Os números são devastadores: em todo o mundo, 260 milhões de jovens e crianças não têm acesso a qualquer forma de aprendizagem e 500 milhões não vão além do ensino básico. E, caso a trajectória não mude, em 2030 serão mais de 800 milhões de jovens que não terão as competências necessárias para se juntar à força de trabalho, o que contribuirá para paralisar o crescimento económico e o desenvolvimento global. As grandes empresas têm noção desta realidade e estão a levar o desafio de a alterar muito a sério
TRADUZIDO E ADAPTADO POR HELENA OLIVEIRA
© Stanford Social innovation Review

Mais de 260 milhões de jovens e crianças em idade escolar em todo o mundo não frequentam qualquer estabelecimento de ensino. E mesmo aqueles que estão actualmente matriculados não irão, e muito provavelmente, muito mais longe do que a educação primária: globalmente, estima-se que mais de 500 mil milhões de crianças em idade escolar ou virão a abandonar o ensino muito cedo ou aprenderão muito pouco.

Os números deveriam assustar qualquer um. Se o mundo continuar a traçar esta mesma trajectória, em 2030 mais de 800 milhões de jovens não terão as competências necessárias para se juntar à força de trabalho, o que contribuirá para paralisar o crescimento económico e o desenvolvimento global.

Ser capaz de ler e escrever e, preferencialmente, saber usar um computador, é muito mais do que uma simples conveniência. A educação está directamente relacionada com famílias mais saudáveis, com maior igualdade de género e com comunidades mais estáveis e pacíficas. E, à medida que a tecnologia progride, que a demografia sofre mudanças e que a globalização vai reconfigurando rapidamente o nosso mundo, o gap existente entre crianças que têm acesso à educação, a diferentes competências e oportunidades, e as que não têm, torna-se muito mais profundo e perigoso.

Dadas as evidências, parece mais do que claro que o status quo não está a funcionar. E chegou a altura de se estabelecerem parcerias de “próxima geração” que possam desbloquear as inovações mais arrojadas necessárias para alcançar uma educação de qualidade para todos.

O sector privado poderá constituir uma significativa ajuda para que este objectivo seja alcançado. Para começar, as corporações internacionais compreendem as mudanças no mercado de trabalho e as necessidades futuras dos empregadores. E, com a ascensão da automação, terão também todo o interesse em aproveitar uma força laboral global que seja rica em recursos intelectuais. Daí que seja necessária uma eficaz abordagem via soluções empresariais para o problema da educação. Adicionalmente, o sector privado oferece muito mais do que simples bolsos recheados à cruzada pela educação global, na medida em detém talentos, recursos e novas ideias para partilhar.

Com a ascensão da automação, as empresas terão todo o interesse em aproveitar uma força laboral global que seja rica em recursos intelectuais

A autora deste artigo, Sarah Brown, presidente executiva da Global Business Coalition for Education (GBC-Ed) e presidente da Theirworld, uma organização beneficente global dedicada a criar um futuro mais “luminoso” para as crianças, afirma que muitas das organizações mais influentes do mundo, de que são exemplo a Deloitte Touche Tohmatsu Limited, a Reed Smith LLP, a Intel Corporation, a Western Union, entre várias outras, estão já a aplicar o seu talento, o seu pensamento inovador, em conjunto com os seus recursos, para ajudar a GBC-Ed a fortalecer a oferta de educação gratuita em todo o mundo.

Desde 2012 que esta coligação tem vindo a estimular o envolvimento do sector privado na educação global. Os actuais 140 membros da GBC-Ed estão desejosos de determinar como e quando podem ser mais eficazes e onde poderá o seu apoio ser mais útil. Em conjunto, têm já centenas de milhares de trabalhadores dedicados em todo o mundo que ajudam a resolver inúmeros desafios utilizando as suas competências em TI, gestão de dados e formação, sendo que e no conjunto, esta riqueza de conhecimento é realmente impressionante.

Todavia, e para que se desenvolvam procedimentos operacionais padronizados nas diferentes comunidades-alvo – especialmente durante situações de emergência, quando as necessidades de educação são mais críticas – não basta pedir dinheiro ao sector privado.

