Com base na premissa de que perdemos o controlo da relação que mantemos com a tecnologia porque esta se tornou muito mais eficaz a controlar-nos a nós mesmos, Tristan Harris, ex-gestor de produto e anterior Chief Ethicist da Google resolveu devotar as suas energias a dotar o design de software de integridade moral. A sua cruzada consiste em persuadir os gigantes tecnológicos a ajudarem-nos a “desligar”, deixando de lado as sofisticadas técnicas de persuasão e manipulação que dispersam a nossa atenção, gastam o nosso tempo e estão a corroer os pilares da nossa sociedade
POR HELENA OLIVEIRA

“É a tecnologia que comanda o que dois mil milhões de pessoas pensam e acreditam todos os dias. E é possivelmente a maior fonte de influência [destes pensamentos] jamais criada. Nem as religiões ou os governos conseguem ter assim tanta influência sobre os pensamentos diários das pessoas”.

Quem o afirma é Tristan Harris, considerado pela revista Faz Company como “o mais próximo que existe de uma consciência em Silicon Valley” e actualmente exclusivamente dedicado a convencer as grandes empresas tecnológicas a “guiar”, da forma mais ética possível, os pensamentos e acções dos milhares de milhões de pessoas que vivem grande parte das suas vidas colados a ecrãs variados. Depois de passar três anos na Google como gestor de produto e Design Ethicist, Tristan Harris resolveu dedicar o seu tempo e experiência (vasta) a uma organização sem fins lucrativos – a Time Well Spent – cujo principal objectivo é “fazer com que as grandes empresas de tecnologia parem de sequestrar as nossas mentes” para que as mesmas possam ser resgatadas.

Tristan Harris é o fundador do Center for Humane Technology e do movimento “Time Well Spent” – © tristanharris.com

Este especialista em tecnologia, com várias patentes em seu nome e que já passou por gigantes como a Google ou a Apple, sendo frequentemente convidado como orador em santuários académicos como o Media Lab do MIT ou a Universidade de Stanford, sabe bem do que fala quando acusa os senhores da tecnologia de dominarem um sistema “ditador” do que lemos, vemos, ouvimos e pensamos, mesmo que o façamos “livremente”. “Se nos detivermos apenas nos nossos telefones, estou a falar da Apple e da Google, porque são elas que desenham os sistemas operativos, os próprios telefones e os seus softwares. Se estivermos a falar sobre de que forma é que as pessoas passam o tempo nesses mesmos telefones, então estamos a falar do Facebook, YouTube, Snapchat e do Instagram”, enumera, numa entrevista à revista Wired.

O pioneirismo de Harris não reside, obviamente, em alertar para a forma como somos sugados pela tecnologia e como nos vamos viciando cada vez mais nas suas inúmeras seduções. O tema há muitos anos que é debatido, por várias áreas do saber, mas a verdade é que a adição tecnológica está crescentemente na ordem do dia.

O que propõe, e de uma forma inovadora, é uma espécie de renascimento no design de software que nos consiga libertar do controlo e manipulação exercido por apps, websites, publicidade e notificações literalmente intermináveis. A Time Well Spent, que corresponde a um movimento integrado no Center for Humane Technology, fundado por Tristan em 2016, pretende catalisar uma mudança rápida e coordenada entre as empresas de tecnologia através da sensibilização, do activismo, do desenvolvimento de padrões éticos para o design de software e de recomendações políticas que protejam as mentes de “manipulações nefastas”. Para já, a aparente boa notícia é que neste ano de 2018, Mark Zuckerberg abraçou o termo cunhado por Harris – “time well spent” -, como um objectivo para a política de design de software do Facebook.

[quote_center]Tristan Harris está a desenvolver uma estrutura de persuasão ética, em particular no que diz respeito à responsabilidade moral das empresas de tecnologia[/quote_center]

Como seria de esperar, Tristan Harris não está sozinho nesta cruzada. Para além de um grupo considerável de “interessados” no tema e que pertencem à indústria tecnológica, a organização conta ainda com o apoio de uma rede de voluntários que inclui a reconhecida professora e investigadora do MIT, Sherry Turkle, o CEO da MeetUp, Scott Heiferman, Justin Rosenstein, o co-inventor do famoso botão “like”, o ex-google e filósofo do Oxford Internet Institute, entre muitos outros. Por outro lado, e enquanto orador muito requisitado nos círculos de debate por excelência destas temáticas, as conferências que vai proferindo, por exemplo, no Berkman Klein Center for Internet & Society da Universidade de Harvard, na igualmente famosa O’Reilly Design Conference, em reuniões internas exclusivas para empregados do Facebook e, é claro, nos eventos TEDx, granjearam-lhe um conjunto considerável de “parceiros” que partilham das suas preocupações e ambições.

