2016 foi como assistir a um desastre em câmara lenta. Para uma Europa (e um mundo) que tem trilhado um caminho de integração contínua desde o final da II Guerra, foi o ano em que tudo pareceu andar para trás. Em 2017 o que teremos de fazer é dar sentido a tudo isto
POR JOÃO PAULO BATALHA

1- Trump é o início do fim?
É.

Resta saber: fim do quê? Não será seguramente o fim dos EUA. É, no entanto, o fim de um ciclo, que corresponde ao ciclo dos políticos de carreira, mas vai muito para lá disso. É o fim (ou pelo menos uma interrupção) de um equilíbrio geoestratégico que foi instalado no mundo depois da II Guerra, rumo a uma crescente integração política e económica que tinha os Estados Unidos como fiel da balança – muitas vezes a contragosto.

Trump interpretou melhor que ninguém a angústia da classe média americana, frustrada por uma classe política mais atenta aos desejos dos doadores de campanha do que dos trabalhadores comuns, e foi montado nessa angústia que viajou até à Casa Branca, prometendo soluções simples para problemas complexos. É um pouco como querer curar uma enxaqueca com um tiro na cabeça, mas não deixa de ser atraente para quem acha que já não tem nada a perder.

O novo Presidente dos EUA inaugura uma política nacionalista e isolacionista – “It’s going to be America first” – , baseada numa visão estreita e imediata do interesse do país, mas que tem óbvias limitações. Como todas as políticas nacionalistas, é tacticista e de curto prazo, despreza o que é complexo e estrutural. Rasga acordos de comércio e dá rédea livre à exploração de energias fósseis, na expectativa de um ganho imediato para a indústria americana. Mas recusa problemas que exigem respostas globais e multilaterais. Aquecimento global? É um logro. Luta contra o terrorismo? Trump o outsourcer, entrega-a à Rússia – o que poupa envolver-se no Médio Oriente. Trump acha que pode ignorar tudo aquilo que não controla. Como qualquer populista, promete dar uma sova à realidade. Mais provável é que seja a realidade a dar uma sova a Trump.

2- O Brexit vai ser limpo?
Não.

A primeira-ministra britânica, Theresa May, já percebeu que não há forma limpa de se destrinçar da União Europeia e que décadas de integração não se cortam de forma simples e ordenada. Dentro de portas, políticos, cidadãos, imprensa e tribunais não se entendem sobre o formato da negociação e da decisão final – para não falar do impacto que o processo poderá ter na Escócia e Irlanda do Norte. O próprio mecanismo de saída, o famoso artigo 50 do Tratado de Lisboa, joga contra o Reino Unido. Quando for invocado, espoleta a contagem decrescente de dois anos para negociar a saída. Esgotado o prazo, ou o Reino Unido encontrou a porta ou cai pelo precipício.
O que se passará a seguir é ainda mais incerto. May já se rendeu à evidência de que não terá sol na eira e chuva no nabal – fechar fronteiras mantendo acesso ao mercado comum europeu. A alternativa, dolorosa, será negociar acordos comerciais do zero com múltiplos parceiros (a começar pela União Europeia e EUA), todos mais poderosos e de maior dimensão, num processo que vai revelar ao Reino Unido o que verdadeiramente resta da sua posição e influência no mundo e as limitações do Estado-nação. Boa sorte.

3- Vamos ter outros “exits”: Frexit, Nexit?
Este ano não (até porque todos querem ver primeiro no que dará a cobaia britânica), mas os fantasmas continuarão connosco.

As eleições deste ano em França, na Holanda e na Alemanha trazem consigo o espectro de novos ganhos dos populistas, alimentados pela mesma retórica que deu a vitória ao Brexit e que já fez eleger outros líderes autoritários na Europa e agora nos EUA. Já vimos o filme: aproveita-se a legítima frustração e angústia de populações a quem a classe política falhou, põem-se as culpas nalguma entidade externa e agita-se o medo das populações.

É uma receita que tira partido da desadequação dos fóruns de decisão internacionais que, precisamente por serem espaços de diálogo com muita gente à mesa, precisam de funcionar por consenso e, por isso, funcionam não funcionando – ou seja, existem para impedir que o poder desmesurado de uns cilindre os outros. Parece pouco, mas a alternativa é voltarmos a um paradigma em que cada Estado usa os seus recursos numa táctica estreita de curto prazo. Não admira que muito se escreva sobre a semelhança entre os tempos que vivemos e os prelúdios da I Guerra Mundial. A História não se repete. Mas plagia-se frequentemente.

4- O povo é quem mais ordena?
Não tem sido. E nada indica que isso mude.

Não são os caudilhos que vão devolver o poder ao povo. Até porque os caudilhos reduzem sempre o “povo” à massa de gente que concorda com eles, e colocam de lado todos os que não lhes prestam vassalagem como um inimigo externo a abater. Não é bom augúrio.

Na verdade, a crise das democracias ocidentais, anterior até à crise financeira ou económica, é uma crise de confiança, pela qual é fácil culpar papões como a União Europeia ou a ONU – gigantes com pés de barro, na verdade. A questão é que, se é verdade que a União Europeia, a ONU e outras instituições internacionais precisam de um reforço urgente da sua democraticidade, a transferência de soberania não é a causa imediata da degradação das democracias – basta ver os EUA, que têm o mesmo populismo às costas e nunca transferiram soberania para ninguém.
O problema crucial é o da corrupção. Não a corrupção de funcionários públicos que cobram luvas para fazerem o seu trabalho, mas a corrupção de um sistema político capturado pelos interesses estreitos de grandes grupos económicos, assessorados por grandes escritórios de advogados que determinam as principais decisões legislativas e regulatórias, que colocam o Estado ao serviço da sua agenda e deixam os cidadãos comuns a pagar a factura – sob a forma de aumentos de impostos, de cortes de serviços e de uma degradação dos níveis de vida.

