Os lucros das empresas irão diminuir consideravelmente, os direitos de propriedade ficarão cada vez mais enfraquecidos e a economia baseada na escassez dará lugar, de forma crescente, à economia da abundância. O novo sistema económico, baseado na partilha e na colaboração, irá relegar, para segundo plano, o sistema capitalista. Estas são as mais recentes previsões, polémicas como sempre, do reputado professor e autor, Jeremy Rifkin
POR HELENA OLIVEIRA[pull_quote_center]A era do capitalismo está prestes a terminar…não de forma rápida, mas inevitável[/pull_quote_center]

“Um novo paradigma económico – denominado ‘Collaborative Commons’ [bens comuns colaborativos, em tradução livre] – está a nascer e irá transformar por completo a nossa forma de vida. Estamos já a testemunhar a emergência de uma economia híbrida, parte mercado capitalista, parte ‘Collaborative Commons’. Estes dois sistemas económicos trabalham, muitas vezes, em paralelo e, por vezes, em competição. Ambos estão a descobrir sinergias entre si, nas quais conseguem adicionar valor em conjunto, ao mesmo tempo que se auto-beneficiam. Mas, em outras circunstâncias, são profundamente opostos, tentando, cada um deles e continuamente, absorver ou substituir o outro.

Apesar dos indicadores existentes que apontam para este novo sistema económico serem ainda débeis e largamente empíricos, o ‘Collaborative Commons’ está em ascensão e, em 2050, é muito provável que se transforme no árbitro principal da vida económica em muitas partes do mundo. Um sistema capitalista mais simplificado, mas astuto, irá continuar a ‘exercer o seu poder’ nas margens da nova economia, encontrando vulnerabilidades suficientes para explorar, principalmente como agregador de serviços e soluções em rede, o que irá permitir o seu florescimento enquanto player poderoso de um nicho na nova era da economia, mas deixando de ser o [sistema]dominante”.

Este excerto faz parte do mais recente livro de Jeremy Rifkin, intitulado The Zero Marginal Cost Society: The Internet of Things, the Collaborative Commons, and the Eclipse of Capitalism e cuja ideia central reside no facto de desenvolvimentos como a emergente “economia da partilha” serem responsáveis pelo destronar do capitalismo. De acordo com o autor, estamos a caminhar para uma sociedade pós-consumo na qual a propriedade das coisas deixará, simplesmente, de interessar.

Autor de vários bestsellers entre os 20 livros que já escreveu sobre o impacto das mudanças científicas e tecnológicas na economia, na força de trabalho, na sociedade e no ambiente, muitos deles de leitura obrigatória em universidades, empresas e agências governamentais, Rifkin deu muito que falar quando, em 2011, escreveu The Third Industrial Revolution. A sua visão de uma era pós-carbono na economia é partilhada por vários líderes mundiais, e também pela ONU e pela União Europeia.

Nesta sua mais recente incursão pela escrita, apresenta o “Collaborative Commons” como o primeiro novo paradigma económico a enraizar-se deste o advento do capitalismo e do seu “antagonista” socialismo. Para o autor, este sistema de “bens comuns colaborativos” está já a transformar a forma como organizamos a vida económica, com implicações profundas para o futuro do mercado capitalista.

23102014_RifkinEoEclipseDoCapitalismoO fenómeno do Custo Marginal (quase) Zero
O “gatilho” para esta enorme transformação económica reside no Custo Marginal Zero. Como é sabido, o custo marginal é o custo de produção de uma unidade adicional de um determinado bem ou serviço depois de os custos fixos terem sido absorvidos. As empresas sempre procuraram novas tecnologias que fossem capazes de aumentar a produtividade e reduzir o custo marginal da produção e distribuição dos bens e serviços – para que pudessem baixar os seus preços, ganhar um número mais elevado de consumidores e aumentar a sua quota de mercado, sem esquecer o retorno dos lucros para os seus accionistas. Todavia, nenhuma empresa jamais antecipou uma revolução tecnológica que pudesse desencadear uma “produtividade extrema” capaz de fazer baixar os custos marginais para valores perto do zero, e tornando a informação, a energia e muitos bens físicos e serviços quase gratuitos, abundantes e sem estarem sujeitos a trocas de mercado. Para o reputado professor de Wharton, essa revolução está a acontecer bem debaixo do nosso nariz.

O fenómeno do “custo marginal quase zero” tem vindo a causar uma enorme reviravolta nas indústrias dos “bens de informação”, na medida em que os consumidores proactivos – denominados “prosumers” – produzem e distribuem a sua própria música através de serviços de partilha de ficheiros, os seus próprios vídeos no YouTube, o seu próprio conhecimento na Wikipédia, as suas próprias notícias nas redes sociais e até os seus próprios e-books gratuitos na Internet. Para Rifkin, o Custo Marginal Zero obrigou a indústria da música a “ajoelhar-se”, abalou profundamente a indústria cinematográfica, forçou muitos jornais e revistas a abandonarem o seu negócio e “mutilou” perigosamente a edição de livros. Um outro exemplo ainda mais recente são os seis milhões de estudantes que, de acordo com o autor e em todo o mundo, estão matriculados nos chamados Massive Open Online Courses (MOOCs), cujos custos marginais são, realmente, muito próximo do zero. Adicionalmente, estes estudantes são ensinados por alguns dos mais reconhecidos professores a nível mundial, recebendo créditos universitários e forçando as universidades a repensarem todo o seu dispendioso modelo de negócio.

