Nas muitas sondagens que têm sido feitas sobre o apoio dos cidadãos russos à “operação militar especial”, a maioria dos inquiridos responde que sim. Mas se muitos o afirmam convictamente, outros há que preferem dizer publicamente o contrário do que sentem em privado, em particular numa altura em que novas leis de censura estão a punir qualquer desvio à narrativa do Kremlin. Todavia, e mesmo entre os que se declaram como apoiantes da ofensiva russa na Ucrânia, existem vários grupos que manifestam de forma distinta os motivos pelos quais o fazem. Uma investigação independente realizada pelo Public Sociology Laboratory, assente em entrevistas com cidadãos russos, explica as diferenças encontradas nas suas respostas, contribuindo para uma visão mais realista do que realmente pensa um povo habituado a viver num regime autoritário e ditatorial
POR HELENA OLIVEIRA

No início de Março, a Rússia aprovou uma lei segundo a qual a publicação de “informações falsas” sobre o que o exército russo está a fazer em território ucraniano é punível até 15 anos de prisão. Na prática, esta lei significa uma punição por se relatar qualquer coisa que desafie as narrativas do Kremlin sobre a sua campanha na Ucrânia, a qual e como sabemos, continua a ser apelidada de “operação militar especial”, estando os meios de comunicação social russos proibidos de lhe chamar “guerra” ou “invasão”

Para a maioria dos russos, a televisão continua a ser a sua principal fonte das notícias, sendo firmemente controlada pelo Kremlin e onde domina por completo a propaganda, algo em que a Federação Russa é especialista há muitos e muitos anos. Assim, a mensagem central que chega a casa dos russos é a de que os ucranianos bombardeiam as suas próprias cidades e que as tropas russas são apresentadas como libertadoras de um povo oprimido e insatisfeito com o seu governo. Já no que respeita à informação do mundo online, a maioria dos websites independentes foram bloqueados, o memo acontecendo com o Facebook, o Instagram e o Twitter. Apesar de não ser propriamente difícil tornear estes bloqueios e censuras, a verdade é que a maioria do povo russo continua a eleger a televisão como a sua fonte credível de notícias.

De acordo com um ensaio escrito por uma jornalista da revista The Atlantic e ao longo da última década, em vez de promover um paraíso comunista, a propaganda russa moderna tem-se concentrado nos seus inimigos. Aos russos fala-se muito pouco sobre o que acontece nas suas próprias cidades ou vila sendo estes, pelo contrário, constantemente “informados” sobre lugares que não conhecem e que, na sua maioria, nunca viram: seja a América, a França, a Grã-Bretanha, a Suécia ou a Polónia – “lugares cheios de degenerescência, hipocrisia e ‘Russofobia’” – é assim que o Kremlin vai alimentando o ódio dos cidadãos no que respeita aos “estrangeiros”. Por exemplo, um estudo sobre a televisão russa compreendendo o período de 2014 a 2017 concluiu que as notícias negativas sobre a Europa apareceram nos três principais canais russos, todos eles controlados pelo Estado, uma média de 18 vezes por dia.

Desta forma, não é surpreendente que uma boa parte dos russos apoie a “operação especial” de Putin, mais a mais com a enorme campanha que tem sido feita para desumanizar os ucranianos.

Mas e na verdade, será que o povo russo pensa todo da mesma maneira? Esta tem sido uma das questões debatidas ao longo desta guerra que já ultrapassou os 60 dias e as respostas não são unânimes, muito por falta de credibilidade nas sondagens de opinião que têm sido feitas que, não sendo fiáveis por serem dirigidas por empresas leais ao Estado russo, podem distorcer os resultados em relação aos inquiridos que não apoiam a política governamental vigente e até mesmo aos que a apoiam.

Mas, mais importante ainda é o facto de as sondagens de opinião não mostrarem como pensam as pessoas que aparentemente apoiam a “operação especial” dos militares russos na Ucrânia. Quem são estas pessoas? O que é que elas apoiam exactamente? Qual é a lógica por detrás do seu pensamento?

