O apelo foi feito por Francisco, na homilia do Domingo de Ramos no Vaticano, mas as palavras do Papa não são novas. Central ao seu pontificado tem sido a aproximação aos mais jovens, exortando-os a não se deixarem silenciar, a serem os protagonistas do seu futuro e a lutarem contra uma cultura conformista. E é sobre os jovens, para os jovens, mas também para os adultos – muitas vezes os responsáveis pela cultura desenraizada em que estes vivem – que o Papa Francisco lançou um novo livro, intitulado “Deus é jovem”
POR
HELENA OLIVEIRA

“Como é que podemos educar os jovens para se abrirem ao próximo e ao transcendente?” A pergunta foi feita na reunião pré-sinodal, no passado 19 de Março, onde jovens de todo o mundo, católicos e de outras confissões, crentes e não crentes, se reuniram com o Papa Francisco, em antecipação ao sínodo dos bispos, a ter lugar em Outubro e que terá como tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.

Na resposta à pergunta – feita por um jovem – Francisco sublinhou que a educação deveria ensinar três linguagens básicas: a da cabeça, a do coração e a das mãos. A linguagem da cabeça, explicou, significa pensar bem e aprender coisas concretas. A do coração, compreender as emoções e os sentimentos. E a linguagem das mãos pode ser traduzida em se fazer bom uso dos dons que Deus concede para a criação de coisas novas. A chave, sublinhou, “é utilizar as três em conjunto”, depois de ter alertado para a “natureza isoladora” do mundo digital e virtual da actualidade. Mas longe de demonizar a tecnologia – que ele próprio tão bem utiliza -, Francisco frisou, ao invés, que há que saber usar esta riqueza com uma “objectividade que produza liberdade”.

Esta foi apenas uma das questões respondidas pelo Papa, um dia antes do lançamento mundial do seu mais recente livro e cinco anos depois de ter sido eleito como chefe do Vaticano. Em modo de entrevista, o livro “Deus é jovem” resulta de várias conversas com o escritor e jornalista Thomas Leoncini e é dirigido aos jovens de todo o mundo, “de dentro e fora da Igreja” e “num diálogo corajoso, íntimo e memorável”, como se pode ler no portal de notícias do Vaticano. Apresentado a 20 de Março em Portugal – pela editora Planeta -, Espanha e América Latina, a obra contém “uma mensagem de libertação que retrata o presente e desenha o futuro, construindo uma ponte entre as gerações” e “analisa com força e paixão os grandes temas da actualidade”, propondo “arrancar as novas gerações, ou seja, os grandes rejeitados do nosso tempo agitado, das margens a que foram relegadas, destacando-as como protagonistas da nossa história”.

Na reunião acima citada, o Papa fez saber que “muitas vezes falamos com os jovens sem sequer perguntar o que eles pensam”. E este livro pode ser encarado como mais uma prova da proximidade que Francisco tem com os mais novos, presente desde o início do seu Pontificado. Utilizando, por várias vezes, o termo “descartados” para caracterizar os jovens da actualidade, em “Deus é jovem”, são abordados vários e preocupantes temas da sociedade actual, tão díspares quanto a exploração patronal, o desemprego, a precariedade, os conflitos intergeracionais, o inconformismo necessário ou a “bolha” em que muitos jovens vivem, optando pela “conexão digital” ao invés de relacionamentos no mundo real, entre um conjunto de outras temáticas exclusivamente dedicadas aos que devem ter “um pensamento forte, genuíno e pessoal” e não serem “todos iguais, fracos e sem identidade”.


“Não deixes que a centelha da juventude se extinga na escuridão de um quarto fechado no qual a única janela para o mundo lá fora é um computador ou um smartphone”, apelou na sua mensagem habitual para assinalar o Dia Mundial da Juventude. “Abre, sim, as portas para a tua vida”, acrescentaria ainda.

