“É significativamente provável [95% de certeza] que a influência humana tem sido a causa predominante do aquecimento global registado desde meados do século XX”. A declaração é feita no mais recente relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, apresentado publicamente a 27 de Setembro em Estocolmo e dissipa qualquer tentativa de rotular o aquecimento global como um “mito popular”
POR HELENA OLIVEIRA

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Há poucos dias, cerca de uma semana antes da data prevista para o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPPC, na sigla em inglês) divulgar a primeira tranche (de um total de três) da mais recente avaliação sobre as alterações climáticas, vários órgãos da imprensa internacional publicaram notícias de que o aquecimento global tinha abrandado (ou mesmo que nunca tinha acontecido) e que toda esta “polémica” não passava de um gigantesco mito popular. As notícias, veiculadas pelos denominados “cépticos climáticos” consistiam, na verdade, em uma republicação de uma notícia de 2008, a qual afirmava que quatro fontes científicas comprovavam que as temperaturas do planeta, não estavam, de todo, a aumentar, mas sim a diminuir. Na verdade, este abrandamento ou hiato é verdadeiro e confirmado pelo IPCC, mas o que está a acontecer, na verdade é que, nos últimos 15 anos, a temperatura global subiu a um ritmo inferior ao verificado desde 1951. O que não serve para negar, de todo, o aquecimento global, nem serve aos propósitos deste clube de cépticos. O planeta continua a aquecer, apesar de a um ritmo mais vagaroso.

Todavia, convém alertar que a estratégia destes cépticos, que muitos identificam como “mensageiros” da poderosíssima indústria do carvão, continua a ser a de descredibilizar, como já tem vindo a ser habitual, os modelos de análise do painel científico da ONU – que conta com os maiores especialistas do mundo – e que desde 1988 alerta para a problemática – entre outras – do aquecimento global.

A última avaliação do IPCC, realizada em 2007 – ano em que o organismo foi galardoado com o Nobel da Paz, em conjunto com Al Gore devido ao seu documentário “A Verdade Inconveniente” – afirmava como “muito provável – 90%” a relação do aumento da temperatura global com a actividade humana. No relatório divulgado no passado dia 27, em Estocolmo, a conclusão passa de muito provável para categórica – 95% de certeza – de que mais de metade do aquecimento desde a década de 1950, é resultado da actividade humana.

Contendo mais de 2,500 páginas, o contributo de mais de duas centenas de cientistas (209), dois milhões de gigabytes de dados numéricos provenientes de modelos de simulação climáticos, citações de cerca de 9200 publicações científicas (mais de três quartos das quais publicadas desde 2007), o relatório foi ainda verificado, reverificado e (re)reverificado (sim, por três vezes, pelo menos) por outros tantas entidades científicas e por responsáveis governamentais do mundo inteiro. O motivo de tanta preocupação? Para além do óbvio – as publicações científicas têm de ser rigorosa e devidamente comprovadas, principalmente as que têm impacto no mundo inteiro – o IPCC tem vindo a ser alvo de algumas críticas, nomeadamente desde que, em 2009, a sua credibilidade foi posta em causa depois de ter citado uma previsão errada de degelo nos glaciares dos Himalaias. Para muitos, este poderá também a ser o último relatório do género, visto que o IPCC está a passar por uma “crise de identidade” e são muitos os especialistas que defendem relatórios menos espaçados e com avaliações e informações mais actualizadas. Mas e polémicas e modelos à parte, o que traz de novo este relatório, o primeiro desde o fracasso da Cimeira do Clima em Copenhaga, em 2009? O Ver resume, de seguida, os principais dados apresentados pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas.

Alterações Globais
Alterações climáticas várias e sem precedentes nas últimas centenas ou milhares de anos é uma das conclusões do relatório do IPCC. Estas alterações afectaram todas as regiões do globo, seja na terra ou no mar. As emissões de carbono contínuas irão despoletar novas ondas de calor, o aumento do nível do mar, degelos e eventos climatéricos extremos. Estas mesmas alterações perdurarão ao longo de séculos e, para limitar os seus efeitos, seriam necessários cortes “substanciais e sustentados” nas emissões de dióxido de carbono.

Face ao último relatório do IPCC, os cientistas estão agora ainda mais certos de que “as alterações no nosso sistema climático no último meio século são devidas às actividades humanas”, como afirmou Michel Jarraud, responsável Organização Meteorológica Mundial das Nações Unidas. O nível de certeza passou de 90% em 2007 para 95% este ano. E o relatório declara: “a influência humana no sistema climático é clara. E esta evidência provém do aumento das concentrações de gases com efeito de estufa na atmosfera, do forçamento radiativo positivo [perturbação do balanço da energia incidente e da energia emergente da Terra, medida por watts/M²/período. Quando positivo, causa o aquecimento da troposfera e da superfície da Terra], do aquecimento observado e da compreensão do sistema climático”.

