O economista João Gil Pedreira acredita que famílias, empresas e Estados “prestam vassalagem ao novo soberano que responde pelo nome de ‘dívida’” e que é urgente resgatar as famílias e as empresas – em detrimento dos bancos e do Estado – “não apenas do sobreendividamento crónico, mas das prisões económicas, financeiras, humanas, mentais, e espirituais desse mesmo sobreendividamento”. Em entrevista ao VER e no seguimento do lançamento de um livro sobre esta temática, o autor explica como é possível fazê-lo
POR HELENA OLIVEIRA

“Por que motivo estaremos nós a resgatar bancos e Estados, reestruturando a economia para servir os interesses da dívida e não estaremos antes a resgatar a economia (famílias e empresas), reestruturando os Estados e os bancos para servir o bem comum?” Esta é questão-chave e o ponto de partida do livro do economista João Gil Pedreira “Resgate das Famílias e Empresas do Sobreendividamento Crónico: o fim do princípio da crise” que defende um novo paradigma que passa, em primeira instância, pela criação e desenvolvimento de uma consciência sistémica que tenha como principal objectivo “salvar” as famílias e as empresas de um sobreendividamento crónico, com vista a relançar a economia do mundo ocidental e apostar num ciclo virtuoso de solvabilidade, sustentabilidade e desenvolvimento.

Sendo a dívida personificada como um “inimigo comum”, como uma espécie de escravatura dos tempos modernos, na qual “famílias, empresas e Estados prestam vassalagem ao novo soberano que responde pelo nome de ‘dívida’”, João Gil Pedreira oferece uma perspectiva em tom “bélico” onde as tropas deverão, nesta guerra moderna entre devedores e credores, unir-se para combater o seu inimigo comum – a dívida. O autor defende não só uma nova óptica de resgate para as famílias e as empresas, mas também uma mudança de fundo na banca, a qual deverá repensar criteriosamente não só a sua estratégia, como também a sua missão ou propósito. Em entrevista ao VER, o autor fala das suas “tácticas” para se evitar ou, pelo menos mitigar, o flagelo que actualmente caracteriza não só a economia nacional, como também a europeia

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João Gil Pedreira  – Licenciado em
Economia, pela UCP, tem desenvolvido
a carreira na área de consultoria
estratégica (banca, seguros e
telecomunicações), sendo fundador da
Bridges Advisors, entidade que se dedica
ao aconselhamento na área do
empreendedorismo económico,
sustentável e social

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O subtítulo do seu livro acaba por emitir um sinal de esperança, de retoma, de um novo caminho que pode ser trilhado para este “mundo sobreendividado”. Que sinais identifica para afirmar que estamos no “fim do princípio da crise”?
Segundo o meu entendimento, o “fim do princípio da crise” dar-se-á com o alargamento de um estado de consciência, que nos voltará a aproximar daquilo que é real e que nos voltará a colocar em sintonia com um propósito para as nossas vidas. Os sinais que identifico prendem-se com o despertar e o desenvolver dessa consciência nas mais diversas áreas do saber, desde a economia, às finanças, ao ambiente, à alimentação, à agricultura, entre tantas outras mais.

Como se reestrutura a “Velha Europa” tendo em conta as “Novas Europas”, expressão repetida no livro?
Pela criação e pelo desenvolvimento de consciência sistémica nos seus padrões de consumo, decidindo diariamente quais os modelos políticos, económicos, sociais, financeiros com os quais se identifica, nos seus padrões de poupança, decidindo onde “guardar” as suas economias e quais as realidades que quer ver criadas através da canalização dessas mesmas poupanças, nas suas formas de relacionamento enquanto entidades económicas dentro de um mesmo ecossistema, voltando a identificar a relação entre as entidades como elemento central da criação de valor, entre tantos outros exemplos, onde a consciência sistémica desempenhará um papel fundamental, nomeadamente na identificação de qual o propósito, ou qual a intenção, dos pensamentos, actos e omissões da “Velha Europa”, deixando-a posteriormente decidir por onde quer ir, agora em pleno uso do seu Livre Arbítrio. Sem se aproximar dessa consciência, a “Velha Europa” encontrar-se-á prisioneira de “velhos” padrões de pensamento e de entendimento, que a arrastam por caminhos bastante dolorosos.

