Já todos pensámos muitas vezes que não haverá um novo começo e já muitas vezes nos disseram que é preciso retirar lições das nossas descidas ao inferno, que o tempo cura tudo, que precisamos de fazer os lutos, que dias melhores virão.
POR MARIA JOÃO RAMOS

Há muitos meses, quando ainda ninguém sabia o que nos esperava, e a propósito de um curso de formação em técnicas de apresentação, dei por mim a refletir sobre sustentabilidade pessoal e pegadas emocionais.

Ouvimos dizer muitas vezes que há pelo menos duas coisas que crescem quando partilhadas: o amor e o conhecimento. Talvez por isso seja interessante oferecer conhecimento pessoal como uma parte daquilo que nos sustenta. Ao resolver falar de sustentabilidade pessoal, penso que se poderia esperar que falasse de desenvolvimento sustentável. Mas sustentabilidade, na verdade, é uma palavra com pouco significado se não lhe dermos o devido preenchimento.

Em entrevista ao Jornal de Negócios, em 2021, o Comendador Rui Nabeiro afirmou que há muitas formas de sustentabilidade e que a palavra sustentabilidade é muito saudável. Por que razão resolvi então não falar de desenvolvimento sustentável? Porque acredito verdadeiramente que o planeta nunca será sustentável se as pessoas não forem sustentáveis.

No âmbito da formação que referi, fiz uma apresentação que começava da seguinte forma: “Todos podemos fazer a diferença, mas…” e o “mas” era condicionado ao facto de só podermos ter um planeta saudável se tivermos pessoas saudáveis. E o que é isso de um planeta saudável?

Quando se fala de sustentabilidade do planeta, estamos a falar do equilíbrio de recursos sociais, ambientais, económicos e culturais. Quando se fala de pessoas saudáveis, pensamos no equilíbrio entre a mente e o corpo. Ao fim ao cabo estamos a referir-nos àquele que é para quase todos nós, humanos, o mais importante dos 5 P’s – as PESSOAS (não retirando a devida importância aos outros 4: Paz, Prosperidade, Planeta e Parcerias)

Indo direta à pegada emocional (que compõe a sustentabilidade pessoal), que conceito será este quando o que ouvimos é falar da pegada de carbono? Não é fácil convencerem-nos que o corpo e a mente devem ser tratados com a mesma dedicação ou vontade que temos para tratar do planeta. Infelizmente, muitas vezes aprendemos da pior maneira. Quando temos algum episódio infeliz na vida, quando temos algum acidente, quando alguém que nos é próximo morre, quando ficamos desempregados, quando ficamos doentes, quando nos tratam mal, quando nos apercebemos de situações mal resolvidas, quando nos rodeamos de pessoas tóxicas, ou até mesmo quando sofremos e não procuramos ajuda. Já todos experienciámos também a Lei de Murphy. Porque há na vida fases assim. Quando algo pode correr mal, corre mesmo mal.

E falamos nisto com amigos, com família, com psicólogos, arranjamos refúgios e subterfúgios. Mas raramente falamos nas consequências das pessoas que passam por nós e das experiências que vivemos. Quando ficamos mentalmente falidos (porque é isso que nos acontece) que planeta vamos nós salvar? (atentar que mentalmente falido é muito diferente de moralmente falido; enquanto os primeiros devem ser recuperados, os segundos são um problema para a sustentabilidade do planeta, porque ameaçam a nossa felicidade e, consequentemente, o bem-estar do planeta).

Mas hibernar, quando a vida não nos corre bem, não é uma opção. O mundo não para, o planeta continua a precisar de ajuda. Mas que ajuda podemos dar ao planeta se não cuidarmos primeiro de nós próprios?

Já todos pensámos muitas vezes que não haverá um novo começo e já muitas vezes nos disseram que é preciso retirar lições das nossas descidas ao inferno, que o tempo cura tudo, que precisamos de fazer os lutos, que dias melhores virão. Também sabemos que abraçar, beijar, gargalhar, termos pessoas positivas ao nosso lado, sermos simpáticos connosco e com os outros, estarmos com quem nos ouve, com quem gosta de nós, com quem nos faz bem e não nos puxa para o fundo do poço, são tudo estratégias que devemos adotar diariamente.

E também quase todos passámos por momentos de perda, sejam causados pela morte, pela doença ou pelo afastamento misterioso. Sabemos que tudo isto nos pode acontecer. Então porque é que não nos aproveitamos? Não nos valorizamos? Não criamos regularmente momentos que nos tragam alegrias e borboletas à barriga? Por que motivo não desocupamos espaço que está mais ocupado com as más memórias do que com as boas? Porque é que não enfrentamos as tempestades com bravura, se já sabemos que elas vão passar? Porque é que continuamos a atravessar desertos que nos parecem impossíveis de atravessar?

