Estas crises globais colocam em evidência as fragilidades das sociedades alicerçadas numa falsa segurança, centrada no individualismo e recordam-nos que necessitamos uns dos outros, exigindo a reafirmação de um propósito solidário que nos una, inspire e nos guie: as Pessoas.
POR MIGUEL RIBEIRINHO

Quando olhamos para a história das empresas, conseguimos encontrar momentos disruptivos que provocaram alterações no seu padrão evolutivo e que marcaram novas etapas de forte desenvolvimento e crescimento.

Falamos muitas vezes de momentos turbulentos, com uma envolvência contextual de problemas e dificuldades, que desafiam a sobrevivência organizacional e a obrigam a adaptar-se, inovando.

A acrescentar ao contexto atual, os últimos anos demonstraram, com maior enfase, que as organizações não conseguem encontrar soluções sozinhas, pois os problemas a resolver são cada vez mais complexos, implicando a construção de redes de inovação para a criação de valor com os todos os parceiros interessados, através de ecossistemas organizacionais.

A inovação, surge assim, como o único caminho para ultrapassar o momento atual em que vivemos.

Também conhecemos os riscos neste processo, e por isso deveremos canalizar os recursos para as inovações que consigam ter aderência nos fluxos do ecossistema.

Esta lógica diminui o risco de insucesso na fase de implementação, pois permite a transformação e a adaptação do ecossistema, de forma consistente, aos novos desafios e oportunidades.

Para conseguir êxito neste caminho é necessário que as pessoas sejam o centro da inovação, pois são elas que formam o ecossistema. São elas que, através das suas competências, dos seus fluxos e do seu ADN organizacional, conseguem construir uma inovação que seja a solução que faz acontecer, transformado e adaptando com sucesso o ecossistema organizacional aos novos desafios e oportunidades, garantindo a sua sobrevivência.

Será interessante refletirmos no modelo alemão para resposta a crises económicas, que aposta na manutenção das competências e do conhecimento nas organizações, através das pessoas.

As pessoas continuam a trabalhar na organização, embora com horários não completos, que se ajustam à evolução da crise e da posterior retoma e o Estado comparticipa parcialmente o diferencial no respetivo salário. Este modelo permite manter a competitividade, adaptando a organização e todo o seu ecossistema de valor à nova realidade, garantindo uma resposta ágil e imediata às diversas oportunidades emergentes.

Em Portugal, as organizações, não conseguiram, do Estado, soluções rápidas e ágeis às suas necessidades, existindo diversas barreiras na efetividade prática das medidas apresentadas.

Este estrangulamento dificulta o foco na inovação, pois os problemas de curto prazo não são aliviados e obrigam a respostas urgentes, algumas das quais poderão hipotecar a capacidade de sobrevivência futura das organizações.

Esta zona de incerteza provocada pelas indefinições das medidas apresentadas, origina uma forte pressão por procurar caminhos mais “fáceis” de percorrer e aparece a tentação de ver as pessoas como problema e não como solução.

No entanto, a grande maioria dos empresários portugueses já nos tem habituado a uma forte resiliência e nas últimas semanas temos assistido a inúmeros exemplos positivos de inovações com impactos positivos na sociedade.

Redirecionaram os seus recursos para responder a necessidades imediatas e urgentes dos setores mais carenciados e, simultaneamente, estão a apostar na inovação para redesenharem as suas cadeias de valor e assim conseguirem responder aos novos desafios das pessoas, das comunidades e da sociedade no novo normal.

Mas para que esta determinação não pare e para que se possa transformar em impacto e criação de valor duradouro, o Estado também tem que fazer a sua parte e transformar as suas intenções em ações efetivas.

A recuperação do País apenas será possível se existir sustentabilidade socioeconómica no caminho de progressão e, por isso, todos estamos chamados a assumir uma responsabilidade solidária.

Estas crises globais colocam em evidência as fragilidades das sociedades alicerçadas numa falsa segurança, centrada no individualismo e recordam-nos que necessitamos uns dos outros, exigindo a reafirmação de um propósito solidário que nos una, inspire e nos guie: as Pessoas.