“As observações das alterações no sistema climático têm como base linhas múltiplas de evidências independentes. A nossa avaliação científica concluiu que a atmosfera e os oceanos aqueceram, que a quantidade de neve diminuiu, que os níveis globais dos mares aumentaram, bem como a concentração de gases com efeitos de estufa”, afirmou Qin Dahe, um dos responsáveis por este relatório no dia da sua apresentação pública.

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O Orçamento do Carbono
Na passada sexta-feira, dia 27 de Setembro, e depois de vários dias de deliberações, os cientistas que contribuíram para este relatório, quantificaram, pela primeira vez, a quantidade de dióxido de carbono que a humanidade “pode” ainda emitir para a atmosfera antes que o planeta sofra de sobreaquecimento. Denominado como “orçamento de carbono” e segundo o próprio relatório, cerca de metade a dois terços do mesmo já foi utilizado. O que significa que sem políticas radicais para o corte das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) – políticas essas que têm, obrigatoriamente, de passar da teoria à prática – a humanidade irá exceder este limite dentro de 15 a 25 anos. Lord Stern, antigo economista-chefe do Banco Mundial e responsável pelo estudo sobre o impacto do aquecimento global na economia, afirmou, no dia do lançamento do relatório, que para termos, pelo menos 50% de possibilidade de a temperatura não subir dois graus centígrados (um dos cenários colocados, até 2100), considerado como o limiar de segurança pelos cientistas, não poderíamos emitir mais do que 820 a 1445 mil milhões de toneladas de carbono e outros gases com efeito de estufa até ao final do presente século. “Dado que, actualmente, o mundo emite cerca de 50 mil milhões de toneladas de GEE, o relatório alerta para o facto de que, mesmo mantendo os actuais níveis, o orçamento de carbono esgotar-se-á dentro de 15 a 25 anos”. A esperança de um acordo que seja finalmente levado a sério por nações, cidades, comunidades e empresas no que respeita ao limite da emissão de GEE reside agora nas negociações internacionais para um novo tratado sobre as alterações climáticas, a ser assinado (?) em Paris, em finais de 2015.

Concentração de CO2 e outros gases na atmosfera
As concentrações atmosféricas de dióxido de carbono (CO2), metano e óxido nitroso aumentaram igualmente para níveis sem precedentes desde há, pelo menos, 800 mil anos. As concentrações de CO2 registaram um aumento de 40% desde a era pré-industrial, principalmente devido às emissões dos combustíveis fósseis. O oceano absorveu cerca de 30% das emissões antropogénicas de dióxido de carbono, o que causou a acidificação do mesmo.

Temperaturas
O nível de certeza é de 66%: cada uma das três últimas décadas tem sido sucessivamente mais quente na superfície da Terra comparativamente a qualquer outra década desde 1850, com a temperatura global a aumentar 0.9o C nos últimos 100 anos. No hemisfério norte, o período entre 1983-2012 foi, muito provavelmente, o mais quente dos últimos 1400 anos. Todavia, mais de 90% do calor retido pelos GEE está a ser armazenado nos oceanos. Por volta de 2050, os cientistas estimam um novo aumento entre 1.40 a 2.60 C se as emissões continuarem ao ritmo actual. Se estas fossem interrompidas e se uma quantidade suficiente de carbono fosse extraída da atmosfera, o aumento da temperatura cifrar-se-ia entre os 0.40 e o 1.60 C para o mesmo período.

Entre 2080 e 2100 e mantendo o cenário de não alteração do nível de emissões, as estimativas apontam para um aumento das temperaturas entre 2.60 e 4.80. O grau de probabilidade para ondas de calor mais frequentes e duradouras é de 90%.

Oceanos
No último século, o aumento do nível global do mar foi de 20 cm, sendo que os cientistas têm agora a certeza de que a taxa de “subida” irá aumentar, na medida em que, devido ao aquecimento global, os glaciares e os lençóis de gelo “despejam”, anualmente, centenas de milhares de milhões de toneladas de água nos oceanos, apesar de um outro factor igualmente significativo ser o do aquecimento – e consequente expansão – da própria água do mar. As novas projecções para o aumento global do nível dos mares, para o período entre 2080 e 2100 são mais significativas face ao relatório de 2007, oscilando entre 45-82cm se nada for feito para restringir as emissões e de 26-55cm se estas forem travadas e revertidas. Se a primeira hipótese for confirmada, o nível do mar poderá subir até 98cm até ao final do século, ameaçando seriamente cidades como Xangai e Nova Iorque, o que significa também que os ciclones e os furacões infligirão danos muito mais sérios quando atingirem as linhas costeiras. Todavia, nesta questão em particular, não existe consenso n comunidade científica face a aumentos drásticos do nível dos mares.