Depois de passar uma década a analisar as influências invisíveis que “sequestram” o pensamento e acções humanas, através do estudo da adição, da engenharia social, da mágica performativa, do design persuasivo e da economia comportamental, Tristan Harris está neste momento a desenvolver uma estrutura de persuasão ética, em particular no que diz respeito à responsabilidade moral das empresas de tecnologia. O seu mais ousado objectivo, enquanto líder desde movimento que visa alterar os fundamentos do design de software, consiste em convencer os designers de produto a adoptar um “Juramento de Hipócrates” neste domínio, o qual, como explica numa entrevista à revista Fast Company, teria como missão verificar a “prática de exposição das pessoas a vulnerabilidades psicológicas”, restaurando o “livre arbítrio” aos utilizadores, acreditando que existe forma de o design não ter como base a adição (ou o vício) mas propósitos mais alinhados com o bem-estar social.

Este código de conduta (cujos fundamentos podem ser lidos neste ensaio) está a ser escrito em estreita parceria com Joe Edelman, um reconhecido filósofo, cientista social e designer que, tal como Harris, acredita plenamente que os tempos em que vivemos exigem uma mudança drástica no que respeita à forma como os sistemas humanos – redes sociais, sistemas políticos, organizações – estão a ser desenhados, e que levar a cabo esta transformação necessária significa uma compreensão muito mais clara das pessoas, nomeadamente da forma como vivem e cooperam. Edelman e Harris estão igualmente a trabalhar num guia de boas práticas com o objectivo de orientar as start-ups e as grandes empresas a apostarem em produtos que “tratem as pessoas com respeito”.

Para aquele que foi considerado como uma das 25 pessoas mais influentes de 2017 pela revista Rolling Stone (em 2009, já tinha sido eleito como um dos maiores influenciadores do futuro com menos de 30 anos pela revista Inc.), as “técnicas de sequestro” utilizadas pelos gigantes tecnológicos são exactamente as mesmas – em versão digital, é claro – que vigoram na indústria da fast food: “injectar sal, açúcar e gordura para induzir a alimentação compulsiva”.

[quote_center]As “técnicas de sequestro” utilizadas pelos gigantes tecnológicos são exactamente as mesmas – em versão digital, é claro – que vigoram na indústria da fast food: “injectar sal, açúcar e gordura para induzir a alimentação compulsiva”[/quote_center]

Como sublinha na Wired, “a McDonald’s ‘agarra-nos’ por apelar a certos sabores desejados pelo nosso organismo, enquanto o Facebook, o Instagram ou o Twitter viciam-nos por nos oferecerem o que os psicólogos denominam de ‘recompensas variáveis’: mensagens, fotos e ‘likes’ aparecem sem horário marcado, o que nos impele a verificarmo-los compulsivamente, pois nunca sabemos quando é que recebemos o prémio responsável pela activação da dopamina [um dos neurotransmissores mais famosos do nosso cérebro e responsável pelo prazer] e fazendo-nos perder a noção do tempo despendido nestas múltiplas “operações”.

Por exemplo, apesar de, na verdade, acreditarmos que ir ao Facebook porque recebemos uma mensagem de um amigo só nos obriga a gastar alguns poucos segundos, são várias as pesquisas que demonstram que são necessários cerca de 25 minutos para voltarmos à tarefa que estávamos a fazer anteriormente. E esta perda de tempo – e de atenção – multiplica-se interminavelmente. Com afirma, perdemos o controlo da nossa relação com a tecnologia porque esta, simplesmente, se tornou mais eficaz a exercer um controlo gigantesco sobre nós.