A relação de proximidade e empatia que une os jovens a este Papa tem sido, e ao longo dos últimos cinco anos, sempre digna de nota. Na missa do Domingo de Ramos,.o qual marca o início da Semana Santa – e sem mencionar directamente a gigantesca “marcha pelas nossas vidas” que teve lugar em várias cidades dos Estados Unidos, e que de acordo com as estimativas, juntou mais de meio milhão de pessoas – jovens em particular – para protestarem pelo fim da “epidemia de armas” – Francisco exortou os mais novos a não se deixarem silenciar:

“Existem muitas formas de silenciar os mais jovens e de os tornar invisíveis. Muitas maneiras de os anestesiar e adormecer para que não façam ‘barulho’, para que não se interroguem nem ponham em discussão. «Vós… calai-vos!» Há muitas maneiras de os fazer estar tranquilos, para que não se envolvam, e os seus sonhos percam altura tornando-se fantastiquices rasteiras, mesquinhas, tristes. Neste Domingo de Ramos, em que celebramos o Dia Mundial da Juventude, faz-nos bem ouvir a resposta de Jesus aos fariseus de ontem e de todos os tempos (também os de hoje): «Se eles se calarem, gritarão as pedras» (Lc 19, 40).
Queridos jovens, cabe a vós a decisão de gritar, cabe a vós decidir-vos pelo Hossana do Domingo para não cair no «crucifica-O» de sexta-feira… E cabe a vós não ficar calados. Se os outros calam, se nós, idosos e responsáveis (tantas vezes corruptos), silenciamos, se o mundo se cala e perde a alegria, pergunto-vos: vós gritareis?
Por favor, decidi-vos antes que gritem as pedras.”

Francisco pediu aos jovens para gritarem, para se fazerem ouvir. E é essa também a mensagem que pretende passar no seu mais recente livro que, dedicado aos jovens, é também de leitura obrigatória para os adultos.

Tendo como fonte o portal de notícias do Vaticano, e numa época propícia a pensar em renascimento e esperança, o VER reproduz (em tradução livre) algumas passagens do livro agora publicado.

Os jovens são profetas com asas

“Uma pessoa jovem é similar a um profeta e tem de ter consciência disso. Ele ou ela precisa de ter consciência de que tem as asas de um profeta, a atitude de um profeta, a capacidade de profetizar, de fazer ouvir a sua voz, mas também de agir. Um profeta hoje tem a capacidade, sim, de denunciar, mas também de ter a sua perspectiva. E os jovens têm ambas as qualidades.

Sabem como denunciar, mas muitas vezes não sabem expressar essa denúncia da melhor forma. E têm também a capacidade de sondar o futuro e de verem mais além”

Os jovens de hoje estão a crescer numa sociedade desenraizada

Para perceber um jovem da actualidade é necessário encará-lo como parte de um movimento, não sendo possível estar-se quieto e fingir que se está no mesmo comprimento de onda. Se queremos dialogar com um jovem, temos de ser ‘móveis’, e ela ou ela terá de abrandar para nos ouvir, caso assim o decida. E quando abrandar, um novo movimento terá início, no qual essa pessoa jovem irá diminuir o seu ritmo para que possa ser ouvida enquanto os que forem mais velhos terão de acelerar para descobrir um ponto de encontro [entre si]. O que pode indicar progresso (…). Muitas vezes são os adultos que desarraigam os mais novos, que arrancam as suas raízes e, em vez de os ajudarem a serem profetas para o bem da sociedade, fazem deles órfãos e descartam-nos”.

Pedir perdão aos mais novos

“Temos de pedir perdão aos nossos jovens porque nem sempre os levamos a sério. Nem sempre os ajudamos a ver o caminho ou construímos os meios necessários para não serem descartados. Muitas vezes não sabemos como os podemos ensinar a sonhar e não somos capazes de os entusiasmar. É normal procurar ter dinheiro para construir uma família, um futuro, e para que seja possível, desta forma, acabar com a posição de subordinação face aos adultos, a qual os jovens de hoje têm de suportar durante demasiado tempo. Mas importa também evitar o estímulo da acumulação.

