Chama-se “Iniciativa de Integridade” e é um final feliz decorrente de más práticas de negócio ocorridas numa subsidiária russa da gigantesca Siemens, antes de 2007. Como forma de limpar a nódoa que caiu no seu pano imaculado há 160 anos, a Siemens AG criou um fundo, no valor de 100 milhões de dólares, que visa promover práticas comerciais responsáveis que promovam a integridade nos negócios e combatam a corrupção
POR HELENA OLIVEIRA

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Sérgio Filipe, Regional Compliance Officer da Siemens Portugal
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Em entrevista ao VER, Sérgio Filipe, Regional Compliance Officer da Siemens Portugal, explica em que consiste a “Iniciativa da Integridade” e que critérios de elegibilidade devem ter os projectos que concorram ao fundo.

Em termos gerais, como é definida esta denominada “Iniciativa de Integridade”?
Esta iniciativa vem no seguimento de uma investigação sobre ocorrências de prevaricação nos negócios mundiais da Siemens AG feita pela Vice-Presidência de Integridade do Banco Mundial e do reconhecimento dessa prática por parte da empresa. Este fundo, no valor de 100 milhões de dólares, visa promover práticas comerciais responsáveis nos mercados e faz parte de um acordo celebrado a 2 de Julho de 2009 entre o Banco Mundial e a Siemens AG.

E quais os compromissos assumidos no acordo estabelecido entre a Siemens AG e o Banco Mundial?
Em Dezembro de 2009, a Siemens AG anunciou que iria constituir um fundo no valor total de 100 milhões de dólares. Foi ainda anunciado que esta verba seria distribuída ao longo dos próximos 15 anos a organizações sem fins lucrativos de todo o mundo que promovam a integridade dos negócios e combatam a corrupção

Quais são os principais objectivos desta iniciativa?
Como é sabido, os temas da ética e das boas práticas sociais nos negócios constituem uma prioridade para a empresa. Assim, o nosso grande objectivo passa por promover e fomentar junto dos mercados práticas comerciais responsáveis, transparentes e eticamente irrepreensíveis.

Que tipo de projectos serão financiados com o fundo destacado pela Siemens para a iniciativa?
Naturalmente que a tipologia dos projectos seleccionados respeitará sempre a premissa que presidiu à constituição desta iniciativa: apoiar instituições e entidades cujas actividades promovam e defendam a ética nos negócios. São exemplos os projectos seleccionados nesta primeira fase, como o Instituto Ethos, uma organização brasileira, que tem como principal objectivo garantir a adjudicação transparente dos contratos de infra-estruturas para a Mundial de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 no Brasil. Na Europa, a recém-fundada Academia Internacional Anti-Corrupção foi outra das contempladas por esta Iniciativa e irá receber fundos para acções de investigação e de ensino. Esta organização internacional, com sede em Viena, foi criada para formar peritos anti-corrupção de todo o mundo.

Quais os critérios de elegibilidade dos projectos a financiar?
A Siemens AG criou um sitewww.siemens.com/integrity-initiative- no qual todas as associações interessadas podem conhecer melhor o projecto e perceber se têm o perfil adequado para participar. Falando especificamente dos critérios de elegibilidade, esta iniciativa destina-se a organizações sem fins lucrativos que, em todo o mundo, promovam a integridade dos negócios e combatam a corrupção. Os projectos que apresentarem serão avaliados segundo duas categorias: “Collective Action” (criar notoriedade entre a sociedade civil para o tema das regras de Compliance) e “Education & Training” (promoção de uma cultura de integridade e a partilha de conhecimento entre instituições e os seus accionistas).

Foram já apurados 30 projectos de mais de 20 países. Que passos iniciais serão agora dados?
A próxima fase prevê a entrega de 40 milhões de dólares, do total de 100 milhões disponíveis, aos projectos das organizações sem-fins lucrativos apuradas – provenientes de países como Angola, China, Egipto, Hungria, Índia, Indonésia, Itália, México, Nigéria, Filipinas, Rússia, República Eslovaca, África do Sul, República Checa, EUA e Vietname, bem como em diversos países do Médio Oriente. Além da monitorização rigorosa dos projectos já apoiados, daremos início brevemente á segunda ronda de admissão de propostas.

De que forma esperam monitorizar a aplicação de fundos?
Como parte do acordo entre o Banco Mundial e a Siemens AG, o Banco Mundial tem direito de auditoria sobre a utilização dos fundos e direito de veto sobre os grupos ou programas anti-corrupção seleccionados pela Siemens para beneficiar dos fundos. A selecção de projectos agora revelada teve em conta a necessidade de encontrar um equilíbrio entre as iniciativas e a distribuição regional dos fundos.

Que tipo de resultados esperam obter a curto/médio prazo visto que a corrupção é algo extremamente enraizado na maioria dos países e, nomeadamente em muitos dos que irão agora receber a Iniciativa?
O objectivo principal desta iniciativa é a criação de uma cultura de transparência e ética nos negócios, seja em países de elevado risco de corrupção ou perfeitamente enquadrados nas normas mundiais vigentes. Os resultados serão tanto melhores quanto maior for o sucesso dos projectos apoiados.

Será possível que Portugal venha a fazer parte dos países “eleitos”?
Basta que as entidades e associações portuguesas elegíveis demonstrem interesse em participar nesta iniciativa. A abertura da nova fase será previamente comunicada ao público através das nossas ferramentas de comunicação, como site corporativowww.siemens.com/integrity-initiativee comunicados de imprensa.

Que papel tem a Siemens Portugal neste projecto global?
Como disse acima, se existirem empresas ou associações que concorram à “Integrity Initiative”, teremos todo o prazer em apoiar as suas candidaturas.

 

Helena Oliveira

Editora Executiva