A cruzada de Tristan Harris já ultrapassou as fronteiras dos ciclos mais tecnológicos. A sua TED Talk sobre o tema, e proferida em Abril de 2017 para um círculo restrito de pessoas, ficou online e conta já com quase dois milhões de visualizações, tendo como mensagem principal as mudanças drásticas que o seu mentor acredita serem urgentes: no essencial, persuadir os gigantes tecnológicos a nos libertarem mais facilmente dos dispositivos que nos amarram. Mas e como afirma na própria talk, antes de se pensar no que é preciso alterar, há que sensibilizar ainda para o problema.

© DR

A disputa desenfreada por atenção está a minar os pilares da sociedade

No webite do Center for Humane Technology que abriga o movimento Time Well Spent, o tom da mensagem de “boas-vindas” está perto do catastrofista. “A nossa sociedade está a ser sequestrada pela tecnologia”, pode ler-se, ao que se segue “o que começou por ser uma disputa para monetizar a nossa atenção está agora a corroer os pilares da nossa sociedade: a saúde mental, a democracia, as relações sociais e as nossas crianças”.

Harris vai ainda mais longe e afirma que aquilo que já é amplamente diagnosticado como uma adição faz parte de algo muito maior. Não negando que o Facebook, o Twitter, o Instagram e o Google têm vindo a produzir benefícios valiosos para a sociedade no geral, sublinha igualmente o facto de estes gigantes estarem numa guerra concorrencial sem limites para conquistarem a nossa atenção – a qual precisam de vencer para ganhar dinheiro – o que os “obriga” a desenvolver técnicas cada vez mais persuasivas para nos manter “agarrados”. Mas e infelizmente, aquilo que melhor captura a nossa atenção, não é o melhor para o nosso bem-estar, acrescenta ainda, exemplificando o que, apesar de simples, nem sempre é fácil de consciencializar.

[quote_center]“O que começou por ser uma disputa para monetizar a nossa atenção está agora a corroer os pilares da nossa sociedade: a saúde mental, a democracia, as relações sociais e as nossas crianças”[/quote_center]

Seja o Snapchat que redefine a forma como os nossos filhos avaliam a amizade, seja o Instagram que glorifica a “vida perfeita em fotos”, corroendo a nossa auto-estima e o nosso verdadeiro valor, seja o Facebook que nos segrega em câmaras de ressonância, fragmentando as nossas comunidades ou o YouTube que, em modo de autoplay, nos invade com o “vídeo seguinte” mesmo que já estejamos a dormir, para Harris estes produtos não são “neutros”, mas sim parte integrante de um sistema concebido para nos viciar e manipular.

Ao vivermos numa era em que dependemos, minuto a minuto, do nosso telefone, que dita em que é que temos de pensar, a quem devemos uma resposta, o que é importante nas nossas vidas, ou que nos diz quem esteve recentemente online – e diz o mesmo de nós aos outros – quem viu o nosso perfil, quem “gostou” das nossas publicações, e que nos mantém activos e cativos desde que acordamos até que nos deitamos, torna-se urgente reconhecermos esta realidade e fazermos algo contra ela.

Esta cruzada para nos manter constantemente ligados a um ecrã tem, para Harris, efeitos perversos na nossa saúde mental, na medida em que, não conseguindo desligar, os nossos níveis de stress e ansiedade aumentam, ao memo tempo que a qualidade e horas de sono diminuem; por outro lado, e no que aos mais novos diz respeito, esta luta desenfreada pela atenção constante só serve para substituir o seu amor-próprio por likes, encorajando a comparação com os outros e criando uma ilusão constante de que estão a desperdiçar algo; já as nossas relações sociais são profundamente afectadas pois, de forma crescente, optamos por interacções virtuais e “recompensas” – como likes e partilhas – em detrimento do face a face e da vida “normal” em comunidade; por último, a própria democracia é afectada já  que os media sociais sabem exactamente o que melhor captura a atenção, sejam escândalos, notícias falsas e “bolhas de filtros”, os quais apenas servem para nos dividir e nos afastar da verdade.

