De acordo com o Relatório de Riscos Globais 2023 publicado pelo Fórum Económico Mundial, os conflitos e tensões geoeconómicas desencadearam uma série de riscos globais profundamente interligados. Estes incluem, entre várias outras, crises de fornecimento de energia e alimentos, que provavelmente persistirão nos próximos dois anos, a par de fortes aumentos no custo de vida. E, em simultâneo, assistiremos a um minar dos esforços para enfrentar os riscos a longo prazo, nomeadamente os relacionados com as alterações climáticas, a biodiversidade e o investimento em capital humano. Mas há muito mais e não é bonito de se ler
POR HELENA OLIVEIRA

Depois de um alívio por, em princípio, termos combatido a pandemia que em muito mudou as novas vidas, para além de ter ceifado as de tantas pessoas, começámos a respirar fundo e a tentar reerguermo-nos com vista à recuperação económica e social do planeta. Mas esse alívio foi de curta duração e quase logo a seguir a invasão da Ucrânia voltou a perturbar profundamente o mundo como o conhecemos, com novas crises de ordem variada, principalmente na alimentação e energia, e a reactivar problemas que ao longo de décadas de progresso se procuraram resolver.

Duas disrupções desta envergadura em apenas três anos ficarão decerto na história da Humanidade e, para o Fórum Económico Mundial (FEM), encontramo-nos no limiar de uma era de baixo crescimento e baixa cooperação, o que irá contribuir para minar os (ainda insuficientes) avanços na acção climática, bem como o desenvolvimento humano e a resiliência futura. Divulgado, como de costume, uns dias antes da conferência de líderes em Davos, que teve início na segunda-feira desta semana, o FEM publicou o seu habitual Relatório de Riscos Globais (RRG), chamando a atenção para o facto de que estamos a viver uma época em que perturbações antigas e novas se associam.

De acordo com o relatório, estamos a assistir ao regresso de riscos “mais antigos” – inflação elevada, aumento do custo de vida, guerras comerciais, saídas de capital dos mercados emergentes, agitação social generalizada, confrontos geopolíticos e o espectro da guerra nuclear – que poucos dos líderes empresariais e decisores políticos desta geração conheceram. Estes estão a ser ampliados por desenvolvimentos relativamente novos no panorama global de riscos, incluindo níveis insustentáveis de dívida pública, uma nova era de baixo crescimento, com investimentos globais reduzidos, “desglobalização”, um declínio no desenvolvimento humano após décadas de progresso, desenvolvimento rápido e sem restrições de tecnologias de dupla utilização (civil e militar) e a crescente pressão dos impactos das alterações climáticas numa janela cada vez mais estreita para a transição para um mundo a 1,5°C. Juntos, este emaranhado de riscos estão a convergir para moldar uma década única, incerta e turbulenta que se avizinha, alerta o relatório do FEM. 

De acordo com o RGG a crise do custo de vida é o maior risco a curto prazo, enquanto o fracasso da mitigação e da adaptação ao clima são as maiores preocupações a longo prazo. E a não ser que o mundo comece a cooperar mais eficazmente para combater a crise climática, é garantido que nos próximos 10 anos tal poderá conduzir a um aquecimento global contínuo e a uma degradação ecológica. A incapacidade de mitigação e adaptação às alterações climáticas, as catástrofes naturais, a perda de biodiversidade e a degradação ambiental representam cinco dos 10 maiores riscos a 10 anos – sendo a perda de biodiversidade vista como um dos riscos globais que mais rapidamente se deteriorará durante a próxima década. 

Paralelamente, uma liderança caracterizada por crises e rivalidades geopolíticas corre o risco de criar angústia social a um nível sem precedentes. É que à medida que os investimentos na saúde, educação e desenvolvimento económico desaparecem, as perturbações na coesão social serão cada vez mais visíveis. Adicionalmente, existem duas novas entradas no ranking dos riscos para os próximos dois anos: o cibercrime generalizado e insegurança cibernética, a par da migração involuntária em grande escala. Segue-se a tabela dos 10 principais riscos identificados no RRG para a próxima década, em conjunto com os que terão maior peso nos próximos dois anos. O VER sumariza de seguida algumas das preocupações mais relevantes do estudo.

O fim de uma era económica, com a próxima a apresentar maiores riscos de estagnação, divergências e angústias

As sequelas económicas da COVID-19 e a guerra na Ucrânia provocaram uma subida vertiginosa da inflação, uma rápida normalização das políticas monetárias e deram início a uma era de baixo crescimento e investimento.

Os governos e os bancos centrais poderão enfrentar pressões inflacionistas persistentes ao longo dos próximos dois anos, sobretudo se perdurar a guerra na Ucrânia, acompanhadas por estrangulamentos contínuos provocados por uma pandemia ainda persistente, a par da guerra económica que estimula quebras perturbadoras na cadeia de abastecimento. 