Cita, logo no primeiro capítulo do seu livro, o Livro dos Provérbios, nomeadamente “o que pede emprestado, fica escravo do credor”. É assim que perspectiva o mundo das famílias, empresas e Estados sobreendividados, como a escravatura dos tempos modernos?
Sem sombra de dúvida. Antes de tomar qualquer decisão, famílias, empresas e Estados prestam vassalagem ao novo soberano que responde pelo nome de “dívida”. Este novo modelo de escravatura, esta nova forma de guerra, entre o Livre Arbítrio e o controlo absoluto é, acima de tudo, algo que coloca em causa a liberdade do exercício da vontade da alma humana e, como tal, terá de ser entendido e consciencializado como uma forma de escravatura, e daí a necessidade de resgatarmos as nossas famílias e as nossas empresas, não apenas do sobreendividamento crónico, mas das prisões económicas, financeiras, humanas, mentais, e espirituais desse mesmo sobreendividamento.

Defende que, para abolir esta escravatura e chegar à liberdade, quebrando os ciclos viciosos e viciados do sobreendividamento, é necessário ter como princípios orientadores a consciência e a sustentabilidade. O que o leva a ser tão optimista, visto que os comportamentos arreigados são os mais difíceis de os mudar? E como começar esta mudança?
A minha esperança vem do meu acreditar em Deus, num Deus que se revela ao homem nos seus piores momentos, abrindo-lhe um caminho onde dantes só existia um imenso mar revolto, dando-lhe de comer onde dantes só existia areias e deserto. E a mudança começa quando nos predispomos a ouvir a Sua voz bem dentro de nós. Como São Pedro de Alcântara menciona no seu maravilhoso Tratado da Oração e da Meditação “estavas dentro de mim e eu andava a buscar-te fora!”. É só ouvi-Lo, responder ao Seu chamamento bem lá no fundo e a mudança começa nesse mesmo instante. Tolstói descreve esse “começar” de uma forma sublime na “Morte de Ivan Ilitch”.

Na guerra moderna que identifica, entre devedores e credores, propõe um plano de acção ou, uma táctica para vencer o “inimigo-dívida”. Que estratégia propõe e até que ponto estarão as tropas preparadas para levar a cabo esta batalha?
A estratégia começa por se inverter a lógica que estamos a seguir – por que haveremos de continuar a resgatar bancos e Estados, reestruturando a economia para servir os interesses da dívida, e não estaremos antes a resgatar as famílias e as empresas, reestruturando os bancos e os Estados para servir o bem comum? Acredito que, dia após dia, as tropas entendem que o caminho que se está a seguir não nos levará a bom porto, bem pelo contrário. Cada vez mais nos afastamos da costa, da nossa casa, do nosso refúgio. O retorno envolve uma parábola, com o assumir do erro e com uma viagem de regresso a casa, que não é mais do que voltarmos ao real, ao verdadeiro, àquilo em que se pode, de facto, confiar. As tropas preparar-se-ão através da consciência que vão adquirindo ao longo do caminho, mas também é certo que se negarem as mensagens dessa mesma consciência, acredito que o caminho não será alterado e as consequências serão muito graves.

A sua proposta de uma mudança que conduza à solvabilidade e à sustentabilidade, negando o resgate dos bancos e do Estado como solução e apostando no resgate de empresas e famílias, é exequível no actual contexto económico, tão complexo e volátil?
Eu não nego o resgate dos bancos e dos Estados, entendo-o é como uma primeira derivada do resgate das famílias e das empresas. Famílias e empresas sobreendividadas e insolventes levam qualquer banco à ruína. Famílias e empresas sobreendividadas e insolventes não contribuem com quaisquer recursos para os seus Estados. O resgate das famílias e empresas é, no meu entendimento, o único caminho para resgatarmos todo este ecossistema que famílias, empresas, Estados e bancos partilham. Acredito que seja exequível – e já existem projectos a começar nesse sentido –, mas se vamos a tempo de inverter a rota e chegarmos a porto seguro só Deus sabe.

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© DR
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No que respeita às famílias sobreendividadas, que caminho propõe em termos de passos a curto e médio prazo?
As famílias deveriam procurar aumentar os seus níveis de literacia financeira e estabelecer estratégias de reequilíbrio orçamental, sozinhas ou apoiadas por entidades de aconselhamento específico. Uma análise das receitas e custos correntes é um primeiro passo fundamental, ver se existe margem para fazer face a dívidas e, num segundo momento, listar e caracterizar todos créditos e colaterais existentes para entender se existe viabilidade financeira, através da consolidação ou da reestruturação ao abrigo ou não de um empréstimo à habitação. No pior dos casos – quando não existe viabilidade económica ou não existe viabilidade financeira – a família deveria procurar apoio jurídico para a declaração de insolvência e exoneração do passivo.