Ma como é possível lutar contra esta manipulação que, voluntariamente, parecemos aceitar? Tristan Harris tem algumas ideias bem definidas sobre formas possíveis de o fazer. Já apresentou protótipos de produtos que integram alguns princípios de design ético, argumentando contínua – e talvez ingenuamente – que é a tecnologia que nos deve ajudar a estabelecer os nossos próprios limites. Por exemplo, termos uma Inbox que nos “pergunte” quanto tempo desejamos dedicar à recepção e resposta a emails e que nos possa avisar quando é que excedemos essa “quota” previamente definida. O que defende é que “a tecnologia deve permitir que tenhamos a noção para onde vai o nosso tempo, para podermos tomar decisões informadas – imagine que o seu telefone o alerta que é a 14º vez que o desbloqueia em apenas uma hora? – e ajudar-nos a ir ao encontro dos nossos objectivos, dando-nos controlo no que respeita aos nossos relacionamentos e permitindo que nos afastemos dela sem ansiedade”.

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E como resgatar o controlo perdido?

O primeiro passo, e nada fácil, a dar para nos libertarmos das amarras tecnológicas reside, de acordo com Tristan Harris, na transformação da nossa auto consciencialização para o problema.  A tendência é considerarmos que os outros são passíveis de ser persuadidos ou manipulados, algo que não acontece connosco, pois somos inteligentes e obviamente que somos nós que controlamos a nossa vida e o nosso tempo. O mesmo acontece com os nossos pensamentos, opiniões, preferências e causas que, naturalmente, não são controláveis por nada ou ninguém.

O que Tristan defende é exactamente o oposto, numa espécie de “lavagem cerebral” cuidadamente elaborada por engenheiros, software e algoritmos capazes de nos influenciar profundamente. E a criação de um “despertar cultural” é uma das suas propostas para que seja possível transformar a consciência pública para que os consumidores reconheçam a diferença entre a tecnologia desenhada para extrair toda a nossa atenção e uma outra cujos objectivos estejam alinhados com os nossos valores. Assim, a sua organização pretende fazer crescer este movimento de consumidores que assumam o controlo das suas vidas digitais com melhores ferramentas, hábitos e exigências que permitam levar a cabo esta mudança.

[quote_center]As nossas relações sociais são profundamente afectadas pois, de forma crescente, optamos por interacções virtuais e “recompensas” – como likes e partilhas – em detrimento do face a face e da vida “normal” em comunidade[/quote_center]

Inspirar um design de software mais humanizado é outro caminho que, para este optimista, pode ser adoptado por empresas como a Apple, a Samsung ou a Microsoft para resolver o problema, na medida em que manter as pessoas coladas ao ecrã não constitui o seu modelo de negócio. Estes gigantes podem redesenhar os seus dispositivos e interfaces principais para proteger as nossas mentes de distracções constantes, minimizar o tempo que passamos com os olhos grudados nos ecrãs, proteger os nossos relacionamentos e substituir o mercado das apps que concorrem pela nossa atenção por um outro que privilegie a concorrência entre ferramentas que sirvam para beneficiar as nossas vidas e a sociedade no geral.

Para que esta transformação pouco provável aconteça há que contar com a ajuda e influência políticas. Os governos poderão exercer pressão para que as empresas tecnológicas trabalhem a partir de modelos de negócios mais humanos incluindo as externalidades negativas da extracção de atenção nos seus balancetes e criando uma protecção eficaz que salvaguarde os consumidores. A organização de Tristan está já a prestar aconselhamento a alguns governos no que respeita ao desenvolvimento de políticas que sigam estas premissas.

[quote_center]Inspirar um design de software mais humanizado é um caminho que pode ser adoptado por empresas como a Apple, a Samsung ou a Microsoft para resolver o problema[/quote_center]

Por último, há que contar com o próprio envolvimento dos melhores activos de que as empresas gozam – os seus talentosos trabalhadores – e que não se arriscam a perder. Tristan acredita que a maioria dos engenheiros e especialistas tecnológicos deseja construir produtos que melhorem a sociedade e não trabalhar em formas cada vez mais negativamente sofisticadas de extracção de atenção que só a arruínam. A sua organização está também já a “recrutar” trabalhadores da indústria tecnológica que partilham das suas preocupações para que estes lutem no sentido de desenvolver sistemas e modelos de negócio não baseados em decisões de “extracção da atenção”.

Tristan Harris tem um sonho. Mas não vai ser fácil torná-lo realidade. Todavia, e se pretende recuperar o controlo da sua vida distanciando-se da manipulação digital, o website de Harris dá algumas preciosas e eficazes sugestões.

Helena Oliveira

Editora Executiva