Foi por este motivo que o Public Sociology Laboratory, um colectivo de investigação independente, começou a realizar entrevistas na Rússia no dia 27 de Fevereiro – apesar da propaganda, censura e do medo – continuando a fazê-lo até hoje, recolhendo testemunhos com pessoas tanto offline como online. Os resultados foram publicados pela Social Europe num artigo assinado por Evetlana Erpylevam investigadora no Laboratório de Sociologia Pública e no Centro de Investigação Sociológica Independente e pós-doutorada no Centro de Investigação para Estudos da Europa Oriental, da Universidade de Bremen, com enfoque nos movimentos sociais e acção colectiva, participação política e juventude na Rússia.

Como escreve a investigadora, é frequente pensarmos naqueles que apoiam a guerra como pessoas que acreditam na propaganda do Estado russo, que acreditam que a Ucrânia foi “capturada pelos nazis” e/ou que a Ucrânia (com a ajuda da NATO) estava a planear um ataque a Donbas e à Crimeia, tendo como objectivo final a Rússia. Outro estereótipo é que estas pessoas apoiam cegamente o presidente Vladimir Putinou estão dispostas a ignorar as consequências negativas das sanções económicas do Ocidente contra a Rússia. Todavia, a investigação mostra que as razões que levam as pessoas a apoiar a operação militar russa na Ucrânia são mais complicadas do que parecem. As primeiras entrevistas realizadas demonstraram que não é possível compilar um retrato “completo” de uma pessoa que apoia a guerra contra a Ucrânia e que, em vez disso, são de espécies diferentes os tipos de apoio, os quais foram separados em diferentes grupos de acordo com as entrevistas realizadas. Porque a investigação é longa, sumarizamos de seguida o que consideramos realmente essencial para compreender melhor os motivos de apoio à “operação especial” da autoria de Vladimir Putin.

Os que acreditam na propagando do Estado

Entre os russos que apoiam as acções dos militares contra a Ucrânia, o grupo de investigação encontrou pessoas que tendem a reproduzir os clichés da propaganda estatal russa no seu próprio raciocínio. Estas pessoas confiam nas fontes de informação oficiais russas (e na maioria das vezes não consomem outros meios de comunicação social a não ser a televisão), justificam a guerra referindo-se à necessidade de proteger os habitantes de Donbass do regime ucraniano (referido como “nacionalista”, “nazi” ou “fascista”) e de combater o “nazismo” ou o “fascismo” ucraniano em geral.

Apesar de se mostrarem incomodadas com as baixas civis entre os ucranianos, acreditam contudo que a responsabilidade é do exército ucraniano e que este último, dizem, esconde-se em zonas residenciais abrindo fogo sobre os civis, ao memo tempo que se sentem inclinados a admitir que as sanções atingirão a economia russa, estando contudo prontos a “suportar” as suas consequências. Apoiam Putin e, apesar de verem problemas internos na Rússia, estão prontos a esquecê-los e a perdoá-los durante este período particularmente difícil para o país.

Todavia, se na primeira semana da guerra, nenhum dos apoiantes deste tipo sugeriu que a informação recebida de fontes oficiais russas pudesse ser imprecisa ou incompleta, com o passar do tempo parecem começar a duvidar da imagem do mundo que lhes é passada.

Os apoiantes do “mundo russo”

Os investigadores encontraram também apoiantes ideologicamente motivados para o “projecto imperial ” de Vladimir Putin. São pessoas que formaram a sua atitude em relação à política externa russa (em geral, e aos Estados vizinhos em particular) muito antes da invasão e com simpatias imperiais e/ou opiniões nacionalistas, que sonham com uma Rússia forte que finalmente derrotaria o seu inimigo eterno: o Ocidente.

Estes apoiantes não só justificam a guerra da Rússia contra a Ucrânia, como também a acolhem com satisfação. Aos seus olhos, o conflito entre a Rússia e o mundo ocidental já se arrasta há demasiado tempo, sendo que a guerra contra a Ucrânia é apenas uma tentativa de estabelecer a paz no futuro (apesar da retórica militante da NATO), acabar com o nacionalismo agressivo na Ucrânia e devolver os ucranianos da zona oriental de volta ao “mundo russo”.

À partida surpreendente é o facto de estas mesmas pessoas se assumirem como cépticas quanto à propaganda televisiva russa, considerando-a estúpida e ineficaz, e clamando por uma “melhor propaganda”. Este grupo sabe que as forças russas mataram civis ucranianos, mas tende a acreditar que o exército russo está a tentar evitar baixas civis, que as forças armadas da Ucrânia ocupam posições em zonas residenciais e provocam baixas e que as vítimas são inevitáveis em qualquer guerra. E, por fim, os que integram este grupo não receiam as sanções económicas porque, do seu ponto de vista, estas ajudarão apenas a Rússia a libertar-se da sua dependência económica em relação ao Ocidente.