Por seu turno, uma má regulação entre as políticas monetárias e fiscais aumentará a probabilidade de choques de liquidez, sinalizando uma desaceleração económica mais prolongada e o desespero da dívida a uma escala global. Uma inflação contínua induzida pela oferta poderá ainda conduzir a uma estagflação, cujas consequências socioeconómicas podem ser graves, sem esquecer os níveis historicamente elevados da dívida pública.

Mesmo que algumas economias tenham uma crise económica mais suave do que o esperado, o fim da era das taxas de juro baixas terá ramificações significativas para governos, empresas e indivíduos, com os efeitos a serem sentidos com maior intensidade pelas partes mais vulneráveis da sociedade e pelos Estados já frágeis, contribuindo para o aumento da pobreza, fome, protestos violentos e uma enorme instabilidade política. As pressões económicas irão também corroer os ganhos obtidos pelas famílias de rendimento médio, estimulando o descontentamento, a polarização política e os apelos a uma maior protecção social em países de todo o mundo. A nova era económica deverá ainda agudizar a enorme desigualdade entre países ricos e pobres e o primeiro retrocesso no desenvolvimento humano em décadas.

Enquanto a natureza entra em colapso, os esforços de mitigação dos eventos climáticos e de adaptação ao clima continuam aquém do esperado

Os riscos climáticos e ambientais consistem no foco central da percepção dos riscos globais durante a próxima década e são considerados como aqueles para os quais estamos menos preparados. A crescente procura de recursos dos sectores público e privado resultante de outras crises reduzirá a velocidade e a escala dos esforços de mitigação nos próximos dois anos, a par de progressos insuficientes no sentido do apoio urgente à adaptação das comunidades e países cada vez mais afectados pelos impactos das alterações climáticas.

Como as crises actuais desviam os recursos dos riscos que surgem a médio e longo prazo, os encargos sobre os ecossistemas naturais aumentarão, dado o seu papel ainda subvalorizado na economia global e na saúde planetária em geral. Sem mudanças políticas ou investimentos significativos, a interacção entre os impactos das alterações climáticas, a perda de biodiversidade, a segurança alimentar e o consumo de recursos naturais acelerará o colapso dos ecossistemas, ameaçará o abastecimento alimentar e os meios de subsistência nas economias mais vulneráveis ao clima, ampliará os impactos das catástrofes naturais e limitará novos progressos na mitigação do clima.

Crises alimentares, energéticas e de aumentos no custo de vida agravam a vulnerabilidade da sociedade, ao mesmo tempo que diminuem os investimentos no desenvolvimento humano 

As crises “combinadas” estão a alargar o seu impacto na sociedade, atingindo os meios de subsistência de uma parte ainda mais vasta da população e desestabilizando mais economias no mundo e não só das comunidades tradicionalmente vulneráveis e dos Estados mais frágeis. Com base nos riscos mais graves que se espera virem a ter maior impacto em 2023 – incluindo a “crise de abastecimento energético”, a “inflação crescente” e a “crise de abastecimento alimentar” – assistimos já a uma crise global no custo de vida., a qual se pode transformar numa crise humanitária mais vasta nos próximos dois anos nos mercados mais dependentes das importações.

A crescente frustração dos cidadãos perante as perdas visíveis no desenvolvimento humano e o declínio da mobilidade social, juntamente com uma crise alargada de valores e igualdade, colocam igualmente um desafio existencial nos sistemas políticos em todo o mundo. A eleição de líderes menos centristas, bem como a polarização política entre superpotências económicas ao longo dos próximos dois anos poderão também vir a reduzir ainda mais o espaço para a resolução colectiva de problemas, fracturando alianças e conduzindo a uma dinâmica mais volátil.

De acordo com o relatório do FEM e durante os próximos 10 anos, menos países terão a margem fiscal necessária para investir no crescimento futuro, em tecnologias verdes, na educação e nos cuidados e sistemas de saúde. A lenta degradação das infra-estruturas e dos serviços públicos, tanto em mercados em desenvolvimento como nos avançados, pode ser relativamente subtil, mas a acumulação de impactos será altamente corrosiva para a força do capital humano e do desenvolvimento. 

A tecnologia irá exacerbar as desigualdades enquanto os riscos da cibersegurança continuarão a ser uma preocupação constante

O sector tecnológico estará entre os alvos centrais de políticas mais fortes e de uma maior intervenção estatal. Estimulado pela ajuda estatal e pelas despesas militares, bem como pelo investimento privado, a investigação e o desenvolvimento de tecnologias emergentes continuarão o seu caminho ao longo da próxima década, produzindo avanços na Inteligência Artificial (IA), na computação quântica e na biotecnologia, entre outras. Para os países que as conseguirem desenvolver ou comprar, estas tecnologias fornecerão soluções parciais para uma série de crises emergentes, desde o enfrentar de novas ameaças à saúde até à escalada da segurança alimentar e da mitigação do clima. Mas para os países que não têm recursos financeiros nem para os desenvolver nem para os adquirir, a desigualdade e as divergências aumentarão. O relatório alerta igualmente para a importância de se ter em mente, e seja em que economia for, que todas estas tecnologias trazem também riscos crescentes. 

