São 20 histórias, inspiradas em pessoas que conheceu ao longo do seu extenso trabalho na área social, apesar de ficcionadas. Mas são também 20 incursões em realidades, na sua maioria já preexistentes, e que em muito casos a pandemia veio “só” agravar. O livro “Sem Máscara”, da autoria de Paula Guimarães, foi recentemente publicado pela Gradiva e as suas histórias são “um alerta, uma chamada de atenção e um convite ao nosso olhar atento relativamente ao nosso semelhante, para além da máscara e sem ela”
POR HELENA OLIVEIRA

A convite da Associação Corações com Coroa, e da sua presidente Catarina Furtado, Paula Guimarães foi desafiada a reflectir sobre a pandemia e as desigualdades sociais que esta pôs a nu, ou agravou, desde o deflagrar da pandemia.

Como afirma a autora, a ideia era “perceber como é diferente enfrentar a perda de emprego, o confinamento obrigatório e as novas regras de distanciamento social, consoante o local onde habitamos, a formação que temos, as condições habitacionais e económicas e a saúde”. E, ao aprofundar a questão, “surgiu a ideia de contar histórias de pessoas diferentes, aproveitar a pandemia para mergulhar na diversidade de que a sociedade portuguesa é feita e falar de envelhecimento, despovoamento, saúde mental, xenofobia, educação, etc.”, conta.

Assim, aceitou o desafio, pôs mão à obra e, aproveitando a sua paixão pela escrita, misturou, na dose certa, personagens reais com ficção, o que resultou num livro inspirado – e inspirador – em personagens reais, que exemplificam “as assimetrias sociais e a forma como as crises sublinham as desigualdades”. Como afirma ao VER, cada história “é uma crítica, um tributo, uma caricatura, inspirada em pessoas que conheço ou que observei, ao longo de 30 anos a trabalhar na área social, ao longo dos quais cruzei todos estes domínios”.

Sem Máscara” é um livro que, salpicado com rasgos de humor, apaixona, impressiona, emociona e nos obriga a olhar não só para os outros, mas também para nós mesmos. E porque “a pandemia veio aprofundar e sublinhar questões sociais graves que afectam o Portugal de hoje e deixará um lastro que demorará a ser ultrapassado”, a ideia deste artigo é apenas a de levantar o véu que cobre algumas das problemáticas que Paula Guimarães optou por eleger nos vinte contos que escreveu.

Porque não seria justo para quem ainda não leu o livro e porque a ideia não é resumi-lo, mas sim um convite à sua leitura e posterior reflexão, o VER “apresenta” algumas das suas personagens, esperando com isso despertar a vontade de mergulhar nas suas histórias. As personagens e excertos escolhidos, precedidos por uma breve introdução às problemáticas em causa, são também comentados por Paula Guimarães [PG].

A solidão dos idosos, nomeadamente a dos que estão em instituições colectivas – mas não só:

Antonieta Lourenço, 103 anos e há 21 num lar da Misericórdia

“Os outros têm medo de perder a vida, os familiares, os empregos. Ela não. A vida vai longa, não tem afectos, não precisa de dinheiro” (…) Há tantos anos que ninguém a vem ver, agora é que descobriram que a velhice é assim…”

PG – “A pandemia veio trazer a lume muitas dificuldades e deficiências que rodeiam a prestação de cuidados e a situação das pessoas idosas residentes em equipamentos. A solidão, mesmo num contexto colectivo, a insuficiência de recursos humanos, a impreparação de muitos dirigentes, a distância social face à comunidade envolvente. Nesse aspecto a pandemia é um alerta para a necessidade de abrir as organizações à comunidade e de olhar, de forma individualizada, cada residente”.

A pobreza, a luta dura dos migrantes que deixaram a sua terra em busca de melhores condições, a precariedade laboral, fortemente agravada pela pandemia, o layoff:

Mayara Danguiral, vinda de Cabo Verde, empregada de limpeza, com dois empregos, “invisível” aos olhos de todos e sem apoio social depois de perder o seu sustento…

“(…) Normalmente saía antes de as clientes começarem a chegar. Cruzavam-se na porta e Mayara via-as carrancudas e mal dormidas. Elas não a viam”.”A pandemia mudara tudo. Há um mês que não tinha trabalho. A empresa dispensara-a com o salário reduzido. Uma manobra qualquer com um nome estrangeiro que ela não tinha percebido. Nem fez muitas perguntas, com medo que a dispensassem de vez

PG: “A Mayara é alguém que conheço bem e que representa centenas de outras mulheres, numa nova forma de exploração laboral, mas mascarada por empresas de serviços e por “patroas” que fogem à segurança social. Pessoas invisíveis aos olhares de quem beneficia quotidianamente do seu trabalho e que são essenciais para a manutenção da nossa normalidade”.

