desde miúda, uma entusiasta do desporto, pelo que a leitura e a escrita não me fascinavam. Num dia, e por acaso, abro Cem Poemas de Sophia. Foi uma daquelas ocasiões que ficam para a vida, pois e a poesia passou a fazer parte dos meus dias até hoje. Um gosto tardio, mas marcante e luminoso, tal como Sophia quando li os seus primeiros poemas.

Desde então a vocação pela escrita tem vindo a ser uma confirmação, e com a modéstia deste texto quero transmite-lhe a minha gratidão, por esta expressão de quem transporta liberdade nos gestos, nas palavras e no pensamento. 

E «Como conciliar (….)  as capacidades de contemplação e admiração que conduzem à sabedoria?» (56, Gaudium et spes), tão próprias da narrativa de Sophia?

Mais do que apenas palavras, a escrita da poesia contém uma musicalidade, para mim completamente fascinante. Cada palavra parece ter um som associado que se modifica conforme o contexto da frase, o que torna o poeta num alguém que escuta. Por isto, «compor um poema» faz-me mais sentido do que «escrever um poema». Esta ligação à música e aos sons que fazem as palavras ressoar tem uma espécie de sabor de essência do que a poesia realmente é.

A obra de um artista vai ajudar a conhecer o seu pensamento e a sua forma de estar na vida criando (54, Gaudium et spes) «novas formas de cultura de que resultam novas maneiras de sentir e de agir», e que esta nova forma de Sophia veio enriquecer a cultura numa substância do tempo marcada sempre pela actualidade. Tal como Jesus (58, Gaudium et spes), «múltiplos laços existem entre a mensagem de salvação e a cultura humana. Deus, com efeito, revelando-se ao seu povo até à plena manifestação de Si mesmo no Filho encarn,ado falou segundo a cultura própria de cada época». (Também a propósito do «Ele» ou do «Tu» referindo-se a Deus nos seus poemas).

De facto, beleza, inteireza, coragem, simplicidade, luz, eram palavras que surgiam dos seus poemas. 

Era a verdade e a força do mar largo

Cuja voz, quando se quebra, sobe,

Era o regresso sem fim e a claridade

Das praias onde a direito o vento corre

– Paisagem, Poesia I

A poesia era vivida por Sophia como o «Verbo», o sinal vivo de uma pátria anunciada. Escrever acabava também por ser a sua forma de participação política. 

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo.

– 25 Abril, O Nome das Coisas

Ela, que pendurou palavras na ponta das espingardas para chamar «velho abutre» ao ditador, numa denúncia política corajosa, com um pequeno poema faz um retrato de Salazar:

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas

A podridão lhe agrada e seus discursos

Têm o dom de tornar as almas mais pequenas.

São de Sophia os primeiros emblemáticos poemas sobre a revolução libertadora e da sua escrita de intervenção durante o Estado Novo. Uma poesia que sempre foi mais do ver e do olhar e menos do eu. 

«Ela que usou de pontaria certeira na Assembleia Constituinte, onde lembrou que só haveria liberdade se houvesse justiça e que um Portugal mais justo passava por um Portugal mais culto, não apenas um país de intelectuais nas suas torres de marfim, mas também de pescadores e artesãos que guardam a verdade das coisas (…) Ela que apontou o dedo aos que tinham as mãos sujas do mundo» – Isabel Nery

Dizia também o poeta e seu amigo Manuel Alegre «Estar com Sophia foi sempre uma espécie de celebração». E assim, nos seus 100 anos, Manuel Alegre escreveu-lhe este maravilhoso poema:

Uma atenção tão concentrada que

Parece distracção ou mesmo ausência.

Navegação abstracta e a exigência de

Conjugar o concreto e a imanência.

Ela colhe no ar a maravilha

Depois diz a safira o mar a duna

Procura o oriente o azul a ilha

O seu conto a reúne: única e una.

E por isso o seu gesto é como asa

Onde há a Koré grega e grafia

De quem junta os sinais e os sons dispersos.

E o seu poema é quase como casa

E a casa é o outro espaço onde Sophia

Reparte à sua mesa o pão e os versos.

Sinto os poemas de Sophia como um sinal de esperança, além da celebração que representam. De uma cultura que não é estática, mas dinâmica e viva. «De quem por acaso remexe num baú antigo, e do fundo falso, encontra os mais antigos cadernos de poemas seus». Uma luz que vai guiando e se renovando ao longo dos tempos, e que «por isso em cada gesto ponho / solenidade e risco».

Crédito da foto: Eduardo Gageiro

MARGARIDA TEIXEIRA DE SOUSA

Licenciada em Gestão e Mestrado em Empreendedorismo e Inovação Social. Trabalha na ACEGE

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