A verdade é que o rápido desenvolvimento e implementação de novas tecnologias, geralmente com protocolos limitados que regem a sua utilização, apresenta o seu próprio conjunto de riscos. O entrelaçamento cada vez maior das tecnologias com o funcionamento crítico das sociedades está a expor as populações a ameaças internas directas, incluindo as que procuram abalar o funcionamento da própria sociedade. A par de um aumento da cibercriminalidade, as tentativas de perturbar os recursos e os serviços críticos apoiados em tecnologias tornar-se-ão mais comuns, com ataques previstos contra a agricultura e a água, sistemas financeiros, segurança pública, transportes, energia e infra-estruturas de comunicação domésticas, espaciais e submarinas. Complementarmente, os riscos tecnológicos não se limitam apenas a perpetradores nocivos. A análise sofisticada de conjuntos de dados maiores permitirá o uso indevido de informações pessoais através de mecanismos legais legítimos, enfraquecendo a soberania digital individual e o direito à privacidade, mesmo em regimes democráticos bem regulados.

À medida que a volatilidade em múltiplos domínios se multiplica em paralelo, o risco de “poli-crises” acelera

Choques simultâneos, riscos profundamente interligados e resiliência em erosão estão a dar origem a “poli-crises”, ou seja crises díspares que interagem de tal forma que o impacto global excede em muito a soma de cada parte. A cooperação geopolítica errática terá efeitos “cascata” em todo o cenário global de riscos a médio prazo, contribuindo assim para um conjunto de riscos ambientais, geopolíticos e socioeconómicos “entrelaçados” relacionados com a oferta e a procura de recursos naturais. 

O relatório descreve também quatro futuros potenciais centrados em torno da escassez de alimentos, água, metais e minerais, todos eles susceptíveis de desencadear uma crise tanto humanitária como ecológica – desde a luta por água e alimentos à contínua sobreexploração dos recursos ecológicos, a par de um abrandamento na mitigação e adaptação ao clima. Dadas as relações incertas entre os riscos globais, exercícios de previsão similares podem ajudar a antecipar potenciais ligações, orientando as medidas de preparação para minimizar a escala e o alcance das” poli-crises” antes que estas surjam.

Nos anos vindouros, alerta o FEM, e à medida que assistiremos ao prolongamento de crises coexistentes, serão incorporadas mutações estruturais na paisagem económica e geopolítica, acelerando os demais  riscos que enfrentamos. Mais de quatro em cada cinco inquiridos do GRPS (Global Risks Perception Survey) antecipam uma volatilidade consistente ao longo de pelo menos os próximos dois anos, com choques múltiplos que acentuam trajectórias divergentes. No entanto, os inquiridos são geralmente mais optimistas a longo prazo. Pouco mais de metade dos auscultados antecipam uma perspectiva negativa, e quase um em cada cinco prevê uma volatilidade limitada com relativa – e potencialmente renovada – estabilidade nos próximos 10 anos.

E há ainda espaço para se ter esperança de um futuro melhor?

De facto, afirmam os autores do relatório, existe ainda uma janela para moldar um futuro mais seguro através de uma preparação mais eficaz. Abordar a erosão da confiança nos processos multilaterais reforçará a capacidade colectiva de prevenir e responder a crises transfronteiriças emergentes e reforçar os planos que já estão em vigor para enfrentar riscos já bem estabelecidos. 

Além disso, alavancar a interconectividade entre os riscos globais poderá alargar o impacto das actividades de mitigação de riscos, ou seja, reforçar a resiliência numa área pode ter um efeito multiplicador na preparação global para outros riscos relacionados. Uma vez que uma deterioração das perspectivas económicas traz compromissos substancialmente mais duros para os governos que enfrentam preocupações sociais, ambientais e de segurança que concorrem entre si, o investimento na resiliência deverá concentrar-se em soluções que abordem os riscos múltiplos, tais como o financiamento de medidas de adaptação originárias dos co-benefícios de mitigação do clima, em conjunto com o investimento em áreas que reforcem o capital humano e o desenvolvimento.

Alguns dos riscos descritos no relatório deste ano estão próximos de um ponto de viragem, diz também o relatório. 

Este é o momento de agir colectivamente, de forma decisiva e com uma lente de longo prazo para moldar um caminho para um mundo mais positivo, inclusivo e estável. Mas ainda estamos no “ a ver vamos” e as perspectivas são pouco animadoras

Nota: Os créditos das imagens pertencem ao World Economic Forum

Helena Oliveira

Editora Executiva

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