A saúde mental – para a qual parece que finalmente o país acordou (será?) – a discriminação, a falta de apoios, a indiferença:

João Raposo, esquizofrénico, depois da morte da mãe, que o apoiava e acarinhava, vive “por favor” com um irmão que, em tempo de pandemia, o tranca à chave em casa…

“Sabe de cor as tarefas do dia-a-dia que aprendeu no centro ocupacional para não dar muito trabalho. Ainda assim incomoda. João sabe que incomoda. Que não há lugar para onde possa ir, nem nada que possa fazer”

PG: “Portugal tem uma incidência assustadora de problemas de saúde mental, com insuficiente oferta de respostas de internamento, de apoio ambulatório, de suporte aos cuidadores e de salvaguarda dos direitos dos maiores com perda de capacidade. Todos os dias temos conhecimento de suicídios e homicídios e muitos deles são decorrência do abandono a que são votados estes doentes e os seus familiares”.

A solidão que não escolhe idades, viver sozinho no meio da multidão, não conhecer os vizinhos, não ter interacções sociais, o interromper da actividade profissional e a depressão decorrente do isolamento…

Luísa Fernandes, 55 anos, flautista “de segunda”, numa orquestra de câmara desconhecida…

“A quarentena é um espelho de feira. Torna mais visíveis as imperfeições da sua vida. Não admira que os psicólogos digam que vão aumentar as depressões, Pudera. Não conseguimos escapar de nós próprios” (…) “Se continuar mais um mês, vai ter que pedir emprestado. Mas a quem?”

PG: “Cada vez mais pessoas vivem sós em Portugal, sem rede informal de apoio, sem suporte familiar. A pandemia veio agravar este isolamento social que já existia, de pessoa sem ligações familiares ou de amizade fortes, que as ajudem a suportar esta pressão. Esta é uma realidade que veio para ficar e que as redes sociais não resolvem”.

As actividades nocturnas – ou o sector que há 10 meses está literalmente “no escuro”, com particular ênfase nos “esquecidos da sociedade”, nos que a “sujam”:

Miss Dolce, transformista, “sem salário e sem alma”, que se manifesta em frente à AR…

“Ninguém se lembrava dos transformistas, dos barmen, dos disc jockeys, dos porteiros da noite. A noite era esquecida, como se o vírus fosse a praga divina que limpava o mundo do que era estranho e fora dos eixos”

PG: “Miss Dolce representa as pessoas de quem ninguém fala. Que não têm uma actividade reconhecida, que estão na “borda” da sociedade que se aceita, que vivem da noite e da solidão alheia. É o meu conto favorito pela infinita tristeza da personagem”.

A pandemia e as “classes privilegiadas” ou porque não estamos todos no mesmo barco e nem a crise é democrática:

Filipe Dantas, advogado, que ganhou poder mas que “contribui para a sociedade” e lida com a desumanização e drama dos trabalhadores (despedimentos colectivos); as alterações “precipitadas” no mundo laboral…

Vendera a alma? Pois, talvez (…) Fizera-lhe o canto da sereia e ele, seduzido, passou a representar o patronato, a empresa, o papão”. (…) “Neste contexto tudo era mais fácil. A pandemia também adormecera os sindicatos, assustados com a mudança anunciada há muito, mas precipitada em três meses”

PG: “A pandemia também ajudou a enriquecer alguns e foi o pretexto para algumas empresas se reestruturarem com um falso álibi. Este conto denuncia esse aproveitamento, mas também a ineficácia dos sindicatos e visa, sobretudo, promover a reflexão sobre o futuro do trabalho”.

Educação, tecnologia, a alteração radical da forma de partilhar conhecimento aos alunos, a necessária reinvenção:

Gabriela Irene Novais, professora do ensino básico, o mobile learning e a educação que também é para ela:

“Tinha pensado que a pandemia fora o golpe final na sua carreira de professora. Ter de passar de um dia para o outro, e sem formação, da sala de aula colorida e barulhenta para um instrumento tecnológico impessoal”

PG: “A educação é o mais importante alicerce da civilização e do desenvolvimento e a pandemia veio pôr em perspectiva a função do educador e a necessidade de se reinventar métodos para assegurar a sobrevivência da escola como território de crescimento individual e de cidadania”.

O investimento na ciência, a noção crescente que precisamos de todos os profissionais de saúde e cientistas, dos quais dependemos para sobreviver; homenagem à cientista e imunologista Maria de Sousa, uma das primeiras vítimas da Covid-19:

Estela Cardoso, virologista reformada, infectada com Covid-19, em coma induzido nos cuidados intensivos…

“O SARS-CoV-2 apanhou-a de surpresa. Ainda leu alguma coisa sobre o seu genoma e ficou interessada, como era habitual, em saber mais. Mas, desta vez, o vírus não lhe deu tempo e veio ter com ela. (…) Sorriu aos médicos e enfermeiros disfarçados, sem saber se eles correspondiam, desejou-lhes boa sorte para a luta que sabia desigual e mergulhou num sono profundo com a certeza de que a cura não tardaria”

PG: “A referência imprescindível aos cientistas e aos profissionais de saúde, personagens centrais do que estamos a viver e, naturalmente, uma justa homenagem à cientista portuguesa, Maria de Sousa, uma das primeiras vítimas do vírus”.

E muito mais…

SEM MÁSCARA é um livro sobre alguns, mas que devia ser lido por todos.