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Economia global, produtividade e a “Internet das Coisas”

Tal como explica Rifkin, os economistas reconhecem o impacto poderoso do Custo Marginal Zero nas indústrias dos bens de informação mas, até há muito pouco tempo, defendiam que tal nunca seria possível na economia tradicional da energia, ou dos bens e serviços “físicos”. Mas o autor afirma que essa “parede de tijolos” foi finalmente quebrada, graças a uma revolução tecnológica poderosa que está a permitir que milhões – e, muito em breve, centenas de milhões – de “prosumers”produzam e partilhem a sua própria energia, em conjunto com um leque alargado e crescente de produtos e serviços físicos, com um custo marginal verdadeiramente próximo do zero.

Rifkin introduz assim a ideia de que a “Internet da Comunicação” está a convergir com uma “jovem” “Internet da Energia” e com uma automatizada e nascente “Internet dos Transportes e da Logística”[a tríade que compõe a Internet das Coisas], as quais estão a criar uma nova infra-estrutura tecnológica que irá alterar, de forma radical, a economia global ainda na primeira metade do século XXI.

Rifkin explica ainda que milhares de milhões de sensores estão a ser ligados a um sem número de dispositivos, aparelhos e máquinas, conectando “tudo a todos os seres humanos” numa espécie de rede neuronal que se estende ao longo de toda a cadeia de valor económico. Segundo as estimativas do autor, existem já 14 mil milhões de sensores ligados a armazéns, a sistemas rodoviários, linhas de produção fabril, redes de distribuição de electricidade, escritórios, casas, lojas e veículos, monitorizando continuamente o seu status e respectiva performance, e “alimentando”, com Big Data, a Internet da Comunicação, da Energia e da Logística e dos Transportes.

Ou, em suma, devido aos avanços imparáveis da tecnologia, e com a emergência da denominada “Internet das Coisas”, do Big Data e da analytics, que permitem a interligação do ambiente humano e natural numa rede global de conhecimento distribuído, os “prosumers” serão capazes de desenvolver algoritmos que acelerem a eficiência, aumentem gigantescamente a produtividade e diminuam o custo marginal associado à produção e distribuição de coisas físicas para níveis próximos do zero, tal como os “prosumers” já fazem hoje com os bens de informação.

Os avanços da produtividade irão, de acordo com um estudo da General Electric citado por Rifkin, afectar metade da economia global até 2025.

Sem esquecer igualmente o crescimento exponencial das energias renováveis – as quais, segundo as suas previsões, serão responsáveis por 80% da produção energética total em 2040 e de uma forma completamente descentralizada – e na medida em que ninguém pode controlar a sua fonte – o sol – , os custos da energia serão igualmente reduzidos para níveis muito próximos do zero.

Rifkin retoma também, neste livro, a tese central do seu livro publicado em 1995, “The End of Work”, no qual alertava também que a tecnologia iria tornar a maior parte do trabalho em algo obsoleto.

23102014_RifkinEoEclipseDoCapitalismo3A Economia da Abundância?
Sintetizando a visão polémica do autor habituado a polémicas, Rifkin defende que os lucros das empresas estão a começar a diminuir consideravelmente, que os direitos de propriedade estão cada vez mais enfraquecidos e que uma economia baseada na escassez está a dar lugar, de forma crescente, a uma economia da abundância.

A maioria dos economistas argumenta, no que a esta luta entre estas “duas economias” diz respeito”, que a tendência para a quase gratuidade iria desincentivar a inovação e a criação de novos bens e serviços, pois os inventores e empreendedores não teriam forma de recuperar os seus custos iniciais. Ao que Rifkin responde, mais uma vez, com os milhões de “prosumers” que colaboram de forma gratuita na criação de novas tecnologias de informação e software, de novas formas de entretenimento, de novas ferramentas de aprendizagem, de novos meios de comunicação, de novas energias limpas, de novos produtos manufacturados em 3D, de novas iniciativas peer-to-peer na saúde, e em novos negócios de empreendedorismo social sem fins lucrativos, através da utilização de acordos legais de open source libertados dos constrangimentos tradicionais da propriedade intelectual.

Apesar de assumir que é pouco provável que o mercado capitalista desapareça, Rifkin defende veementemente que o mesmo deixará de definir exclusivamente a agenda económica da civilização. Sempre existirão bens e serviços cujos custos marginais serão elevados o suficiente para garantir a sua transacção nos mercados e suficientemente lucrativos para assegurar o retorno do investimento.

Mas, num mundo em que as coisas serão potencialmente gratuitas e partilháveis, o capital social terá um papel muito mais significativo do que o capital financeiro e a vida económica será jogada, de forma crescente, num ambiente de “Collaborative Commons”.

Será mesmo assim?

Helena Oliveira

Editora Executiva

4 COMENTÁRIOS

  1. Vamos ter muito que caminhar para resolver o emprego para todos que julgo nunca mais vai haver -aqui na UE. O sustento dos milhões que não terão que fazer também tem que ser encarado e não com soluções auto-sustentáveis que não existem-

  2. Qual o efeito do crescimento incontrolável (?) da população mundial? Esta parte do problema pode ser o verdadeiro obstáculo a todas as teorias vigentes ou em ascenção. Como poderá funcionar uma nova sociedade com 10 mil milhões de pessoas, com capitalismo, socialismo ou Rifkin(ismo)?

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