Estes são os vectores fundamentais defendidos por António Pinto Leite, o recém-eleito presidente da ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestão – que tomou posse na passada quinta-feira. Numa conversa informal com alguns jornalistas da imprensa económica, “de enorme importância para a Associação”, o novo responsável reiterou a missão para os próximos três anos: formar e unificar a consciência dos líderes empresariais
POR HELENA OLIVEIRA

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Foi em ambiente calmo e descontraído, uma hora e meia antes de tomar posse como novo presidente da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE) que António Pinto Leite conversou com alguns jornalistas da imprensa económica. Começando por enumerar os 58 anos da ACEGE e o longo trajecto que a única associação cristã de empresários e gestores existente em Portugal já percorreu, António Pinto Leite sublinhou que a liderança e a responsabilidade não são apenas características inerentes ao topo, mas transversais a toda a organização. No que respeita a ACEGE e”apesar de ser claramente uma associação confessional, possui uma total abertura a todas as pessoas de boa vontade”, afirmou, não deixando de frisar que esta não representa nenhum interesse, “ a não ser o de aqueles que, nas empresas, em nós confiam”.

Formar e unificar a consciência dos líderes empresariais, a partir de três vectores absolutamente fundamentais – a responsabilidade, a integridade e a generosidade – foi e continuará a ser o grande objectivo da ACEGE, afirmou o novo presidente, acrescentando que “tendo sempre presente que a ética cristã é amor e que no interior não só da religião católica, mas de todas as religiões monoteístas, o princípio do amor ao próximo é algo que se aplica inteiramente à vida empresarial e a todos os seus stakeholders”. Daí que este exercício diário de generosidade deva ser aplicado em todos os momentos da vida das empresas e, em particular, no que diz respeito às suas políticas salariais ou às medidas de reajustamento destas. Neste ponto em particular, António Pinto leite referiu-se a um exemplo em concreto espelhado numa iniciativa lançada pela ACEGE em 2008 – o Compromisso Pagamento Pontual – que, no fundo, está igualmente enraizado no fundamento cristão que apela a “tratar os outros como gostaríamos que nos tratassem a nós”. Para a ACEGE, pagar pontualmente aos fornecedores constitui um mínimo ético e os responsáveis empresariais cristão devem empenhar-se em dar esse exemplo.

Antes de traduzir o dinamismo da Associação ao longo dos últimos anos, António Pinto Leite frisou ainda que a ACEGE acredita profundamente no “desenvolvimento pessoal, profissional e espiritual dos seus associados” e que contribuir para esse desenvolvimento faz parte integrante da sua missão.

Generosidade e cimenteira de valores
O trabalho realizado na ACEGE é feito por um enorme “exército” de voluntariado empresarial, com uma expressão cada vez maior no número de núcleos regionais já existentes. A este propósito e com 15 núcleos que cobrem, literalmente, o país inteiro e ilhas, António Pinto Leite referiu “as enormes diferenças das vidas empresariais existentes entre os núcleos”, acrescentando que “Portugal está cheio de ‘boa gente’ que pretende acertar o passo com os nossos princípios”.

No que respeita à responsabilidade social, o novo presidente focou a necessidade de não se deixar que esta seja um luxo das grandes empresas – já extremamente bem alinhadas a nível internacional, – referenciando igualmente o Portal VER, que se dedica às matérias da ética e dos valores para organizações de todas as dimensões.

Ainda em relação ao trabalho recente efectuado pela ACEGE, António Pinto Leite enumerou também o projecto “Amar a Igreja”, com vista a libertar os sacerdotes de actividades administrativas para que lhes seja possível dedicar o máximo do seu tempo à vida pastoral, à oração e ao bem comum. “A partir da nossa experiência de gestão e com o apoio primeiro da Mckinsey, e posteriormente da Deloitte, em regime de pro bono, foi possível erguer este projecto”, afirmou. A iniciativa, inicialmente dirigido às Paróquias, foi posteriormente alargada face aos pedidos da Conferência Episcopal e das Dioceses. O novo presidente descreveu ainda a Igreja que “apesar de debilidades e vicissitudes existentes em todos os universos, continua a constituir a maior história de amor que existe em Portugal, desde há 800 anos”. Ainda em estreita sintonia com a fé católica, Pinto Leite deu igualmente a conhecer um recente projecto denominado “Cristo na empresa”, uma “ideia de seniores” cujo objectivo é a reunião regular de alguns associados da ACEGE, com jovens entre os 25 e os 30 anos, que começam agora a sua vida empresarial. Constituir uma “cimenteira de valores” é a missão deste projecto empresarial que, mais uma vez, assenta na generosidade como princípio fundamental. Coincidência ou não, é patente igualmente “um acentuado rejuvenescimento dos nossos associados” que decerto contribuirão, cada vez mais, para aumentar a mais do que importante rede social de empresas que ajudarão a levar mais longe a missão da ACEGE enquanto “difusora de valores e desafios”.