Mesmo quando falamos em mudança de comportamentos para a sustentabilidade, não há muitas dúvidas que essa mudança deverá começar em nós. Recentemente, em reportagem da SIC Notícias, Mauro Paulino (Psicólogo Clínico e Forense), a propósito da euforia dos desejos costumeiros para o início do ano (com ou sem passas), referiu que o mar de intenções e vontades que habitualmente carregamos na passagem de ano de pouco serve se não for acompanhado por “um plano de ação realista e que vise a construção de novos hábitos”. E este caminho só se faz se a saúde psicológica estiver no centro das atenções. Caso contrário, essas intenções nem chegam ao final de janeiro.

“Quando temos saúde psicológica, tendemos a sentir-nos confiantes e capazes de lidar com a nossa vida e com as outras pessoas”. Se a isso juntarmos a saúde física alcançaremos mais facilmente o bem-estar, o que nos levará a lidar melhor com o stress do dia-a-dia, “a trabalhar produtivamente e contribuir, de forma ativa, para a comunidade”, e, em última análise, a construir um planeta verdadeiramente sustentável, tendo assim a possibilidade de o salvar.

Claro que, como em tudo, entre o parecer e o ser pode existir uma grande distância. Parece fácil, mas não é. Requer trabalho todos os dias. Cada um de nós deve tentar encontrar o seu equilíbrio. No entanto, uma vez mais, uma boa receita para uns pode não ser uma boa receita para outros. O facto de alguém procurar, por exemplo, acompanhamento profissional, não lhe irá por si só garantir a cura. Significa apenas que é uma ferramenta, um recurso. Mas o equivalente a essa ferramenta para outra pessoa pode ser comer um gelado, um sorriso colorido, um mergulho no mar, uma viagem, uma meditação ou um abraço amigo.

Muitos estudos indicam vários elementos que “contribuem, promovem e protegem a nossa saúde” física e psicológica: o “social”, o sexo, a alimentação, o exercício, o sono, entre muitos outros, mas todos eles capazes de interferir com a nossa autoestima, com os nossos sentimentos, com as nossas sintomatologias, com a nossa saúde, com o nosso humor, com a nossa (in)felicidade, com as nossas emoções, com as nossas endorfinas, com as nossas capacidades cognitivas, com a nossa produtividade, com o nosso sistema imunitário, com as nossas relações, com a nossa memória… e a lista é infindável.

Olhando para a minha experiência pessoal, acredito que há vários passos que podemos dar. O primeiro é utilizar o truthtelling antes do storytelling. Dizermos a verdade a nós próprios, muito antes de a partilharmos seja com quem for. Até porque sabemos que na maioria das vezes a nossa verdade é muito diferente da verdade dos outros. Um segundo passo é assumir que não sabemos tudo e que, da mesma forma que devemos partilhar o nosso conhecimento, devemos também ser “todos ouvidos”. Porque a comunicação faz-se sempre que exista um emissor e um recetor.

E por aí fora, porque os passos nunca mais terminam: temos que cuidar da saúde, temos que cuidar das pessoas, temos que cuidar das nossas relações profissionais e pessoais e temos de trabalhar para a nossa felicidade, para o nosso propósito, para a nossa mudança e para o nosso autoconhecimento.

E como é que fazemos tudo isto? Há uma infindável lista de recursos: dormir bem, meditar, beber um copo de vinho, consultar um psicólogo, comer torradas com manteiga, dedicar tempo aos filhos, apreciar a natureza, ouvir música, ler, sorrir, fotografar, prestar atenção aos animais, trabalhar… O certo é que somos únicos no mundo e há uma solução tailor made para cada um de nós, com o apoio de todos os recursos e ferramentas disponíveis. A maior responsabilidade que temos na vida é a de investir no autocuidado. A forma como muitas vezes nos boicotamos, nos agredimos e não nos damos a devida atenção, desvia-nos do essencial.

Normalmente só nos ocorre tratar da mente e do nosso corpo se tivermos alguma infelicidade na vida. Mas calcular a nossa pegada emocional ajuda-nos a perceber as consequências das pessoas que passam por nós e o impacto (positivo ou negativo) que tivemos ao passar na vida dessas pessoas. Ajuda-nos a perceber o rasto de sentimentos e emoções que carregamos e como é que isso afeta os outros. Como podemos controlar a nossa pegada emocional? Tentando afastar a poluição emocional, o que pode não ser nada simples, porque as emoções são contagiosas.

Se quisermos transportar tudo isto para a vida profissional percebemos melhor porque é que nos dias de hoje os cursos de gestão e liderança têm cadeiras de mindfulness ou gestão da felicidade e nas empresas já encontramos funções como gestores de pessoas e gestores da felicidade. Da mesma forma que existem gestores da sustentabilidade.

A sustentabilidade é, por tudo isto, um modo de vida, mas é um modo de vida que começa em nós. Ninguém nos prepara para o que vai acontecendo no mundo, mas quanto melhor nós estivermos, mais vamos fazer pelo Planeta.

“Todos podemos fazer a diferença, mas…” precisamos de estar bem. Sustentabilidade com pés e cabeça é literalmente sustentabilidade com pés (saúde física) e com cabeça (saúde mental).

(este artigo é suportado na experiência real e pessoal e não pretende ter qualquer base científica)

Maria João Ramos

Consultora para o desenvolvimento sustentável