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Condições climatéricas extremas
Com um índice de certeza na ordem dos 90%, o número de dias e de noites quentes aumentaram globalmente, sendo que as ondas de calor se tornaram mais frequentes e com uma duração mais prolongada na Europa, Ásia e Austrália. As cheias aumentaram igualmente a sua frequência e intensidade nas regiões do Mediterrâneo e da África Ocidental.

Também no que corresponde à queda de chuva forte, o cenário é similar. Uma outra certeza manifestada pelos cientistas diz respeito ao facto de a frequência e intensidade de ciclones tropicais fortes no Atlântico norte terem aumentado significativamente desde os anos de 1970.

Mais preocupante é a certeza, na ordem dos 99%, de que a frequência de dias e noites quentes irá aumentar nas próximas décadas, com um fenómeno de declínio no que respeita às frias. A frequência e intensidade de aguaceiros muito fortes – extremos – como se pode ler no relatório, irão igualmente sofrer um aumento em muitas regiões, especialmente nas mais populosas.

A “pausa”
A última década foi a mais quente em termos de registos, mas apesar das concentrações de CO2 na atmosfera terem continuado a acelerar, as temperaturas do ar à superfície aumentaram apenas marginalmente nos últimos 15, o que deu origem à ideia de que o aquecimento global tinha parado. Os cientistas do IPPC rejeitam completamente esta ideia, declarando que apesar de a tendência de aquecimento ser robusta ao longo das décadas, existe uma variabilidade “substancial” nas mesmas. Ou, como concluem “(…)as tendências baseadas em registos de curto prazo (…) não reflectem, geralmente, as tendências climáticas de longo prazo”.

Nota: Todas as informações relativas ao novo relatório do IPCC podem ser visualizadas aqui ou aqui.

“Não há nem pode haver desculpa para não se agir já”

A frase é escrita no comentário que se segue, da autoria de Gonçalo Cavalheiro*, especialista em alterações climáticas e a quem o VER pediu que comentasse os mais recentes resultados do IPCC, a par de algumas dicas, que o comum dos cidadãos poderá acatar, para contribuir para o mitigar daquele que poderá ser o mais ameaçador fenómeno que a espécie humana, presente e futura, terá de enfrentar.

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*Gonçalo Cavalheiro é
especialista em alterações
climáticas e Partner da
Caos Sustentabilidade
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“Se dúvidas houvesse, este ultimo relatório do IPCC veio dissipá-las. As alterações climáticas estão aí, os seus impactes são gravíssimos e nós somos os responsáveis. O relatório do IPCC está repleto de números e de percentagens precisos até à milésima, os quais traduzem a necessidade imperiosa dos cientistas serem extremamente rigorosos. Mas, para nós, cidadãos e até para os decisores políticos, o sumário grosseiro que proponho é (permitam-me a arrogância) suficiente.

Portanto, não há nem pode haver desculpa para não se agir já. E não, não estou a falar de reduzir emissões. Essas, Portugal até já reduziu mais do que tinha planeado (em parte devido à recessão económica). E, na realidade, Portugal não tem muito a dizer quanto às emissões de gases com efeito de estufa mundiais (as que realmente interessam). A palavra final sobre esse tema cabe aos dois colossos económicos globais: EUA e China.

Não controlando nós a redução das emissões, só nos resta a adaptação ao novo clima, a esse clima que o IPCC prevê vir a ser muito agreste para Portugal. Está na hora de nos adaptarmos, porque essa é a parte que controlamos. Não podemos ficar reféns das decisões de outros.

Enquanto caminhamos rumo a uma economia de baixo carbono – com energias renováveis e elevados índices de eficiência energética, é fundamental introduzir uma nova variável: a resiliência às alterações climáticas. Portugal deve caminhar rumo a uma economia de baixo carbono e resiliente.

Talvez no esforço de adaptação às alterações climáticas possamos ser um pouco diferentes, talvez possamos tentar esperar menos pelo Estado e talvez possamos esperar menos do Estado. Talvez possamos começar pelas coisas pequenas… por limpar sarjetas e algerozes… sim… adaptação às alterações climáticas não é (só) construir diques e reencher as praias de areia. Há muito que cada um pode fazer. Cada cidadão e cada empresa.

Atrevo-me a propor que comecemos pela água. Até me atrevo a propor o primeiro passo na adaptação às alterações climáticas: poupar água. Sim… poupar água é a mais importante medida de adaptação às alterações climáticas que qualquer Português (pessoa individual ou colectiva) pode tomar. E como há dezenas de anos que nos ensinam como poupar água, considero não ser necessário dar qualquer dica.

Depois de vencido o desafio da água, encetaremos outro até sermos um país resiliente! Estão prontos?”

Helena Oliveira

Editora Executiva