Contudo, as fronteiras da ACEGE não se esgotam em território nacional. Em Fevereiro de 2009, uma delegação da ACEGE deslocou-se a Luanda para testemunhar a constituição da sua congénere angolana – a Associação Cristã de Gestores e Dirigentes (ACGD) – tendo sido assinado um protocolo de colaboração entre ambas, no sentido de um enriquecimento mútuo e beneficiando de um intercâmbio de experiências.

A nível mundial e enquanto membro da UNIAPAC, a ACEGE participou, ao longo de 2009, bem como nos anos transactos, nos diversos encontros do International Board e do European Board deste organismo internacional que congrega mais de 40 associações congéneres e que representammais de 120 mil empresários cristãos espalhados por quatro continentes. Como fez notar Nuno Fernandes Thomaz, vice-presidente da ACEGE e também presente neste encontro, “a UNIAPAC não congrega apenas os gestores católicos e tem uma actividade pedagógica da promoção da responsabilidade social, em realidades geográficas e sociais completamente distintas”. O vice-presidente chamou a atenção também para o documento geral elaborado e aprovado no Congresso Mundial da UNIAPAC, que este ano se realizou no México, denominado “The Profit of Values: a Christian Vision on CSR, a Form of Management for Long-Lasting Successful Business”, que tem como principal objectivo fornecer uma ferramenta capaz de implementar uma cultura de negócios, respeitando a pessoa e o bem comum, mas com aplicações práticas e métricas definidas. Nuno Fernandes Thomaz espera que “ao longo deste mandato de três anos, seja possível aplicar estes princípios em algumas empresas nacionais”. O vice-presidente da ACEGE recordou igualmente que aos três famosos pilares da responsabilidade social e sustentabilidade denominado de triple bottom line (ou 3 Ps) – People, Profit, Planet – deverá ser acrescentado mais um “P” que é da responsabilidade da Igreja: o de “Person”.

Com a frase “Deus faz-nos confiar”, o novo presidente da ACEGE reiterou ainda a missão empresarial da Associação: a protecção do emprego e o retirar, através de todos os meios possíveis, as pessoas do risco da pobreza.

Projecto Bem Comum ou a pedagogia forte do emprego
É a grande aposta da ACEGE para 2010 e anos seguintes: um fundo de capital de risco, no valor de 2,5 milhões de euros, para financiar projectos de empreendedorismo de quadros médios e superiores, com mais de 40 anos, e na situação de desemprego. Na medida em que “a ACEGE também deve ter a sua obra social, foi constituído este projecto a partir dos mecanismos económicos do capital de risco”, afirmou António Pinto Leite, avançando já com as entidades investidoras que irão participar no mesmo: o Banco Espírito Santo, a Caixa Geral de Depósitos, o Montepio, o Santander e o Grupo José de Mello. Como explica Nuno Fernandes Thomaz, que presidirá ao Conselho de Administração, “existe uma enorme preocupação da ACEGE como o problema da pobreza, da exclusão social e, a causa mais próxima, o desemprego. Dentro do desemprego há o facto de as pessoas a partir dos 40 anos, se caem numa situação de desemprego, dificilmente conseguirem voltar à vida activa. Ou seja, quanto maior é a expectativa biológica de vida, menor é a expectativa profissional da mesma”. O Conselho de Administração do fundo Bem Comum conta, para além de Nuno Fernandes Thomaz, com Jorge Líbano Monteiro, Manuel Cary e José Furtado em representação da Caixa, que terão como principal função ocuparem-se da gestão do mesmo “com todo o rigor financeiro”. A iniciativa tem igualmente um Comité de Investimento, que será responsável pela análise de risco do projecto e dos vários critérios de selecção das iniciativas apresentadas e no qual estarão presentes representantes das cinco entidades que nele investirão. Para além disso, e em colaboração pro bono, estão já confirmadas várias organizações, entre as quais a consultora Accenture, a McKinsey, a Partners ou a Eghon Zender. Sem esquecer vários quadros da ACEGE que acompanharão os diversos projectos.
© 2010 – Todos os direitos reservados. Publicado em 20 de Abril de 2010