E para as empresas?
É um pouco o mesmo caminho que foi mencionado para as famílias na última resposta. Um dos maiores problemas do sobreendividamento é a sua complexidade de resolução, pois famílias e empresas têm ao mesmo tempo de se concentrar em três eixos diferentes: racionalização de custos, dinamização de receitas e reestruturação ou refinanciamento de dívidas. É um processo extremamente exigente que requer, na maior parte dos casos, a ajuda de entidades especializadas. A maior parte das famílias e empresas – micro e pequenas empresas – não está preparada para lidar com uma realidade de sobreendividamento, na qual existe uma multiplicidade de créditos, todos a decorrerem ao mesmo tempo, com juros, comissões e prazos de amortização diferentes, e geralmente com interlocutores distintos.

E no que respeita às instituições financeiras: o que tem de mudar na sua própria estratégia?
Três áreas fundamentais: uma profunda transformação das suas áreas de cobrança em áreas de recuperação de clientes, um aprofundamento das políticas de responsabilidade na concessão de crédito – se continuarem as suas inconscientes e insustentáveis políticas de concessão de crédito, as instituições financeiras não devem estar à espera que famílias e empresas estejam continuadamente disponíveis para as resgatar -, e por fim, a edificação de uma banca de resgate sustentada em três pilares fundamentais de consolidação de créditos, controlo de riscos futuros e proximidade e confiança entre o cliente e a instituição financeira. A solução encontra-se em servir a realidade à sua volta e não a si próprios. Esse nível de autismo tem vindo a ser desastroso, senão vejam-se os resultados que estas instituições financeiras apresentam ano após ano, mesmo após processos intensos de recapitalização.

Sabendo que a banca dificilmente coloca o bem comum à frente dos seus próprios interesses, que motivos tem para acreditar que nela se pode promover a “consciência sistémica” que defende no seu livro?
Neste momento acredito que, se a banca quiser sobreviver e se não quiser arrastar as sociedades ocidentais para o descalabro total, não tem outra alternativa. E isso costuma ser um excelente incentivo para se despertar para um novo paradigma.

O que prevê, em termos de futuro a médio prazo, para o segmento daqueles que se encontram entre os 30 e 50 anos, os quais, de acordo com as suas palavras, estão numa situação de “capital negativo”, caso nenhuma medida seja tomada?
Há um processo de pauperização em curso, que não tem fim à vista, e que é um processo avassalador. Não invertermos a rota, não tomarmos nenhuma medida, permanecermos estáticos perante um inimigo cruel e totalmente arrasador, é condenarmos toda esta geração a uma realidade económica, social e humana infernal. Mas não foi a escravidão das tribos de Israel e de Judá que as fizeram procurar a sua liberdade? Mesmo quando essa liberdade parecia barrada por um imenso mar à sua frente? E não foram essas tribos ameaçadas por um poderosíssimo exército atrás de si e encurraladas entre esse exército e o mar? E não viram elas um novo caminho? E não foi todo este processo iniciado por um incrível e maravilhoso grito de coragem e de Fé?

Em termos geracionais, o que aconselharia aos mais jovens, que compreendem (e vivem) já este clima de sobreendividamento, para o evitarem nas suas próprias vidas, tendo em conta o actual contexto de elevado desemprego jovem, em conjunto com o adiar de objectivos e sonhos?
Graças a Deus e a elas próprias, estas novas gerações já não estão tão ligadas ao ter, mas muito mais ao fazer do dia-a-dia. A consciência que habita naturalmente nos mais jovens é o melhor professor para não se repetirem os erros das gerações mais velhas, nomeadamente ao nível dos padrões de sobreendividamento crónico. Quanto ao desemprego e ao adiar de objectivos e sonhos, também aqui há que repensar toda uma fórmula. Não entendo uma sociedade de eleitos a uma “vida digna”, condenados a trabalhar doze a catorze horas por dia, rodeados de desempregados condenados ao constante adiamento das suas vidas. Mais uma vez, a criação e o desenvolvimento de consciência sistémica poderia trazer o equilíbrio e estabelecer uma ponte entre estas duas realidades, tal como é mencionado no meu livro, onde se transpõe esta nova consciência para medidas concretas.

Helena Oliveira

Editora Executiva