Não será prudente ignorar os impactos recentes da pandemia num fenómeno como a Solidão e no estado de espírito que ela provoca. Mas arriscamos dizer que é também provável que estejamos a vivenciar a possibilidade de uma nova evolução. Aquela que será trazida pelas empresas cujos gestores percebam que nada nunca substituirá o ser humano no papel central de tornar empresas e processos melhores, para que o resultado seja uma sociedade cujas relações e processos sejam, também, melhores. Para que essa consciência se torne prática e para que ambas sejam bem-sucedidas, reconhecer e apoiar colaboradores nas suas vulnerabilidades será fundamental
POR CELSO GRECCO

Quando escrevi o livro A Decisão De Que O Mundo Precisa, decidi investigar a existência do fenómeno que a Inglaterra batizou como “Epidemia da Solidão”.

Foi justamente neste país que o governo da então primeira-ministra Theresa May criou o Ministério da Solidão, para investigar as altas taxas de pessoas que procuram ajuda psiquiátrica sem que, aparentemente, os seus estilos de vida e suas mobilidades sociais sugerissem problemas. A investigação, na época, apontou que 15% da população inglesa se declarava solitária.

Descobri então que nos Estados Unidos, a Cigna Global em parceria com a UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) realizou uma investigação junto de 20 mil jovens nascidos entre 1990 e 2010, para concluir que 48,3% dessa amostra se sentia só ou isolada.

No Brasil, considerado o país com uma das populações mais ansiosas do mundo, desenvolvi um estudo semelhante, que apontou índices semelhantes aos da Inglaterra, além de um dado preocupante: a população que aparece como mais afetada pelo fenómeno está na faixa etária dos 25 aos 34 anos.

Enquanto isso, no Japão, há não muito tempo, o governo também criou um Ministério da Solidão para enfrentar o crescente número de suicídios e criar políticas de saúde mental, tema que fez com que a OMS (Organização Mundial da Saúde) estimasse que cerca de 700 milhões de pessoas em todo o mundo sofram de transtornos mentais associados ao stress no trabalho e ao uso excessivo das tecnologias.

Será que estamos a viver uma Epidemia da Solidão?

Já em Portugal, numa iniciativa em conjunto com a Lift Consulting, surgiu a ideia de se investigar se também se vivia uma “Epidemia da Solidão”, e quais os impactos possíveis desse fenómeno na sociedade. A diferença é que o nosso estudo aconteceu em plena pandemia e confinamento. Era, portanto, fundamental perceber a diferença entre solidão como estado de espírito e confinamento como estado de isolamento compulsório.

Nas conversas preparatórias com profissionais da saúde mental que colaboraram para as adaptações do questionário, há uma unanimidade em reconhecer que o estado de solidão, tal como se apresenta na sociedade hoje, é uma doença que encapsula e paralisa as pessoas, resultado do ritmo e das exigências do século 21.

Embora a Depressão tenha sido reconhecida como “a doença do século” e, mais recentemente, a Síndrome do Burnout tenha adquirido o status de doença como “um fenómeno crónico e ligado ao trabalho”, não existe classificação técnica ou oficial da Solidão enquanto doença.

Entretanto, segundo esses profissionais, as pessoas acabam por trazer espontaneamente a Solidão como causa e consequência da Depressão. Andam juntas e causam dor. Portanto, a despeito de ainda não ter sido oficialmente classificada pela OMS como a Depressão e o Burnout o foram, para quem sofre de Solidão, isto significa também sofrer de uma doença, justamente pela dor que causa.

Embora o estudo possa servir ao governo e às políticas de saúde pública em Portugal, o foco que se pretendeu foi o de olhar para o tema da solidão e do isolamento, a partir dos impactos no ambiente das empresas e do desafio de criar ambientes de trabalho saudáveis, habitados por equipas motivadas para atuarem em alta performance.

Ainda que a Solidão tenha a ver com uma construção pessoal, fazendo com que aquilo que leva a pessoa a sentir-se solitária esteja relacionado com questões pessoais, com o seu histórico, momento, valores e relações pessoais, foi possível mapear 6 principais fatores comuns, que chamámos de Espectros da Solidão e que podem levar uma pessoa a sentir-se sozinha.

Que lições e inspirações este estudo pode trazer para o permanente desafio da gestão de pessoas? É a essa pergunta que pretendemos responder com os resultados desta pesquisa, que foi realizada no período de 3 a 5 de março de 2021, e na qual foram inquiridas 2.273 pessoas em Portugal Continental, Açores e Madeira.

Espectro 1 – Abandono
Como a ausência de conexão emocional, de presença calorosa que acolhe,
reconhece as necessidades, as alegrias e tristezas.

6 em cada 10 pessoas sente-se infeliz ao fazer coisas sozinhas, sentimento esse que se agravou para 1/3 delas com o isolamento provocado pela pandemia. A falta de companhia afeta emocionalmente metade dos entrevistados, sendo que 4 em cada 10 sofrem por sentirem não terem a quem recorrer. A ausência de conexão emocional e da presença do outro, que acolhe e conforta, pode levar à depressão e comprometer a saúde mental. Na faixa etária mais jovem – 16-25 anos – a infelicidade por fazer coisas sozinho afeta 7 em 10 pessoas.

Espectro 2 – Ansiedade de desempenho
A autossuficiência como valor e a independência como modelo

6 em cada 10 pessoas afirmam que as suas vidas seguem em modo automático. No entanto, 8 em cada 10 dessas pessoas afirmam ter objetivos concretos e projetos pessoais. O que se percebe é o risco de potencial conflito entre a projeção de conquistas pessoais e a real possibilidade de concretizá-las numa vida em modo automático. O sentimento de que essa é uma jornada solitária, na qual a não dependência do outro é sinónimo de liberdade, paralisa e frustra.