Como escreve Sarah Brown, a GBC-Ed está a analisar este complexo problema e a tentar conceber uma solução eficaz para o mesmo: de que forma será possível organizar a sua rede de parceiros de forma eficaz e tornar os seus substanciais recursos rapidamente acessíveis para as organizações sem fins lucrativos e outras organizações humanitárias que trabalham no terreno, especialmente durante situações de desastres ou em zonas de conflito?

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A significativa ajuda da tecnologia

Na Primavera de 2018, a GBC-Ed lançou a sua primeira ferramenta online de desenvolvimento internacional que faz a equivalência entre organizações líderes e necessidades educativas emergentes, uma espécie de Tinder para a educação e emergências, como sublinha a presidente executiva.

Este novo sistema de Rapid Education Action (REACT, na sigla em inglês e que pode ser traduzido por Acção de Educação Rápida), criado pela LexisNexis Risk Solutions e pela sua empresa-mãe, o RELX Group, estabelece uma ligação entre  os sectores públicos e privados em tempo real, permitindo que os seus utilizadores façam corresponder recursos a necessidades em poucos minutos.

Por exemplo, a empresa NaTakallam [cujo nome significa “nós falamos a língua árabe”] sedeada nos Estados Unidos fez uma parceria com a Re:Coded, uma organização não-governamental que ensina competências de programação informática a jovens sírios e iraquianos. A NaTakallam concordou em contratar os refugiados que participaram no seu programa de formação e ofereceu-lhes a oportunidade de obterem também as competências necessárias para que se tornem em instrutores de árabe.

Também apadrinhada pelo REACT foi a parceria feita entre a empresa Cerego – uma empresa de aprendizagem online – e a Thaki [cujo nome em árabe significa “esperto”] – uma outra ONG que ajuda crianças refugiadas a aprender e a ganhar competências, de acordo com o seu ritmo próprio e através de ferramentas electrónicas motivacionais. A parceria tem também como objectivo oferecer este tipo de educação “à medida do ritmo de cada um” a crianças marginalizadas no Líbano.

Sem educação, as crianças que estão a crescer agora não serão capazes de lidar com as alterações climáticas, melhorar os resultados na saúde ou lutar contra as desigualdades

Como escreve Sarah Brown, a esperança é a de que o REACT possa fomentar parcerias entre empresas, organizações sem fins lucrativos, governos e agências intergovernamentais que possam dar origem a novas áreas de colaboração. Todavia, a importância da tecnologia nesta enorme cruzada reveste-se de diferentes roupagens. Por exemplo, a School Cloud initiative, da HP, permite às escolas sem internet o acesso a milhares de manuais electrónicos e de lições na área da leitura, da ciência, da matemática, entre outras [para tal, basta que a escola em causa instale o HP School Cloud e ligá-lo].

Todavia e como sabemos, não é possível contar apenas com a tecnologia para resolver o problema da educação global. Precisamos também de uma boa dose de pensamento criativo. Por exemplo, uma nova ideia que está a ganhar terreno é, na verdade e actualmente, grandiosa o suficiente para transformar o aparentemente impossível em algo provável. A nova  International Finance Facility for Education, apoiada pelos países do G20, pelo secretário-geral das Nações Unidas e por cerca de mais de 1,5 milhões de pessoas, oferece uma forma pioneira de financiar a educação em todo o mundo. Ao poder utilizar dois mil milhões de dólares assegurados pelos países doadores, esta “Fábrica” irá criar vários bancos de desenvolvimento multilaterais com o objectivo de angariar mais de oito mil milhões de dólares em novo financiamento subvencionado.

Ou seja e ao todo, este financiamento combinado poderá mobilizar mais de 10 mil milhões de dólares para a educação.

Sem educação, as crianças que estão a crescer agora não serão capazes de lidar com as alterações climáticas, melhorar os resultados na saúde ou lutar contra as desigualdades, muito menos prosperar. O que significa que qualquer que seja o objectivo de desenvolvimento, o mesmo se encontra, actualmente, em risco. E é mais do que tempo para que todos – governos, empresas e sociedade civil – saibam agir de forma colaborativa e, de uma vez por todas, se unam para gerar novas ideias e formas de trabalho que possam acelerar o progresso e evitar esta crise ameaçadora.

Traduzido, com permissão, de How International Corporations Can Help Educate the World© Stanford Social Innovation Review 2018