A ilusão da recuperação das soberanias nacionais, que está no centro deste movimento populista, é uma distracção hábil do verdadeiro problema, que é um problema de governança, responsabilização política e qualidade das instituições. E não, os populistas não trarão melhores soluções contra a corrupção do que os políticos polidos e plastificados que os antecederam. Porque os populistas, por definição, desprezam as instituições e apoiam-se no seu poder pessoal. Basta olhar para o Governo de Trump – que, citando Gloria Steinem, “encontrou uma raposa para cada galinheiro em Washington” – para percebermos o logro deste populismo.

5- No que é que vai dar tudo isto?
Vai dar sarilho.

Progressivamente, pela profissionalização da política, pela segmentação do eleitorado e da comunicação social, pela restrição dos nossos próprios círculos de socialização – agravados pelas redes sociais que permitem a cada um de nós viver na sua bolha, sem nunca contactar com opiniões contrárias à sua e à dos seus “amigos” – transformámos democracias de cidadãos em democracias de clientes. Políticos que deveriam agir sobre as questões globais e nacionais ocupam-se apenas dos temas que interessam ao seu nicho eleitoral. Deixa de haver visão de conjunto, ou sequer interesse em encarar questões difíceis.

Na Europa, em especial, tudo isto é agravado por um problema demográfico: não só a população está a envelhecer como, pior do que isso, os jovens, que já estão em minoria, votam menos – por alguma razão, em Portugal todos os políticos fazem campanha em lares de idosos, mas nenhum se maça a ir a universidades. Somos sociedades voltadas para o passado, não para o futuro.
O ambiente social que daqui resulta é o do famoso divórcio entre cidadãos e política, que se traduz numa atitude que varia algures entre a fidelidade clubística e acrítica a um partido ou o descrédito e o alheamento puro e simples, em que o cidadão perde logo por falta de comparência.

6- Qual é o papel das empresas?
Lutar.

Ainda que seja muito popular demonizar o capitalismo, a verdade é que estamos num daqueles momentos de viragem em que o interesse económico das empresas e a sua responsabilidade corporativa estão perfeitamente alinhados.

A agenda dos nacionalismos é fechar mercados, limitar oportunidades de investimento, reduzir horizontes para as empresas. É o sistema ideal para a defesa dos incumbentes, daqueles agentes que já capturaram o sistema político, económico e financeiro e que pretendem agora fechar a porta atrás de si, para que mais ninguém os siga, para que não tenham de partilhar o saque, para que a inovação não vingue, para que ninguém lhes tire o lugar.

As poucas empresas (e são não mais que uma mão cheia à escala global, outra mão cheia em cada país) que pretendem manter ou até reforçar o status quo não podem ser a voz do mundo empresarial. Precisamos, também aqui, de uma injecção de pluralismo. Precisamos, também aqui, de cidadania corporativa. Precisamos de empreendedores e de empresas que percebam que a resposta não é rasgar acordos de comércio, mas sim negociar acordos que consagrem regras justas e iguais para todos, em que os indispensáveis custos ambientais e laborais a que obrigamos uma empresa europeia não se tornem num imposto oculto de que ficam livres os concorrentes inescrupulosos que poluem rios e terras aráveis em países em desenvolvimento, ou os príncipes da manigância fiscal, que escapam às suas obrigações através de offshores e contabilidades opacas. Precisamos de empresários que percebam que defender a classe média é preservar um mercado de consumidores – e que isso só se faz conciliando interesses, negociando, equilibrando posições. Defendendo, em suma, em democracias nas quais cada voz seja ouvida.

7- Por onde começamos?
Como sempre, pelo começo. Pelo que devemos uns aos outros. Pelo que é legítimo esperarmos – e obrigatório exigirmos – ao vizinho do lado: verdade, humanidade, proximidade. Empatia (palavra que está a sair de moda).

Começamos pela defesa intransigente do pluralismo e, até antes disso, pela curiosidade intelectual de procurarmos o outro lado de cada questão, de ouvirmos outra voz.
Há aqui um desafio crucial para a própria sociedade civil: organizar-se e mobilizar-se, para que a política não seja o feudo exclusivo dos partidos e das instituições estatais – e dos lóbis que as alimentam.

Recentemente, aqui mesmo, em Portugal, uma experiência muito interessante foi posta em marcha, que pretende trazer os cidadãos para os processos decisórios. A participação cívica no combate à corrupção, na luta pelo acesso livre à informação de interesse público, na responsabilização dos eleitos é crucial para inverter esta maré de sarilhos. E é possível. Há soluções. Na verdade, até ver, em toda a História, nunca a humanidade foi confrontada com um problema que não conseguisse resolver – com mais ou menos erros, com mais ou menos custos, com mais ou menos sacrifícios. O primeiro passo é sermos ouvidos, darmos o passo em frente mesmo nos momentos difíceis – especialmente nos momentos difíceis –, organizamo-nos e mobilizamo-nos.

Em tempos duros, as pessoas endurecem e isso é inevitável. Mas o que tem de endurecer é a nossa determinação, é o nosso compromisso com os nossos valores, é até a nossa esperança. Se deixamos que endureça a nossa humanidade, achando que é isso que nos vai permitir aguentar até passarmos o pior, arriscamos a descobrir, quando chegarmos ao outro lado, que já não resta nada para ser salvo. A salvação não está nos Trumps deste mundo. Está em nós próprios. Está uns nos outros.