É o trabalho que alimenta a alma, não o dinheiro

“Toda a gente tem o direito ao trabalho. Qualquer ser humano precisa de ter a possibilidade concreta de trabalhar, de demonstrar a si próprio, e aos que lhes são queridos, que consegue ganhar a vida. A exploração não pode ser aceitável. Não é aceitável que tantos jovens sejam explorados por empregadores que lhes fazem falsas promessas de salários que nunca se materializam, com a desculpa de que eles são novos e precisam de experiência. Não é de todo aceitável que os patrões esperem que os jovens façam trabalhos perigosos – mesmo sem pagamento – como acontece. Os jovens pedem que os escutemos e nós temos o dever de os escutar, de os tornar bem-vindos, e não de os explorar. Nenhum tipo de desculpa é aplicável neste caso”.

Muitos pais educam os seus filhos de acordo com a cultura do efémero

“Parece que é mau crescer, envelhecer, ganhar experiência. Como se tal fosse sinónimo de uma vida estafada e insatisfatória. Hoje, tudo parece ilusório e falso. É como se a vida não tivesse significado/propósito. Afirmei há pouco tempo como é triste que alguém queira fazer ao lifting rosto, ou um lifting também ao coração. O quão triste é que alguém queira apagar as rugas de tantas experiências, de tantas alegrias ou tristezas! E muitas vezes são os próprios adultos que fazem de conta que são meninos, que sentem a necessidade de se colocarem ao mesmo nível de um adolescente, mas que não percebem o quão enganador isso é. É como brincar com o diabo.

Não consigo compreender como pode ser possível para um adulto sentir que deve estar numa competição com uma pessoa mais nova, mas infelizmente é algo que acontece cada vez com maior frequência. (…). Existem muitos pais que têm mentalidade de adolescente, que brincam à vida efémera eterna, sendo que conscientemente ou não, acabam por transformar os seus filhos em vítimas deste perverso jogo do efémero. Por um lado, porque os direccionam para essa cultura do que é fugaz e efémero, e por outro, porque os fazem “criar raízes” numa sociedade que já definimos como ‘desenraizada’”.

Os velhos sonhadores e os jovens profetas são a salvação para a sociedade desenraizada

Nos dias de hoje, as redes sociais parecem oferecer um espaço de conexão com os outros; com a web, vem a virtualidade: a web deixa os jovens no “ar” e, por essa mesma razão, é extremamente volátil. (…) E é o diálogo que tem a força para nos salvar, penso eu, o diálogo dos mais novos com os mais velhos: uma interacção entre o velho e o novo, mesmo excluindo os adultos temporariamente. Os velhos e os novos têm de falar entre si e com maior frequência. E isto é muito urgente! E aqueles que são velhos têm tanto o dever de tomar a iniciativa para o fazer como os mais jovens. (…) Todavia, esta sociedade marginaliza ambos. Descarta tanto os jovens como os velhos.

Contudo, a salvação reside no facto de os mais velhos oferecerem aos jovens a sua memória, o que faz deles os verdadeiros sonhadores do futuro, sendo que a salvação dos mais novos é receber estes ensinamentos, estes sonhos e projectá-los de forma profética no futuro. (…) Os velhos sonhadores e os jovens profetas são o caminho para a salvação da nossa sociedade desenraizada: duas gerações descartadas que podem salvar toda a gente”.

Deus é jovem porque “faz novas todas as coisas” e porque é social

Deus é Aquele que sempre se renova porque é sempre novo: Deus é jovem! Deus é o Eterno que não tem tempo, mas que é capaz de renovar, de se rejuvenescer continuamente, bem como a todas as coisas. E as mais peculiares características dos que são jovens são as de Deus também. E Ele é jovem porque “faz todas as coisas novas” e porque ama o que é novo: porque surpreende e ama surpreender; porque sabe como sonhar e deseja os nossos sonhos; porque é forte e entusiasta, porque constrói relacionamentos e pede-nos que façamos o mesmo. Porque é social. Quando penso na imaginação dos mais novos e vejo que também eles possuem a capacidade de serem “eternos”, colocando em acção a sua inocência, a sua criatividade, a sua coragem, a sua energia, em conjunto com os sonhos e a experiência dos mais velhos, é um ciclo que se fecha, que cria uma nova continuidade e que me faz lembrar a imagem da eternidade”.