Cada época tem os seus enganos, as suas mentiras convenientes, os seus ziguezagues a imitar. A chamada Responsabilidade Social das Empresas (RSE) é o último grito de uma moda feita de falsos contrastes: entre “social” e “mercado”, entre “ética” e “negócios”
POR JOSÉ MANUEL MOREIRA*

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José Manuel Moreira foi professor, durante 24 anos, na Faculdade de Economia do Porto, leccionando actualmente na Universidade de Aveiro. É co-autor do livro “Gestão Ética e Responsabilidade Social – Um estudo da situação portuguesa”.
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É verdade que, bem entendida, a RSE não contrapõe a rentabilidade económica às preocupações sociais e ambientais. Mas quantos negócios e interesses não aspiram a esconder-se sob o manto diáfano do “social” e a uma lucrativa remissão de pecados? Quem não sente o entusiasmo de tantos mentores da RSE pelos subsídios do Estado e pelas doações de empresas em campanhas de marketing, solidariedade ou filantropia, onde se reclama uma percentagem certificadora da quota de “preocupação social”?

E como é forte a pressão para a obtenção de uma espécie de licença para funcionar e como abundam advogados, explicadores e manuais de boas acções, onde o lucro é olhado de soslaio.

Pena é que muitos destes supostos representantes do “social” tenham pouca ideia do que é uma empresa e de como se processa a criação de valor, e que tantos empresários não pressintam o perigo de usar a RSE como legitimação ideológica – a empresa “boa cidadã” – e como biombo para esconder a falta de ética.

Será que não se dão conta de que a consideração de todos os “stakeholders” como principais não só cria condições para uma crescente politização da vida empresarial como mina a verdadeira responsabilidade social que consiste na criação de valor, na potenciação da capacidade criadora das pessoas?

Que tal começar pelo que Jack Welch, ex-Presidente da General Electric, chamou o muito talento desperdiçado: “o talento das pessoas está subestimado e os seus conhecimentos infra-utilizados.” Daí a insistência em que “a nossa principal tarefa consiste em voltar a definir radicalmente a nossa relação com os empregados. O objectivo é construir um lugar onde tenham a liberdade para ser criativos, onde tenham uma verdadeira sensação de realização, um lugar que saque o melhor de cada um.”

Não será esta a verdadeira responsabilidade pessoal do empresário: fomentar a capacidade criadora das suas pessoas? E a primeira função social da empresa aumentar as possibilidades reais dos seus trabalhadores? Não será tempo de, na linha de C.K.Prahalad e do seu “The Fortune at the Bottom of the Pyramide: Eradicating Poverty Through Profits”(2005), se começar a perceber que a maiores possibilidades correspondem também maiores possibilidades de benefícios monetários. E que é, por isso, que a verdadeira responsabilidade social, mais que devolver, e até mais que lucros e impostos, é criar.

É incentivar a empresarialidade das pessoas, a começar pelas que estão no “bottom of the pyramide”. Os “mercados BOP” que, para Prahalad, numa linguagem muito próxima da escola austríaca, consistem nos mercados com maior potencial de crescimento e que residem onde menos se espera: na base da pirâmide.

Só que esta linguagem não casa bem com a necessidade de protagonismo dos “salvadores” da pátria – e até do planeta – nem com o espectáculo das ajudas de conveniência e da promoção paga a bom preço pelo bem-fazer aos coitadinhos. Gente “social” que sem as vítimas – do excesso de Estado e da falta de Justiça – e sem o ruído mediático fica sem saber bem o que fazer.

Para onde iriam as instituições que se dedicam às “photo opportunities”, das revistas aos prémios? A esta gente não interessa a máxima: “que a tua mão esquerda não saiba o que fez a direita”. É, por isso, pouco dada ao silêncio da dádiva. A preferência vai para boa publicidade, para a ajuda com dinheiro alheio. Por que será que empresas tão bem colocadas nos rankings da RSE coincidem com as que aparecem na imprensa pelas piores razões? Por que será que L. von Wiese costumava dizer que ser “social” não é o mesmo que “ser recto aos olhos de Deus”?

Estranha-se não se ter aprendido com o que deu a crença em modelos sociais que deram em esquemas incentivadores de comportamentos anti-sociais. Mas talvez as pessoas queiram os incentivos, a indústria dos macacos tenha amendoins para dar e a macacada influente não resista à promoção, quiçá para memória futura.