Espectro 3 – Conectividade permanente
Encontros e desencontros

Metade dos entrevistados reconhece ter ansiedade por respostas às mensagens enviadas. Na faixa etária mais jovem, esse número sobe para 60%. Além das redes sociais, os serviços de streaming enchem o dia, trazem uma sensação de preencher a vida, a casa e, principalmente, podem abafar o sentimento de solidão. A pessoa fecha-se e isola-se. Além disso, não se reconhece neste isolamento, porque está imersa num mundo de informação e de emoções. Mas, pouco a pouco, compromete as suas relações sociais e as suas motivações pessoais.

Espectro 4 – Inadequação
Sentimento de não pertença. O diferente que incomoda

Metade das pessoas sente que ninguém as entende. 4 em cada 10 declara que não sente pertencer aos ambientes nos quais convive. 1/3 destas pessoas tem dificuldade em falar com outras pessoas à sua volta e de fazer amizades. Viver em descompasso, estar no lugar errado, à hora errada, e com as pessoas erradas. O sentimento de viver fora do lugar, de viver experiências desconfortáveis ou de se estar sempre aquém das expectativas do outro são fatores de stress e depressão. Também neste espectro, a faixa etária mais jovem 16-25 apresentou índices ligeiramente piores.

Espectro 5 – Insegurança
Vulnerabilidades e instabilidades

A pergunta veio neste inquérito para cumprir com a mesma metodologia aplicada nos demais países que investigaram a Epidemia da Solidão. Enquanto noutros países registaram-se índices relevantes de respostas a apontar um sentimento de vulnerabilidade (no sentido de não contar com acesso a apoios sociais) e instabilidade (não ter certezas quanto às proteções sociais), em Portugal esse espectro não foi digno de preocupação.

Espectro 6 – Irrelevância
Relações utilitárias e descartáveis

Pouco mais de 1/3 das pessoas declarou se sentir excluída por outras pessoas. A percepção de que as relações podem ser utilitárias provoca a sensação de que não faz diferença estar ou não naquele lugar, naquele momento, com aquelas pessoas. Novamente, ao se investigar a faixa etária 16-25, o sentimento é pior, atingindo 41%.

O confronto necessário é o novo normal

Regressamos então à pergunta do início deste artigo: Se as empresas são feitas de pessoas, como manter ambientes de trabalho saudáveis com pessoas que não estão bem?

Não é possível ignorar que, quando pesquisas nacionais apontam fenómenos sociais, está-se a falar de recortes demográficos e perfis nos quais estão inseridas pessoas que todos os dias tomam o seu pequeno-almoço e se preparam para mais uma jornada nos seus postos de trabalho.

Pessoas que vão liderar e serem lideradas; que vão responder por metas e resultado de desempenho; das quais se espera que vistam a camisola da equipa e façam daquelas empresas exemplos de “great place to work”. Justamente por isso, essas pessoas são chamadas de “colaboradores”.

A pandemia nos fez cunhar a expressão “viver um novo normal”, sem que ninguém definisse ao certo e definitivamente o significado do que seja esse novo normal. Certamente há várias vertentes dessa definição, mas, inevitavelmente, um deles passa pelo papel de responsabilidade social das empresas, não apenas com a sociedade, mas agora e primordialmente com seu próprio corpo de colaboradores.

Há vagas para protagonistas. E para espectadores

Houve um tempo em que as empresas definiam uma Visão, Missão e Valores, para expressar uma filosofia e forma de conduta. Visão, Missão e Valores diziam respeito à maneira como a empresa via o seu negócio, e os resultados almejados a partir daí.

Veio então uma evolução. Com ela, chegou o tempo em que as empresas passaram a definir Propósitos, não para apenas expressar a filosofia de conduta dos negócios, mas para também deixar claros os seus contributos para uma sociedade melhor para todos, a começar pelos seus colaboradores. O Propósito, não como o resultado almejado, mas como o processo que define o resultado muito antes deste se concretizar.

Talvez estejamos a testemunhar a chegada de um outro tempo, no qual as empresas precisam de voltar a olhar para seus colaboradores a partir de uma nova perspectiva. É provável que isso passe por repensar o conceito de Recursos Humanos, justamente para que este seja capaz de assegurar que haja mais humanidade nas relações internas. Mais espaço para o erro. Mais segurança psicológica para a vulnerabilidade.

Não será prudente ignorar os impactos recentes da pandemia num fenómeno como a Solidão e no estado de espírito que ela provoca. Um estado de espírito que já estava presente, apenas estava também silencioso. A pandemia e os seus agravamentos expuseram de forma clara a importância de se olhar para a saúde mental.

Portanto, arriscamos dizer que é também provável que estejamos a vivenciar a possibilidade de uma nova evolução. Aquela que será trazida pelas empresas cujos gestores percebam que nada nunca substituirá o ser humano no papel central de tornar empresas e processos melhores, para que o resultado seja uma sociedade cujas relações e processos sejam, também, melhores. Para que essa consciência se torne prática e para que ambas sejam bem-sucedidas, reconhecer e apoiar colaboradores nas suas vulnerabilidades será fundamental.

Nesse cenário, haverá protagonistas e espectadores. Ambas as posições estão em aberto. Cabe, a cada gestor, escolher em qual cadeira vai se sentar.