Os que se sentem ameaçados pela NATO

O terceiro grupo preferia que não houvesse guerra mas e desde que esta começou, justifica o conflito pela necessidade de responder ao avanço da NATO para leste.

Como referiu à equipa de investigação um funcionário de 27 anos de Moscovo “penso que deveria ter sido possível chegar a um acordo nos últimos oito anos, encontrar algumas formas de contacto para resolver esta questão através da diplomacia, sem acção militar”.

Estas pessoas são cépticas em relação à propaganda militar russa e não confiam nos seus meios de comunicação oficiais. Utilizam uma variedade de fontes de informação, incluindo a que é divulgada pela oposição russa e pelosos meios de comunicação ucranianos. Tendem a acreditar que a guerra levará ao declínio económico na Rússia, ao empobrecimento da população e à divisão da sociedade russa em campos de guerra (uma preocupação particular para muitos deles). Estes apoiantes da guerra (apesar de estarem contra ela no início) podem também ser críticos das políticas internas de Putin, afirmando, por exemplo, que “muitos problemas se acumularam no interior do país” ao longo do seu governo.

Os que têm ligações pessoais com Donbass

O quarto grupo é de menor dimensão, mas ainda assim importante: integra pessoas que estão pessoalmente ligadas a Donbass e que consideram a “nova guerra” como uma oportunidade para pôr fim à “velha guerra” – o conflito em curso desde 2014. Tanto eles próprios como os seus entes queridos já experimentaram as acções militares da Ucrânia contra Donbass, viram baixas entre os civis e não estão, portanto, chocados com novas vítimas. O proeminente cliché da propaganda russa “Onde estiveram nos últimos oito anos?”, uma referência a 2014, é para eles uma experiência da vida real. Por outro lado, tendem a tratar as autoridades russas com indiferença ou mesmo negatividade, mas em “momentos críticos”, tomam o seu lado, o qual pode igualmente ser o mesmo daqueles que amam.

Por último, estas pessoas acreditam realmente que a actual invasão possa “acabar com a guerra”. Complementarmente e na sua opinião, o principal objectivo do governo russo deveria ser o de acabar com as hostilidades na sua terra natal, estando menos interessados numa ofensiva do exército russo em Kiev do que em outro confronto entre a Rússia e a NATO. E, provavelmente vêem agora que o fim da guerra não chegará em breve.

Os apoiantes “acima de tudo”

Para os responsáveis desta investigação, este último grupo de apoiantes da guerra pode ser um dos mais interessantes, pelo menos do ponto de vista sociológico: ou seja, é composto por pessoas que criticam as causas, o curso e as consequências aparentes do conflito, mas que respondem positivamente quando lhes perguntam directamente se apoiam a invasão. Por não estarem prontas para responder a perguntas sobre a guerra, é muito difícil convencê-las a dar uma entrevista e, por conseguinte, estão sub-representadas nas amostras da investigação.

No entanto, e depois do início da guerra, este grupo manifesta narrativas ideológicas opostas: têm familiares e conhecidos na Ucrânia ou jovens em idade militar com quem estão preocupados; os seus amigos e colegas apresentam-lhes frequentemente factos contraditórios; o seu círculo imediato (incluindo jovens ou familiares simpatizantes da oposição) tenta convencê-los a não acreditar no que é falso; sentem pena das pessoas que estão a morrer na Ucrânia; o seu nível de vida está a cair devido às sanções económicas; não vêem razões para o que está a acontecer, mas acreditam que pode haver motivos importantes para tal. Estas pessoas não têm uma “opinião” consistente que as empresas de sondagens possam avaliar, mas são “contadas” como apoiantes da guerra.

A boa notícia é que também são muitos os russos que estão veementemente contra esta guerra. E contra o regime ditatorial de Putin também.

FOTO: Bailarinas no teatro de Donetsk formam a letra Z, que simboliza o apoio às tropas de Vladimir Putin, mesmo não constando do alfabeto russo.

Fonte e vídeo em: https://t.me/tv360/75989

Helena Oliveira

Editora Executiva